2 de jan de 2014

Review: A nova era do pop começou com o brilhantemente idealizado “Beyoncé”

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por Caio Coletti

A última década da produção musical internacional, é difícil argumentar contra essa constatação, tem sido dominada pela música pop. Desde o lançamento do Fever de Kylie Minogue em 2001 – e a subsequente subida nas paradas do single “Can’t Get You Out of My Head”, uns bons dois anos depois –, uma enxurrada de artistas, alguns mais relevantes do que outros, trouxe abordagens diferentes e combinações improváveis na música, feitas para serem conjugadas com o visual e trazer a “arte pop” de volta à voga, com toda a sua teatralidade e seu “elemento de crime”, desafiando os ainda muitos tabus da nossa sociedade. Foram dez ou doze anos gloriosos, mas 2013 trouxe a realização de que talvez a era de ouro do pop, como a conhecemos, esteja acabando. O que não significa que estejamos entrando em uma época ruim para o “gênero”, no entanto.

A ascenção da estética indie se misturando com o rock, o que não deixa de ser uma experimentação pop, dominou quietamente as paradas nos últimos dois anos, com canções como “Royals” (Lorde), “Somebody That I Used to Know” (Gotye), “We Are Young” (fun.) e “Radioactive” (Imagine Dragons), entre muitas outras. Ao mesmo tempo, grandes lançamentos do chamado “pop comercial”, aquele que teoricamente deveria atingir um número maior de pessoas, se viram lutando para saber quem teria as vendas mais patéticas nas semanas de estreia. Não houve ARTPOP nem Prism que salvasse o reino pop em 2013, e talvez por isso mesmo a chegada de Beyoncé no final do segundo tempo, na última sexta-feira 13 do ano, em Dezembro, tenha sido tão espantosa quanto genialmente óbvia.

O que essa texana de 32 anos nos mostrou exatamente três semanas atrás é o próximo passo da música pop, e não é fácil desvendar qual é o futuro a partir de agora, mas algumas coisas são certas: pode ser que não faça tanto barulho através das vias tradicionais (lojas, paradas, televisão), mas a produção pop com certeza vai continuar sendo uma das mais culturalmente relevantes da atualidade, ao buscar um público que está fundamentalmente na internet e não precisa sair dela para consumir música. Nas primeiras semanas de vendas, Beyoncé vendeu o dobro dos outros lançamentos pop do ano, e o fez simplesmente através de um processo de especialização, restrição e sofisticação do que significa fazer música nos moldes do gênero.

Em seu “documentário em capítulos” postado no Youtube desde o lançamento do álbum (dá para ver os quatro primeiros episódios aqui), a cantora discursa sobre o porquê de realizar e lançar esse projeto da forma como o fez, e revela que a vontade de filmar um videoclipe para cada canção veio da experiência sinestésica que ela mesmo, como artista, experimenta com a música. Não só o conceito de visual album, portanto, está intimamente ligado com a própria diretriz da música pop – basta pensar no que seria “Thriller” de Michael Jackson (ou, na verdade, em boa parte de suas canções) sem o videoclipe –, como também com a visão de Beyoncé de sua arte. Ao mesmo tempo saudosista e avant-garde, trazendo ao mainstream um conceito antigo que já havia sido experimentado na era contemporânea por artistas independentes como o iamamiwhoami, Beyoncé é um feito porque realça e glorifica um aspecto da experiência artística que só a produção pop pode proporcionar.

O lançamento abrupto é também parte desse resgate do conceito de “experiência” ligado ao gênero. Há tempos que estava claro o quanto as infinitas prévias, snippets, divulgações e entrevistas se colocavam no caminho da genuína surpresa e momentum de um lançamento pop. A sensação era de que nada sendo lançado era realmente novo, porque já sabiamos como aquilo iria soar, sentir e parecer aos olhos meses antes de realmente vermos o resultado. Beyoncé, o álbum, não toma qualquer passo revolucionário em aspectos técnicos, seja na música ou nos vídeos, mas é a primeira perfeita caixinha de surpresas do mundo pop em anos, talvez desde o The Fame em 2008, que tomou o mundo de assalto sem ninguém realmente perceber. Liberando tudo – as músicas e os vídeos – online e no mesmo dia, Beyoncé cirou um verdadeiro evento em torno do seu álbum, e é preciso que as outras cantoras observem bem essa estratégia. A “saída” para o pop, definitivamente, está na valorização da experiência de um lançamento.

Quando visto e ouvido através dos vídeos, e é muito aconselhável que assim seja o primeiro contato do ouvinte/espectador com a obra, o álbum é menos uma história coesa, como alguns poderiam esperar, e mais uma expressão audiovisual  bem completa da personalidade da artista que lhe dá nome. Esse é um projeto que merece a escolha de ser auto-intitulado, talvez o único entre os vários álbuns que adotaram essa tendência nesse ano. Beyoncé retrata a confiança e a insegurança, as fantasias e influências, o momento atual e as reflexões passadas, de um dos maiores nomes do mundo musical no século XXI. O álbum se comunica com o público de forma excepcional, travando um diálogo franco e vulnerável que corre para os dois lados e revela que a Beyoncé idealizada, quase estatuesca, dos momentos anteriores de sua carreira, perde feio em termos de carisma e fascinação para a Beyoncé “real” desse novo disco. Esse é o “elemento de crime” de Beyoncé, um grito de rebeldia pela causa da imperfeição e da beleza do acaso e dos erros. Durante as 14 canções (e 17 vídeos) do visual album, o que observamos é uma mulher se revoltando contra o seu próprio ideal.

Faixas-destaque: “Pretty Hurts”, “Haunted”, “Drunk in Love”, “XO”, “***Flawless”, “Blue”

***** (5/5)

Beyoncé
Lançamento: 13 de Dezembro de 2013
Produção: Ammo, Boots, Detail, Jerome Harmon, Hit-Boy, HazeBanga, Key Wayne, Beyoncé, Terius Nash, Caroline Polachek, Rey Reel, Noah “40” Shebib, Ryan Tedder, Timbaland, Justin Timberlake, Pharrell Williams
Duração: 66m35s

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