18 de fev de 2014

Review: Tenso e angustiante, “Capitão Phillips” é um filme mais humano do que pode parecer

Captain-Phillips

por Caio Coletti

Capitão Phillips é talvez a maior prova em 2013 de que em termos de cinema, teoria e prática estão absolutamente distantes. Um filme não existe senão em película, e não se constitui senão pelo trabalho combinado de um leque de artistas cujas visões completamente diversas daquela história, daquele processo, trazem elementos adicionais ao resultado final. Sem querer reduzir tudo isso a uma equação matemática, a verdade é que, no papel, Capitão Phillips não deveria funcionar: a história é um prato cheio para patriotismo americano exagerado, os termos técnicos da Marinha não constituem exatamente um atrativo para o público, e a tensão poderia ser abatida pelo fato de que todos já sabemos o desfecho dessa história (principalmente pelo filme ser baseado nas memórias publicadas de seu personagem-título). Capitão Phillips não deveria ser um dos melhores filmes do ano, mas é.

Talvez o grande responsável por isso seja Paul Greengrass. Novamente esquecido pelo Oscar no momento das indicações a Melhor Diretor, o britânico que pulou direto da televisão do seu país para os dois últimos filmes da trilogia Bourne original realiza aqui o tipo de trabalho que vem o qualificando como o homem por trás dos melhores thrillers de Hollywood. As marcas de Greengrass como autor estão todas presentes, da câmera levada na mão a observação aguda de detalhes da encenação, trabalhando a tensão em torno das situações do roteiro de forma genial. Como sempre, o trabalho de Christopher Rouse na edição é essencial nesse sentido, arrumando a profusão de imagens de Greengrass em um todo coerente. É no trabalho com os atores, no entanto, que o cineasta faz a diferença, contornando o roteiro redondo de Billy Ray com um realce muito bem-vindo na humanidade de seus protagonistas.

Embora a moral política não seja exatamente um fator direto nessa história de sobrevivência (e também de convivência), Ray e Greengrass fazem um bom trabalho no sentido de realizar um filme bastante neutro, que não vilaniza nenhum dos lados. Os sequestradores somalis que invadem o navio comandado por Phillips são dotados de características tão ou mais compreensíveis para a percepção do espectador quanto os americanos. Muse, o lider dos sequestradores, é um personagem muito bem articulado, e o estreante Barkhad Abdi, indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, faz um trabalho excepcional em realçar todas as características que o fazem assim. Abdi entende as motivações e os sonhos de Muse, se guia pelo instinto em tela e protagoniza diálogos por vezes muito melancólicos com o Phillips de Tom Hanks. Sua atuação emana certo idealismo torto e orgulhoso que fazem do “vilão” de Capitão Phillips qualquer coisa, menos verdadeiramente vilanesco.

Embora em crédito por ter reconhecido esse belo trabalho de Abdi, a Academia fez mais um desserviço ao filme (e a si mesma) ao esquecer de indicar também Hanks. Trata-se da melhor atuação do americano em anos, e nos lembra enfaticamente de que poucos atores vivos podem se comparar a ele num momento realmente inspirado. O talento de Hanks é essencialmente a comunicação fácil com o público, é claro, o carisma e segurança que passa em tela. Mas Capitão Phillips, como todos os seus melhores momentos, faz emergir também um extraordinároi faro para o amálgama de emoções que injetam realismo a qualquer situação. O ator emerge sob o personagem de Phillips, sem medo de retratá-lo como um homem orgulhoso, ainda que de forma discreta, na tentativa de aumentar os paralelos entre ele e Muse. Os olhos vigilantes durante toda a duração do filme contribuem com a sinfonia de tensão de Greengrass e os momentos de explosão emocional são absurdamente bem orquestrados. As cenas finais sozinhas já seriam motivo o bastante para render a Hanks a sexta indicação ao Oscar.

Capitão Phillips, como thriller, é uma das peças mais enervantes dos últimos tempos, mas é ainda mais notável como drama. Uma sutil fábula sobre oportunidade, o choque de mundos diferentes e sobrevivência, a nova obra de Paul Greengrass confirma-o não só como um diretor com plena primazia técnica dos seus arredores, como também como um autor preocupado em fugir, absolutamente, do maniqueismo. Esse é um filme americano em que, quando os americanos triunfam, não é exatamente um final feliz. Um filme em que vidas não deixam de ser vidas por pertencerem a terroristas. E isso é o que o faz verdadeiramente notável.

✮✮✮✮✮ (5/5)

930353 - Captain Phillips

Capitão Phillips (Captain Phillips, EUA, 2013)
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Billy Ray, baseado no livro de Richard Phillips & Stephan Talty
Elenco: Tom Hanks, Catherine Keener, Barkhad Abdi
134 minutos

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