1 de mai de 2014

Person of Interest 3x20/21 – Death Benefit/Beta

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ATENÇÃO: esses reviews contem spoilers!

por Caio Coletti

3x20 – Death Benefit

Michael Emerson ganhou o Primetime Emmy em 2009, pelo trabalho na quarta temporada de Lost, naquele papel já eternizado nas galerias de melhores personagens de TV do século: Benjamin Linus. Um vilão que aos poucos passou a representar o próprio coração da série que tomou de assalto a partir do terceiro ano, Ben era um personagem perfeito para os fartos dons de Emerson, abusando a verbalidade e apresentando-se como uma panela de pressão prestes a explodir. Talvez por ser muito menos um personagem show-off e muito mais um papel de sutilezas, seu Harold Finch de Person of Interest nunca foi lembrado nas premiações de televisão. “Death Benefit” mostra o tamanho da injustiça entalhada nesse esquecimento.

O talento de Emerson, ao que parece, está em compreender o centro temático das narrativas em que atua, e se tornar a própria encarnação dos princípios morais e emocionais que as regem. Quando Person passa por um momento tão intenso nesse sentido quanto nessa 20ª entrada da temporada, é para a atuação de Emerson que o roteiro se volta, e é nela que encontra infalivelmente a sua potência. Em “Death Benefit”, vemos os nossos protagonistas às voltas com a possibilidade da Máquina tê-los mandado para assassinar um congressista cuja intenção é facilitar a passagem do Samaritan, a grande ameaça da temporada, pela aprovação política.

O dilema de eliminar ou não essa ameaça à integridade do sistema e da própria vida dos personagens é apresentado com o drama necessário à situação, mas o roteiro enxuto de Lucas O’Connor e Erik Mountain (dois colaboradores frequentes da série que assinam um episódio juntos pela primeira vez) deixa para os atores e a direção do sempre equilibrado Richard Lewis a responsabilidade de acertar no tom. O trabalho é realizado com louvor, mas é o curto monólogo do Finch de Michael Emerson que ganha o jogo para o episódio, carregando a imagem de culpa que sempre vem atrelada ao personagem para um lado inesperado, com a representação de emoções sempre instintiva que é característica do ator.

Por outro lado, além desse aspecto moral e emocional, “Death Benefit” é um grande episódio porque sublinha o quanto Person é uma das poucas séries no ar hoje em dia que encara todos os conflitos e facetas de sua trama diretamente, sem adiamentos nem receios. Transformar a série em um jogo político, ou melhor, acrescentar a ela esse aspecto, não é só uma mudança de ares bem-vinda como também uma perspectiva necessária para que Person possa discursar com mais eloquência sobre paranoia, segurança, privacidade e, principalmente, livre-arbítrio. Numa temporada em que nossos protagonistas foram seguidamente esmagados pelo conhecimento todo-poderoso da Máquina, “Death Benefit” lhes dá, finalmente, o luxo da escolha.

Observações adicionais:

- O guest star da semana (e esperamos que ele apareça mais vezes!) é ninguém menos que John Heard. Conhecido pelo papel como pai de Macaulay Culkin em Esqueceram de Mim, esse americano de 69 anos é também um dos character actors mais subestimados da sua geração, com 160 créditos no currículo e uma indicação ao Emmy por sua participação em The Sopranos. Aqui, ele encarna com gosto um político por natureza, essencialmente escorregadio e sinuoso.

- “John. Bedside manner.”

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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3x21 – Beta

Person of Interest, como um todo, pode ser sobre muitas coisas: mais destacadamente, com a premissa que tem, é inevitavelmente sobre paranoia e as consequências morais-políticas do pós 11 de Setembro (mesmo que num contexto fantasioso – ou nem tanto). É sábio, portanto, fazer com que a série ganhe um âmbito humano no que diz respeito aos personagens, mesmo que as tramas da semana também se encarreguem disso ao colocar rostos nessa luta entre privacidade e proteção, destino e intervenção. “Beta”, antepenúltimo episódio do fabuloso terceiro ano de Person, segue a deixa de “Death Benefit” e coloca o foco na história sempre profundamente emocional de Harold Finch, personagem de Michael Emerson na série. Os resultados só poderiam ser devastadores.

O ponto do personagem de Finch tem muito a ver com remorso. Retratado como o “criador de um Deus” que se vê aterrorizado com a possibilidade de poder ser esmagado por ele a qualquer momento, o emocional de Harold é um lago muito profundo de arrependimentos acumulados, todos advindos da decisão inicial de criar dito monstro/divindade (estou falando da máquina, é claro). Em “Death Benefit”, uma nova dimensão desses arrependimentos veio a tona quando Harold decidiu que havia um limite em sua concepção de justiça, o próprio conceito que o havia levado a contar tantas mentiras e sacrificar tantas coisas pela missão de sua Máquina. “Beta” mostra que as forças que esse homem criou no passado são tão maiores que ele próprio, que sua vontade é, para usar um termo meio irônico, “irrelevante”.

A realização vem na forma, é claro, de Grace (Carrie Preston, esposa de Michael Emerson na vida real e uma excelente character actress). Quando a conhecemos e acompanhamos, em alguns episódios das duas temporadas anteriores, Grace representava aquilo que Harold amava e precisou deixar para trás, justamente porque esse amor que o personagem sentia o impedia de colocá-la em perigo. A ex-noiva para quem Finch fingiu a própria morte reaparece quando o Samaritan, em fase de testes, a localiza em sua casa, onde vive uma vida pacata desde a “morte” do noivo. O bond-vilão Greer a traz para custódia, à revelia dos esforços de Reese, Shaw e Root para protege-la, esperando que o sequestro traga Harold direto para suas mãos. Desnecessário dizer que, apesar das voltas do roteiro de Dan Dietz e Sean Hennen, a estratégia funciona.

A profundidade emocional de “Beta” vem da performance de Emerson, em seus poucos minutos em tela, mais uma vez entendendo profundamente os sentimentos de seu personagem e externando-os de forma discreta (porém muito expressiva). Também é preciso dar crédito a própria Preston, que realiza um retrato preciso de uma Grace frágil e convicta, que afirma, na cena do interrogatório frente a frente a Greer, uma verdade emocional tão forte que nos faz perguntar: frente a isso, será que a confiança não é mais importante que os fatos? Não me levem a mal, mas por mais ótimo que John Nolan seja em emprestar ameaça ao seu Greer, Preston lhe aplica um banho de interpretação na cena em que os dois se enfrentam.

O episódio não deixa de mover adiante a trama da série, colocando Finch nas mãos dos vilões da Decima, fazendo Root roubar vários dos servidores que colocariam o Samaritan online, deixando Shaw, Reese e Fusco com a perspectiva de lutarem sozinhos a guerra que vai movimentar o final da temporada. Mesmo assim, Person há muito deixou de ser uma série pragmática, que é movida por plot, e se tornou uma série essencialmente alimentada por seus personagens – e essa talvez seja uma das grandes conquistas que qualquer produção de TV pode almejar.

Observações adicionais:

- O foco em Finch deixou a atuação de Jim Caviezel fora do review, mas o moço merece muitos elogios por seu retrato de um Reese fiel e sentindo na pele o amargo da situação do amigo.

- “Everybody’s a critic today”

✰✰✰✰✰ (5/5)

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