9 de jan de 2014

Review: American Horror Story Coven, ep.10 – The Magical Delights of Stevie Nicks

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

A impressão que fica no final de “The Magical Delights of Stevie Nicks”, 10ª entrada de Coven e primeira do ano, após semanas aparentemente intermináveis de holiday break, é que o que vimos no episódio anterior, “Head”, foi a tentativa dos roteiristas de limpar a própria bagunça da maneira mais honesta possível. Desde a cena final daquele capítulo, eu estive, particularmente, em uma relação de amor e ódio com Coven (e talvez com American Horror Story como um todo). Aquela epopéia final em que Hank entra no covil das bruxas vodoo e mata todas elas por um motivo meio sem nexo, além de nada sutil, foi aos meus olhos ligeiramente ofensiva.

O que pareceu foi que Coven quis lidar com a questão racial – e não me venha dizer que não quis! Vários momentos em episódios do começo da temporada mostravam o quanto a série tentava tocar nesse assunto, e ao colocar um clã de bruxas brancas contra um de bruxas negras, é impossível, se não antiético, fugir do mesmo –, mas não soube exatamente como fazê-lo. Elegeu como protagonistas de sua história aquelas do lado “branco” da força, escolheu a dedo duas personagens da outra metade da batalha para desenvolver com esmero muito mais creditável às atrizes do que ao roteiro, e contou uma história essencialmente unilateral quando todo o ponto seria muito mais interessante se pudessemos vivenciar o ambiente dessas duas “tribos”.

Quando chegou o momento de juntar os dois lados contra um inimigo em comum, nós não conhecíamos o bastante aquelas personagens, aquele mundo, aquela situação, para sentirmos algo além da fraca empatia que aparece quando um estereótipo racial ambulante é baleado em tela. Não é do feitio de American Horror Story confiar em clichês, mas em Coven, quando estamos falando das bruxas vodoo, a série simplesmente não conseguiu fugir deles. E a culpa nisso é da expectativa do público, do estilo de contar história ao qual a série se aconrrentou, da necessidade louca de ser absolutamente não-coerente. Veja bem, caro leitor, eu não estou reclamando. Poucas pessoas se divertem mais que eu com American Horror Story, mas se a série vai continuar comprometida a ser batshit crazy, precisa aprender a não morder mais, em termos de tema, personagem e história, do que consegue mastigar.

Aliás, é justamente por isso que “The Magical Delights of Stevie Nicks” é tão bom. Por todo o mal que tenha feito para a série como um todo, a matança das bruxas negras foi uma benção dos céus para a trama prática de Coven. Esse conto épico de duas facções brigando entre si enquanto deveriam se concentrar num inimigo comum, essa narrativa espetacular sobre a verdadeira natureza das comunidades (e dos seres humanos nela) sob pressão, finalmente tem a chance de respirar quando Marie Leveau busca abrigo no coven de Fiona após o massacre. A história, o cenário, os personagens e os atores tomam um grande fôlego e começam a desfinal de uma maneira muito mais coerente agora que o roteiro os direciona diretamente para o confronto com os caçadores de bruxas.

É verdade que pouco acontece nesse sentido no episódio em si, mas é a sempre presente linha de pensamento em direção a esse objetivo que faz com que todas as coisas ao redor da trama sejam tão mais substanciais. Fiona culpa Cordelia pela desgraça do coven, e enquanto a dinâmica entre as personagens muda, podemos entender o quanto o arco da personagem de Sarah Paulson é instigante na relação mãe-e-filha, na sensação de impotência, na quieta frustração – para ajudar, Paulson está absolutamente incrível no papel, roubando a cena até de Frances Conroy, em um momento de estouro emocional.

Por falar em Fiona, mais uma vez Jessica Lange mostra porque, quando AHS realmente resolve contar uma história, ela é a jogadora do tabuleiro que encarna tudo o que ela quer passar. A atuação dessa estupenda americana de 65 anos reúne todo o gravitas, as informações acumuladas e os sofrimentos que observamos nessa personagem, e as coloca em algumas poucas expressões e entonações. Jessica é, pura e simplesmente, o ímã que junta todos os pedaços da narrativa de Coven e os transforma em uma unidade para a qual podemos olhar e vê-la olhando de volta. Apesar dos trabalhos perfeitos de tantos outros membros do elenco, é ela que faz Coven fazer sentido, e por mais que a diversão e as bizarrices todas sejam ótimas, em absolutamente nenhum momento elas conseguem ultrapassar o simples prazer de uma boa narrativa.

Observações adicionais:

- O diálogo inicial entre Fiona e Leveau coloca a personagem de Bassett sob uma nova luz, o que não é novidade em AHS, mas a mudança funciona para tirar do caminho o componente racista: Leveau foi levada à desgraça porque escolheu se isolar do mundo, e o roteiro quer nos mostrar que, em muitos sentidos, essa também foi a escolha de Fiona. É um trabalho de base raro para AHS, mas é o que faz a cumplicidade e a eventual união entre essas duas líderes egoístas soar verdadeira (além de espetacularmente cool).

- Que foda que a série arranjou uma desculpa narrativa para fazer uma de suas brincadeiras bizarras e trazer Stevie Nicks para o elenco. E uma boa! Com esse “presente” para a futura nova Suprema, Fiona mostra esperteza e para de jogar com a violência. Ao invés de eleminar Misty, ela tenta trazê-la para o seu lado.

- “I’m a huge Eminem fan, when’s he get here?” “Marshall? You’re not his type”. Eu sei que todo mundo ama a Madison, mas I’m sorry, bitch, Fiona rules this shit.

- Vamos fundar um espaço especial de apreciação a Lily Rabe nesses reviews, porque com todos os Emmys e Globos de Ouro do restante do elenco, essa moça formidável acaba meio apagada. Destaque da semana, obviamente: o desmaio.

- Coven finalmente tira proveito de sua localização nessa temporada para algo além de uma sombra temática que nunca se viu cumprida: o jazz funeral é palco do enfrentamento entre Madison e Misty, e ambas as atrizes estão ótimas na cena, que abre mais um prospecto para a temporada mostrar – um outro “preconceito”, além do tema feminista e do tema racial, jogado para o lado. Além disso, mostra Madison como tão ardilosa quanto Fiona, embora também tão estúpida, em seu imediatismo violento, quanto ela.

- RIP Nan ):

***** (5/5)

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Próximo American Horror Story Coven: ep. 11 – Protect the Coven (15/01)

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