31 de mai de 2014

Review: A ficção científica de-um-truque-só de “No Limite do Amanhã”

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por Caio Coletti

É preciso que uma coisa fique bem clara: não acredite nas críticas por aí que vendem No Limite do Amanhã como uma tentativa sem sal de fazer ficção científica distópica, o gênero da moda, com um twist temporal de trama. Se há algo que o novo filme de Doug Liman (A Identidade Bourne, Jumper, Sr. e Sra. Smith) faz é entreter, e o roteiro baseado na novela do japonês Hiroshi Sakurazaka sem dúvida tira o melhor proveito do tal “twist temporal” da trama, procurando surpreender e envolver o espectador no ritmo da narrativa. Além de ser um blockbuster competente, portanto, No Limite do Amanhã é um blockbuster inventivo. Não no sentido de ter muitos truques na manga, mas de saber usar os poucos que tem para sustentar duas horas de boa ficção científica.

A trama acompanha Cage (Tom Cruise), um sargento de funções burocráticas do exército americano que, ao se ver improvavelmente na frente de batalha contra um inimigo alienígena que, no futuro do filme, já tomou boa parte da Europa, acaba preso em um time loop: revive os dois últimos dias, de sua chegada na base até o catastrófico enfrentamento com o inimigo nas praias da Normandia, repetidamente. E é essa brincadeira conceitual que dá propulsão ao script assinado por Christopher McQuarrie (Jack Reacher) e os irmãos Jez & John-Henry Butterworth (Jogo de Poder), basicamente. Ajudados pela linguagem ágil do diretor Liman, uma escolha acertadíssima para o filme, e do editor James Herbert (Sherlock Holmes), os três roteiristas transformam essa ficção científica de-um-truque-só em uma experiência intrigante de storytelling.

Ajuda, é claro, que os personagens sejam cativantes, que os diálogos carreguem um humor afinado, e que o elenco entre no clima da trama. Chamar No Limite do Amanhã de “Feitiço do Tempo sem as piadas” não é só pouco lisonjeiro, como também inexato. Apesar de emprestar o preceito temporal da comédia oitentista estrelada por Bil Murray, o filme de Liman consegue conquistar o espectador também por méritos próprios. O sargento Cage de Tom Cruise é um protagonista não só simpático, como interessante – ao invés de torturado como a maioria dos personagens principais dessas ficções distópicas (incluindo o papel do próprio Cruise em Oblivion), Cage é um escorregadio burocrata, cheio de lábia e carisma, que muda sutilmente conforme a situação ao seu redor evoluí. É uma jornada diferente da enfrentada pela maioria dos heróis hollywoodianos, e nada melhor do que ter Tom Cruise, um dos astros americanos mais dispostos a assumir riscos, interpretando-o.

Não vamos fingir que a química entre Cruise e Blunt funciona bem – de fato, as duas atuações são melhores quando não existe a insinuação de uma trama romântica entre os dois personagens –, mas ver Blunt em tela é sempre um prazer, com seu olhar astuto e sua presença de cena ao mesmo tempo imponente e dinâmica. No Limite do Amanhã até se dá ao trabalho de criar uma conexão crível entre seus dois protagonistas, e em certa medida o esforço dá ótimos resultados. É o romance obrigatório que não funciona, talvez pelas poucas faíscas existentes no contato entre os dois, talvez pela própria natureza da história. Afinal, não dá para desconsiderar que, enquanto o personagem de Cruise cria uma familiaridade com a moça, ela continua tendo-o como um desconhecido.

Com um roteiro “redondinho”, que é tão interessante quanto instintivo de se acompanhar, e todos esses outros fatores trabalhando ao seu favor, No Limite do Amanhã ainda conta com efeitos e fotografia gloriosos. As câmeras comandadas por Dion Beebe (Oscar por Memórias de uma Gueixa) fazem uso plasticamente perfeito do 3D (reparem nas cenas de diálogo, não só nas batalhas!) e a equipe de conceituação dos efeitos visuais merece muitos elogios pela concepção dos aliens e de seu Ômega, criaturas fragmentadas e fugidias ao plano registrado pela câmera – ao contrário da maioria dos extra-terrestres retratados por Hollywood, eles parecem realmente de outro planeta.

No Limite do Amanhã pode não ser o melhor nem o mais equilibrado filme do ano, mas com certeza é um produto incomum para os grandes estúdios hollywoodianos, e só isso já pesa muito em seu favor.

✰✰✰✰ (4/5)

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No Limite do Amanhã (Edge of Tomorrow, EUA/Austrália, 2014)
Direção: Doug Liman
Roteiro: Christopher McQuarrie, Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, baseados na novela de Hiroshi Sakurazaka
Elenco: Tom Cruise, Emily Blunt, Brendan Gleeson, Bill Paxton, Noah Taylor
113 minutos

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