25 de mai de 2014

The Americans, 2x13: Echo [SEASON FINALE]

TheAmericansEcho

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Poucos episódios de televisão nessa ou em qualquer temporada que esses olhos tenham testemunhado são capazes de cutucar tão fundo a ferida da hipocrisia que existe em cada um de nós quanto “Echo”, o season finale de The Americans. Claro, é um testemunho a absoluta maestria narrativa dos responsáveis pela série que, mesmo com uns poucos episódios vacilantes pelo caminho, a trama tenha chegado ao final intacta em relação a tudo o que queria dizer e mostrar. Há uma amargura em “Echo”, uma tensão que é muito mais do que de expectativa pelos destinos dos personagens – é existencial. No último de seus fabulosos 13 episódios dessa temporada, The Americans nos faz uma pergunta que deveria ser inquietante para qualquer um: você abriria mão do que ama pelo amor de uma ideia?

O mais excepcional, sem dúvidas, é quanto esse questionamento sempre esteve no âmago da série, esperando para explodir das águas sempre calmas, mas sempre a ponto de ebulição, de The Americans. Com seu retrato exato e (conforme a temporada passou) cada vez mais impiedoso das mentiras e encenações, e do preço alto que elas cobravam na ilusão de estabilidade e autenticidade meramente humana dos personagens, a série sempre esteve caminhando para esse limite, esse “ponto de quebra”, em que as cortinas fecham e o teatro tem que acabar. “Echo” se coloca em frente a esse confronto, mas deixa que as paredes caiam silenciosamente ao fundo, bem à moda de The Americans, para desfazer o cenário cuidadosamente construído por seus protagonistas.

Surpreendentemente, o episódio segue duas linhas narrativas paralelas, que em momento algum se entrelaçam. De um lado temos Stan, uma guilt-trip ambulante enquanto contempla a decisão que precisa tomar – trair seu país e entregar para os russos o programa de computador que seria responsável pela tecnologia stealth, ou perder Nina de vez, uma vez que a moça será mandada de volta para Moscou, aguardar julgamento (e provável execução) por traição. De uma forma, o dilema de Stan também é entre amor e ideias, e a escolha que ele faz é muito mais fria e menos sentida do que as dos Jennings, também. Esse é o jeito que The Americans encontrou para equilibrar seu jogo moral – Stan sente por Nina, e o episódio faz questão de nos colocar diretamente em sua perspectiva (trabalho perfeito do diretor Daniel Sackheim ao inserir subjetividades no mundo sempre frio da série), mas não é dúvida que passa pelo rosto do fabuloso Noah Emmerich, e sim remorso.

Já o casal protagonista passa por um verdadeiro inferno: tudo começa com a morte de Fred (John Carroll Lynch, we’ll miss you!), que completa a missão dada a ele pelos Jennings, mas não sobrevive ao processo; depois, a notícia de que Larrick não está mais na Nicarágua chega aos ouvidos dos dois e eles são obrigados a se locomover para observar Jared (Owen Campbell, em atuação espetacular) de perto – quando encontram-se com o menino, no entanto, e com Larrick, The Americans aplica a maior reviravolta de trama que já ousou aplicar e faz o garoto confessar o crime do assassinato da família, e que vem sendo um agente da KGB há algum tempo. A cena como é escrita por Joe Weisberg e Joel Fields, e atuada por Campbell, é poderosa não só pelo fato de choque, mas pelo que representa: a confissão final de Jared, observado por Elizabeth e Phillip, faz com que os dois olhem diretamente nos olhos da sordidez de comprometer aquilo que se ama por uma ideia (de “trabalhar por algo maior que eles” e nesse processo perder a noção de todo o resto que é considerado “menor”).

As engrenagens de The Americans são tão perfeitas que até a trama de Paige, envolvida com a Igreja durante toda essa temporada, faz sentido. Além de ser uma oportunidade de mostrar que a personagem de Holly Taylor tem uma personalidade parecida com a de Elizabeth, com uma retidão moral e uma paixão pela ideia de sacrifício, trazer a discussão religiosa para dentro da casa dos Jennings é mostrar o quão messiânica é a missão que eles foram colocados naquela terra estranha para cumprir. Num perturbador círculo vicioso de pecado e mentira, “Echo” termina com um diálogo matador desferido por Keri Russell e uma reação aterradora de Matthew Rhys. O que a Mãe Rússia esquece de levar em conta, é claro, é que esses agentes-Messias colocados em terras inimigas são apenas e meramente humanos, e o sacrifício talvez peça deles muito mais do que eles podem oferecer.

The Americans não responde à pergunta que nos faz durante o episódio, aquela que eu destaquei no primeiro parágrafo. E talvez justamente por não responder é que o episódio seja tão inquietante, tão incômodo. Cruelmente, “Echo” se limita a observar que, quando se ama uma ideia acima de qualquer coisa, tudo o mais que se ama se torna refém dela.

Observações adicionais:

- For God’s sake! Eu espero que o Emmy, cujas indicações serão anunciadas no próximo dia 10 de Julho, reconheça, se não a própria série em Melhor Série Dramática, pelo menos Keri Russell como Melhor Atriz na mesma categoria.

- Para quem queria saber, a música usada na cena antes dos créditos iniciais é “Twilight Zone”, do Golden Earring.

✰✰✰✰✰ (5/5)

THE AMERICANS -- "Echo" -- Episode 13 (Airs Wenesday, May 21, 10:00 PM e/p) Pictured: Lee Tergersen as Andrew Larrick. CR. Patrick Harbron/FX

A terceira temporada de The Americans está confirmada pela FX!

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