19 de ago de 2013

Review: O mal nunca morre em “American Horror Story Asylum”

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A primeira temporada de American Horror Story, posteriormente intitulada Murder House, foi uma tremenda bagunça. De uma ideia interessante dos criadores Ryan Murphy e Brad Falchuk (Glee), a série tirou um primeiro ano que jogava tramas e subtramas ao vento sem propriamente desenvolver nenhuma delas, que tentava realizar o retrato de um casamento em ruínas (um “horror” muito arraigado no zeitgeist americano) e, mesmo quando conseguia, se perdia em meio a decisões apressadas que prezavam o choque pelo choque, sem função na trama. Asylum, esse segundo ano, tira o melhor dessa premissa, não perde o clima camp, e corrige o grande erro da primeira temporada: conta uma história de verdade.

Em seus melhores momentos, American Horror Story é exatamente aquilo que o título diz: uma antologia horrorizante de todos os males que assombram a América, a de verdade e a da ficção, com o passar dos anos. O problema de comprimí-los em uma história só, com começo, meio e fim, é grande para Murphy, Falchuk e seus roteiristas, mas por boa parte de Asylum, essa é uma missão cumprida. A regularidade aqui é impressionante, mesmo que a série pelo menos uma vez (no terceiro episódio, “Nor’Easter”) tropece novamente na velha mania de abandonar a linha condutora da trama em favor do valor de choque. O segredo de não desembalar por esse barranco, Asylum sabe, é se levar a sério o bastante para ser comovente quando precisa e contundente ao passar sua mensagem (porque sim, essa temporada tem uma!), mas nunca demais a ponto de deixar de ser divertida.

O camp aqui é delicioso quando toma o centro das atenções, mas o é justamente porque não compõe o coração da série. No fundo, Asylum está mesmo preocupado com personagens, arcos de transformação e narrativa. Todo o resto é só uma distração, e justamente por isso o espectador se deixa levar por deleites como a interpretação de Lily Rabe como a Irmã Mary Eunice, uma doce freira que é o braço direito da Irmã Jude de Jessica Lange no comando do sanatório de Birarcliff. Isso, é claro, até ela ser possuída pelo demônio. A atriz, que ganha mais destaque aqui do que na primeira temporada, se diverte a beça no papel, e muito dessa diversão acaba se transferindo para o público.

Uma boa evidência dessa recém-encontrada competência narrativa é o simples fato de que, dessa vez, American Horror Story tem um centro. E ele está firmemente pregado na personagem Lana Winters, uma repórter ambiciosa que, ao tentar realizar uma matéria expositiva dos horrores do sanatório de Briarcliff, acaba encarcerada no lugar sob a acusação de lesbianismo. Ela é setpiece central da temporada porque está no cerne natural de todos os temas da mesma, e não o contrário. As melhores decisões narrativas são assim: parecem consequencias da história contada, e não manipulações da mesma. Sarah Paulson, que foi coadjuvante absoluta na primeira temporada, segura esse centro com garra impressionante e consistência incansável.

Outro bom exemplo é o senso de retrato social que a série adquiriu entre o primeiro e o segundo ano: Asylum é um conto de terror tão legítimo porque entre suas assombrações figura a injustiça social, a definição superficial do “normal” e da “loucura”, e a obtenção e abuso do poder para a manutenção do status quo. A própria escolha da localização temporal da trama demonstra esse pensamento mais amplo: os anos 60 são aquela época cinzenta em que todas as tradições da América pós-Guerra Civil entraram em conflito com os ideais vendidos pela cultura pop. As convenções daqueles que comandavam a sociedade não eram compatíveis com as dos comandados, e justmente nessa disputa de poder que Asylum se posiciona como espelho distorcido da realidade americana.

Claro, American Horror Story sempre teve, mesmo na primeira temporada, um coração mais profundo, mais sombrio e mais fundamental. A lógica por trás da série sobreviveu às mudanças entre as temporadas, e se o novo senso de narrativa encontra-se focado em Lana, o epicentro conceitual dessa identidade definida por Murphy e Falchuk está sobre os ombros mais do que capazes de Jessica Lange. Do alto de seus 64 anos, a atriz que foi a mocinha da versão de 1976 de King Kong está gigantesca como a Irmã Jude, genuinamente hipnotizante nos primeiros episódios, e progressivamente contruindo uma atuação densa e cheia de camadas. A intensidade de sua performance é igual ao detalhismo e cuidado aplicado a mesma, e Jude acaba se tornando tão facilmente odiável quanto identificável.

A trama concentra no calvário da personagem a noção intrinseca de Horror e Mal (com devidas letras maiúsculas) que a série toma para si: e em American Horror Story, esse Mal é muito maior do que a jornada de qualquer ser humano. Ele nunca morre e, como o demônio que toma conta da Irmã Mary Eunice, ele toma a vida de cada um que toca por inteiro. Uma vez tocado por Ele, só resta a cada um de nós esperar pelo beijo piedoso e sombrio da morte.

**** (4/5)

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American Horror Story Asylum está indicado a 17 Emmys, incluindo:
- Melhor Elenco para Minissérie ou Filme
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme (Jessica Lange)
- Melhor Minissérie ou Filme
- Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme (James Cromwell)
- Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Zachary Quinto)
- Melhor Atriz Coadjuvantte em Minissérie ou Filme (Sarah Paulson)

Caio

1 comentários:

Jorge Rodrigues disse...

Sempre dou uma olhada n'O Anagrama, sou leitor desde a estreia de The Americans, e dou de cara com um texto voltado a American Horror Story Asylum.
A primeira temporada é horrível, chata, não tem nexo nenhum e estava ali pra causar com elementos de terror. Estreou Asylum e fui ver com o nariz arrancado de tão torcido que estava, e logo fui fisgado pelo episódio de estreia e a história foi crescendo, crescendo até chegar no ponto alto que foi o último episódio. Jessica Lange fez uma personagem detestável, mas tão humana quanto eu, cheia de conflitos, defeitos, ela acreditava que estava fazendo um bem. Lily Rabe foi a lindeza que foi, sendo aquela ingênua freirinha ao se transformar numa impiedosa, devassa e diabólica mulher tomada pelo Diabo...e ela cantando "You don't own me" para um crucifixo foi de uma simbologia que fiquei louco. Sarah Paulson foi a personagem que foi me conquistando aos poucos, sabia que ela era uma heroína, mas não tinha empatia com ela, mas tudo que ela carregava era de uma crítica social, e no último episódio que ela tomou toda a história pra si, fico emocionado demais ao lembrar da última cena dela com Johnny Morgan.
Os atores masculinos foram ótimos, mas quem imperou do primeiro ao último episódio foram as mulheres.