2 de ago de 2013

Review: “Phil Spector”, um filme sobre a Justiça (com letra maiúscula)

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No início de Phil Spector, telefime que a HBO exibiu em Março passado, a emissora mostra um letreiro que garante que a trama que o espectador está se preparando para ver é inteiramente ficcional, uma dramatização assumida de um fato real, e que não tem a intenção de “comentar o resultado do julgamento mostrado”. O aviso antes do início do filme é bem oportuno, porque David Mamet, roteirista e diretor, não tem tempo para deixar isso claro durante os 90 minutos de duração de sua obra. E também porque “comentar o resultado” do julgamento do personagem título realmente não é sua intenção. O interesse de Mamet está em temas mais amplos como o funcionamento da Justiça (com letra maiústica, para indicar o sistema judiciário, e não o valor abstrato) e o valor da verdade sob o olhar muitas vezes cruel do público.

A história real é bem conhecida: Phil Spector foi o produtor dos sonhos de qualquer artista durante os anos 60 e 70, promovendo a carreira de artistas até então desconhecidos e provendo momentos lendários a outros que já eram consagrados, tudo antes de se tornar um famoso recluso do mundo da música, se entocando em sua mansão até 2003, quando foi acusado do assassinato da jovem Lana Winters, encontrada morta em sua casa. O roteiro de Mamet é multifacetado no sentido em que consegue explorar ao mesmo tempo os meandros da Justiça e o estatuto da fama e do folclore que a mídia contemporânea cria em torno de uma personagem. Em muitos sentidos, nesse relato de parte do julgamento de Spector, as duas coisas se entremeiam e interceptam, criando uma narrativa concisa, competente e completa.

Claro, não é surpresa nenhuma que Mamet tenha feito um thriller inteligente. Seu diálogo impiedoso com o espectador pouco atento se delicia com os meandros legais e com os longos monólogos delirantes do personagem-título, sua direção mantem um visual cru e direto, sem firoulas de fotografia mas com uma identidade estética eficiente. Indicado ao Oscar por Mera Coincidência e responsável por títulos pouco vistos mas muito celebrados como Spartan e Cinturão Vermelho, Mamet é um diretor-autor na melhor definição da expressão. E um excelente guia para seus atores também, é claro. Helen Mirren crava nas mãos dele uma de suas melhores atuações, e isso não é dizer pouco: o talento da dama britânica estende-se aqui para uma personagem com determinação de ferro, e Mirren emerge nesse período de inferno pessoal da mulher que interpreta com confiança.

Al Pacino, como de costume, é um capítulo a parte. O pendor para a dramaticidade que domina a fase pós-Perfume de Mulher do ator (nossa teoria é que, com o Oscar já nas mãos, ele só quer se divertir) é a abordagem perfeita para o personagem Phil Spector. David Mamet trata a personalidade gigantesca da criatura que coloca em tela como um objeto de estudo fascinante e sutil, um mistério interminável que não é feito para ser desvendado. Não dentro desses 90 minutos, pelo menos. Spector transborda e transcende o filme em que está posto, e o mesmo faz a interpretação sublime de Pacino. É excitante assistir um dos melhores atores de todos os tempos achar o personagem certo para sua grandeza, mas mais excitante ainda é o fato que Phil Spector, o filme, é maior do que ele. Maior até do que a história real que conta. É uma defesa inteligentíssima do direito universal da inocência presumida.

***** (4,5/5)

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Phil Spector está indicado a 11 Emmys, incluindo:
- Melhor Roteiro para Minissérie, Filme ou Especial Dramático (David Mamet)
- Melhor Direção para Minissérie, Filme ou Especial Dramático (David Mamet)
- Melhor Ator em Minissérie ou Filme (Al Pacino)
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme (Helen Mirren)
- Melhor Minissérie ou Filme

Caio

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