6 de jan de 2014

Review: O sonho americano é uma ilusão (mas quase tudo é) no filme do ano, “Trapaça”

AMERICAN-HUSTLE-POSTER

por Caio Coletti

2013 não foi um bom ano para o ideal do “sonho americano”. Lá no começo do ano passado, O Grande Gatsby mostrou que nem sempre a ambição por mais (dinheiro, status, diversão, modernidade) é uma boa forma de guiar a vida. Há certa beleza no ato de “esticar os braços em direção do inalcançável” na visão de Fitzgerald e Luhrmann, mas o retrato de pessoas como Daisy e Tom deixa claro o que esse materialismo e essa busca por uma trajetória sempre ascendente pode fazer com o ser humano. Trapaça, o novo e badaladíssimo filme de David O. Russell (O Lado Bom da Vida), se leva bem menos a sério do que Gatsby, mas não por isso deixa de ser um retrato igualmente cruel da mesma característica social.

Com sete indicações para o Globo de Ouro e vários prêmios de associações de críticos pelos EUA, o filme é atualmente o favorito para o Oscar 2014. Não à toa, como o título já deixa claro (o original, American Hustle), é uma obra essencial e gritantemente americana, articulada dentro de um gênero que é americano por excelência, e feita para falar sobre um tipo de mentalidade e motivação que é muito mais perceptível por lá do que em qualquer outro lugar do mundo. Trapaça é um filme de golpe, mais ou menos como Onze Homens e Um Segredo ou Vigaristas, mas renova notavelmente o gênero ao mostrar o potencial de exploração de personagem que existe nele. Tão sombriamente cômico quanto surpreendentemente tocante, Trapaça é um retrato muito agudo desses “con artists” que, no final do dia, estão também, e fundamentalmente, enganando a si mesmos.

Na verdade, o filme faz um ponto muito forte em relação a isso. O slogan do poster, “everyone hustles to survive”, dá uma dica do tema: cada um desses personagens vive a vida como uma farsa, e em 90% do tempo em tela estão usando perucas, fingindo sotaques, mentindo sobre seus nomes e fingindo para si mesmos que estão fazendo o que é certo. O cômico e o trágico de Trapaça está em perceber o quanto eles estão errados. Isso sem contar, é claro, que o filme é extremamente divertido. Essa costura elegante entre trama (levada em ritmo alucinante e acumulativo) e personagem é embalada em um papel-presente perfeito: os figurinos, maquiagens, cabelos e design de produção de época, emulando toda a decadência, a cafonice e a ambição encarnada no final dos anos 70. Os vestidos sexys de Amy Adams, o cabelo alto de Jennifer Lawrence, a permanente de Bradley Cooper e os ternos cafonas de Christian Bale são tão personagens desse filme quanto eles próprios.

A trama segue Irving (Bale) e Sydney (Adams), amantes e parceiros de crimes pequenos que enganam compradores de arte incautos e pessoas desesperadas a procura de um empréstimo que nunca receberão. Isso até o agente do FBI Richie (Cooper) derrubar a operação, e forçar a dupla a cooperar com ele em um ambicioso plano para derrubar políticos corruptos, outros vigaristas e até, quem sabe, um ou outro mafioso. Uma bela jogada do roteiro assinado por Russell em parceria com Eric Singer (Trama Internacional) é fazer com que ambos os “lados da lei” nessa história pareçam iguais em suas motivações e em seus mecanismos de defesa própria. O personagem de Cooper se envolve com a sedutora vigarista de Adams, o chefe do FBI é capaz de tudo por alguma notoriedade, e o prefeito corrupto Carmine Polito (um surpreendente Jeremy Renner) é mais homem de família do que qualquer outro personagem no filme.

“it’s not black and white, like you say – it’s extremely gray”, Irving solta em certo momento do filme, e para Russell e Singer isso parece ser particularmente verdadeiro. A grande roubadora de cenas de Trapaça é a esposa de Irving, Rosalyn (Lawrence), e não há nada no filme que seja mais moralmente ambíguo do que seu comportamento impulsivo e passivo-agressivo, tão pouco em contato com a realidade quanto qualquer outro dos personagens. Entrando em cada cena como um furacão, a vencedora do Oscar de Melhor Atriz do ano passado torna essa força da natureza um ser humano espantosamente real, usando a fisicalidade da atuação (é memorável a cena da performance de “Live and Let Die”) para juntar os cacos de uma mulher quebrada. Não é a toa que o restante do elenco segue sua deixa.

Christian Bale se firma como um dos atores mais camaleônicos e interessantes de se assistir da sua geração, ganhando peso e barba (e perdendo cabelo) para o papel, o que faz de seu Irving a entidade mais racional de todo o filme, e sua verdadeira âncora temática e narrativa. Ele é o que é, e tem perfeita consciência do que isso significa, e essa é uma qualidade rara no mundo de Trapaça. Bradley Cooper, por sua vez, demonstra versatilidade e aplica a verborragia e carisma que já conhecemos em um personagem que não é, nem deve ser, simpático para o espectador. O ator o torna extremamente humano na hesitação e na ambição, mas não precisa fazê-lo um herói para isso. Por fim, Amy Adams é uma absoluta preciosidade com sua atuação completa e extremamente centrada, combinando a linguagem corporal, a produção ao seu redor e as emoções cristalinas que raramente vem a tona para compor uma das personagens mais fascinantes de 2013.

Trapaça é um filme extremamente amplo em termos de cenários, personagens e brincadeiras conceituais (especialmente uma aparição-surpresa lá pela metade do filme). Russell combina todos esses elementos em um equilíbrio perfeito, trabalhando os atores em torno do tom do filme e criando aquela que pode muito bem ser considerada a obra-prima de sua carreira estelar em Hollywood. Um dos grandes pontos do filme é que todos nós – e não só esses trapaceiros que estão em tela – acreditamos no que quer que quisermos acreditar. Pois acredite, caro leitor: Trapaça é o filme do ano.

***** (5/5)

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Trapaça (American Hustle, EUA, 2013)
Direção: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell, Eric Singer
Elenco: Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña
138 minutos

1 comentários:

bones disse...

Ah, anjo. Me diverti demais com esse filme, além da nostalgia sonora que me fez viajar no tempo junto com os personagens. Acredito que a J.LAW ainda não mostrou tudo que pode fazer, está fantástica em todas as cenas em que aparece, ainda não ofereceram a ela um lead role que esteja a sua altura. ADOREI a resenha, bem abrangente, so acrescento que a 'barriguinha' do Bale merece destaque como 'mui sexy', kkkkk. abraços mil........