23 de mar de 2014

Por que “G.U.Y.” é o vídeo definidor da era ARTPOP de Lady Gaga?

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por Caio Coletti

Um anjo abatido que é resgatado por um culto dos mais estranhos, luxuosos e festivos, se torna a encarnação da deusa Vênus na Terra e se vinga de seus algozes, de forma sangrenta e megalomaniaca. Essa é uma boa sinopse de “G.U.Y.”, o curta-metragem mais bem trabalhado, absolutamente ridículo e absurdamente genial que a era ARTPOP vai produzir. Digo isso com alguma confiança porque acho difícil pagar minha língua quando, por tradição, a cada fase Gaga lança só uma grande peça conceitual em forma de clipe, para pegarmos a essência temática do álbum.

O problema é que raramente essa peça é aquela que a maioria do público acha que é. No The Fame foi “Poker Face” e toda a sua decadência luxuosa, regada a jogos e erotismos; no The Fame Monster foi “Alejandro”, sombrio e enfático nos perigos do desamor e da frieza que toma conta do coração daqueles obcecados pela celebridade; e no Born This Way foi “Judas”, cheio de fúria e senso de justiça, um ambiente desafiador que abraça os cantos escuros da própria personalidade em busca de completude.

Porque “G.U.Y.” é essa peça definidora para o ARTPOP, então? As formas de responder essa pergunta são várias. Primeiro, base de identificação visual da atual fase de Gaga está intensamente presente no vídeo, ao mesmo tempo grandiosa e clean, abusando do branco e do dourado. Segundo, “G.U.Y.” reflete muito o momento que Gaga está vivendo artisticamente, como deixou clara a polêmica performance no festival SXSW – a ideia de se libertar das amarras criativas do sistema de gravadoras estava presente lá no palco, na reveladora entrevista dada depois do show, e na lógica anti-sistema (ainda que quase autoritariamente conquistadora) do novo clipe.

Mais importante que esses dois aspectos, no entanto, é dizer que “G.U.Y.”, como uma afronta direta ao sentimento já verbalizado por Gaga de que o sistema da indústria musical a “matou” criativamente, é também muito astuto ao trabalhar dentro do sistema para dizer que é possível fugir dele. A narrativa da forma com que a personagem de Gaga conquista o mundo dos que a abateram é simbólica, porque ela usa o mesmo poder que eles um dia já tiveram para subverter todas as regras que eles um dia prezaram.

Isso não só resgata um aspecto lindo e há muito não-explorado de Gaga como artista (o fato de que ela é uma outsider que se infiltrou no sistema, e continuou fazendo as coisas do seu jeito, até intransigentemente), como também se conecta lindamente com as entrelinhas sobre relação de poder, masculino/feminino, submissivo/dominante, que estão presentes na letra, já genial por próprio mérito, de “G.U.Y.”. Esse é o melhor tipo de vídeo que Gaga pode produzir: aquele que só veio para acrescentar.

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