31 de out de 2013

Review: Os franceses e a arte de narrar em “Les Revenants”

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

Há mais do que algumas poucas coisas que os americanos, britânicos e o restante do mundo pode aprender com os franceses em termos de arte, mas talvez uma das grandes virtudes de tudo que é produzido naquele país seja a habilidade e o domínio absoluto que se parece ter sob a narrativa. O princípio francês é simples, e também está em uma boa parte dos manuais de roteiro por aí: a hitória conta a si mesma, confina-se em si mesma, e depende apenas de si mesma para produzir quaisquer outros significados conseguintes. A história é de onde tudo vem, e para onde tudo deve levar. O que derivar dela está essencialmente fora das mãos de quem a conta, ao menos em sua completude.

Les Revenants, série do Canal +, principal emissora de televisão francesa (conhecida dos que acompanham o cinema de lá, uma vez que está listada como patrocinadora em boa parte das produções), ganhou público também em terras ocidentais não por acaso: com uma estrutura potencialmente complexa que envolve uma quantidade grande de personagens, acontecimentos em tempos diferentes e um constante senso de desorientação e mistério, essa é uma narrativa tão absolutamente centrada em si mesma que seu funcionamento e desenvolvimento é mais orgânico, natural e, por isso mesmo, mais instigante, do que qualquer série americana na memória recente.

Inspirado por um filme homônimo lançado em 2004, Les Revenants é um suspense de cidade pequena, assim como Twin Peaks e Bates Motel, mas de forma alguma semelhante a esses exemplares do gênero. Na cidade montanhosa retratada aqui, inexplicavelmente uma quantidade crescente de pessoas dadas como mortas reaparecem, aparentemente vivas e em bom estado de saúde. No desenrolar dos oito capítulos da primeira temporada, conhecemos aos poucos a morte e a vida desses personagens, e a série procede em analisar tanto o impacto desses “retornos” nas vidas das pessoas que estiveram de luto por elas algum tempo atrás, quanto o misterioso passado da cidade, conforme o nível do dique que a rodeia começa a baixar e tanto os vivos quanto os “revividos” aparecem com estranhas marcas pelo corpo,

De certa forma, Les Revenants se assemelha a uma novela, tanto no conceito do tipo de obra literária quanto no de narrativa episódica televisiva que conhecemos tão bem aqui no Brasil. O tratamento das storylines de forma praticamente igual, mesmo que cada episódio tenha o nome de um (ou mais) dos personagens, evidencia essa tendência, mas Les Revenants tem a prerrogativa de lidar de forma mais aprofundada e menos marcada pelos clichês com os dramas de cada personagem. Quando fala da morte, algo inescapável por sua premissa, Les Revenants não cai no óbvio, nem nos dá apenas um ponto de vista: conta-nos essas histórias, simplesmente, e apreende nelas as formas como cada um de nós lidamos com o fenômeno mais inescapável e mais incontrolável do mundo.

A trama de mistério segue a forma centrada e jamais apressada que se assemelha aos melhores momentos de Lost. O finale dessa temporada, principalmente, se ocupa em fechar um arco e muito cuidadosamente abrir outro, da forma que Damon Lindelof e companhia fizeram na maioria dos fechamentos de temporada da série dos perdidos. Essa “mudança de status” que vem com o finale é tratada cirurgicamente pelo roteiro, colocando a emoção envolvida nela em primeiro lugar. Isso, é claro, é um banquete para os atores. Ao menos nessa primeira temporada, os destaques são Clothilde Hesme (Adèle), Jean-François Sivadier (Pierre), Jenna Thiam (Lèna), Céline Sallette (Julie) e Grégory Gadebois (Toni), esse último provavelmente fechando sua participação na série. Ou não. Uma das coisas mais deliciosas de Les Revenants é que nunca se sabe.

***** (4,5/5)

les revenants

Uma segunda temporada de Les Revenants já está sendo produzida!

Caio

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