16 de dez de 2013

Review: Menos pretensão e mais competência em “Entre o Amor e a Paixão”

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por Caio Coletti

A canadense Sarah Polley ganhou destaque na cadeira de direção com Longe Dela, em 2006, mas construiu nome mesmo na frente das câmeras em uma extensa carreira de 54 créditos que passeou por televisão e cinema independente, sempre na busca por histórias sensíveis e explorações de gênero e premissas que trouxessem visões diferentes para o cenário. Uma abordagem parecida transparece nesse Take This Waltz (no Brasil, o clichêzão Entre o Amor e a Paixão), primeiro longa-metragem de Polley depois do filme que lhe rendeu a indicação a Melhor Roteiro Original no Oscar. Dá para dizer que este é o olhar da canadense para o gênero do drama romântico, mas Take This Waltz também tem algo a dizer sobre o cinema feminista que tem mostrado a cara nos últimos anos em Hollywood.

Em uma notável cena em que três de suas atrizes tomam um banho juntas no vestiário de uma piscina comunitária, a diretora escancara a vulnerabilidade de suas personagens e expõe seu tema de forma concomitante ao impacto da nudez frontal como elemento de cena não-sexual. De fato, a sexualidade dos personagens de Take This Waltz é um elemento pivotal, mas que é tão conduzido pelas relações emocionais que eles estabelecem entre si quanto motivador das oscilações retratadas pelo roteiro. O filme de Polley é feminista no sentido em que dá uma protagonista mulher a vida e o brilho próprio para seguir suas convicções, na forma como se posiciona para ver o mundo pelos olhos dela e como, em última instancia, não a define pelos relacionamentos amorosos em que ela está. Mas não é um feminismo “de um só lado da cerca”, como Top of The Lake ou Masters of Sex (por mais geniais que sejam), por exemplo: é através da humanização de todos os personagens, da equalização de suas vontades e das consequencias advindas delas, que Polley se posiciona nesse sentido.

Take This Waltz é sobre aquela parte da natureza humana que nunca deixa de ser uma criança, de querer brincar com as aquisições novas e deixar as antigas para trás, por mais que tenhamos construído uma relação de afeto complexa e inquebrável com elas. Margot (Michelle Williams) é casada há cinco anos com Lou (Seth Rogen), um escritor de livros de culinária obcecado por receitas diferentes de frango. Polley nos leva para a intimidade do casal, para seus vícios e pequenas fofuras, para nos mostrar o quanto eles verdadeiramente se amam, mas é em meio a essa rotina romântica que a diretora/roteirista nos mostra também o quanto a paixão entre os dois não existe mais. É aí que entra Daniel (Luke Kirby), um artista que Margot conhece por acaso em um aeroporto, e que descobre ser seu vizinho. Num desenvolvimento narrativo baseado em momentos fortes e por vezes fantasiosos que Polley casa com seu cenário realista de maneira sutil, os dois se apaixonam de uma maneira intensa que não existe no casamento de Margot.

A situação, digna de qualquer drama romântico, evita elevar o melodrama ou tomar um lado. Na exploração de gênero de Polley, ninguém precisa ser o vilão, e cada uma dessas pessoas tem inúmeras falhas e inúmeros charmes, um ponto que os atores acertam em cheio: Michelle Williams faz aqui seu papel anti-Marilyn Monroe, uma mulher muito real e quebrada que por vezes perde o contato com o mundo terreno para mergulhar em suas obsessões, e a atriz acerta o ponto com uma performance consistente e sensível, exatamente como sua personagem; Seth Rogen doma a sua persona hisitrônica das comédias para realçar o lado naturalista da performance, criando um personagem imediatamente carismático e romântico de uma forma muito particular – e nada patética, ao contrário do que possa parecer; Luke Kirby acerta o ponto no charme e no sentimento “alienígena” de seu personagem; e Sarah Silverman, no papel da irmã alcoólatra de Rogen, entrega uma inspiradíssima atuação que conjuga numa mesma frase comédia e amargura.

Com uma fotografia que busca a poesia sem deixar de contar a história, e eventualmente arquiva alguns takes verdadeiramente belos (Luc Montpellier, responsável também por Longe Dela, assina o trabalho), Take This Waltz é um filme com ritmo bastante particular que, na primeira meia hora, pode parecer a conjugação de vontades e elementos que não vão dar muito certo juntos. É preciso paciência, no entanto, até que o espectador entre na frequência e no ritmo da narrativa, e a partir desse momento as sensações e pontos almejados por Polley são passados com confiança e competência nada naturais para uma diretora em seu segundo filme de destaque.

O filme também triunfa porque é especialmente humano em um gênero que, infelizmente, não costuma sê-lo: na repetição de padrões e na dança oscilante de paixões que retrata, o drama romântico da diretora canadense não se furta de mostrar a crueldade do relacionamento humano, mas nem por isso advoga que joguemos seguro. Pelo contrário, parece adotar como missão nos lembrar de que, no final das contas, estamos jogando sozinhos. Todos ao nosso redor, e especialmente aqueles que amamos, estão simplesmente valsando conosco.

***** (4,5/5)

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Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, Canadá/Espanha/Japão, 2011)
Direção e roteiro: Sarah Polley
Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman
116 minutos

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