16 de jul de 2014

True Detective, 1ª temporada: Um ensaio sobre riqueza narrativa e temas atemporais

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Eu prometi para mim mesmo que não escreveria sobre a primeira temporada de True Detective. Nos meses em que a HBO exibiu os oito episódios de que consistiam o primeiro ano dessa criação de Nic Pizzolato (The Killing), entre Janeiro e Março, algo na mistura de diálogos profundamente existenciais, história de detetives by-the-book e atuações de pura sensibilidade masculina dos protagonistas Matthew McConaughey e Woody Harrelson me fez crer que esse seria o tipo de série que, independente da aclamação crítica, e do meu reconhecimento de sua qualidade, eu nunca iria ter entre minhas favoritas. Tanto que, depois de quatro semanas acompanhando os detetives Marty Hart e Rustin Cohle, eu decidi que veria o restante da série quando tivesse mais tempo. Talvez tenha sido destino, porque visto de uma tacada só, como fiz agora (recomeçando do episódio de estreia, “The Long Bright Dark”), no espaço de sete dias, True Detective revela-se muito mais do que parece ser.

Mais ainda do que revelar suas sutilezas narrativas e suas riquezas contextuais em termos de construção de personagem e coerência com a trama, no entanto, ver True Detective na sua totalidade em uma semana me surpreendeu pela simplicidade da experiência de contar uma história. Há críticos e blogueiros por aí que inclusive sustentam, baseados em declarações do próprio Pizzolato (roteirista principal e único de todos os 8 episódios da trama), que True Detective é uma complexa e elaborada meta-ficção sobre o fato de narrar. É muito interessante observar o quanto isso procede em muitos sentidos, embora não seja, nem pudesse ser, toda a fundação de True Detective como produto final. Há a noção de Cohle, o personagem, de que a identidade humana é uma narrativa que construímos para nós mesmos, há a insistência da série de nos mostrar as mentiras e as raízes delas na nossa psique, há a hipocrisia da “honradez” de Marty, um “homem de família” que não aceita, e por isso racionaliza, seus próprios pecados. E há, é claro, o relato da dupla de detetives para seus interrogadores em 2012, uma teia de invenções e correspondências inexatas por si só. True Detective, sob o olhar do espectador atento, é um aglomerado de “narrativas” e “ficções” se entrelaçando de forma muito parecida com os ramos das mini-esculturas satanistas que são parte central da trama de assassinato.

Já deve ser de domínio público, mas a temporada segue mais ou menos a seguinte linha narrativa: Cohle (McConaughey) é um detetive recém-chegado à polícia de uma cidadezinha na Louisiana em 1995, que é emparceirado com Marty (Harrelson) e logo cai de cabeça em um caso incomum. A vítima encontrada pelos dois no primeiro episódio da trama está em posição de contrição, com chifres de cervos colocados sobre a cabeça como uma coroa, cercada por devil-catchers (as esculturinhas que eu citei acima) e com uma espiral pintada na nuca. A rede de simbologias e a narrativa intrincada que se segue são o trabalho esmerado de Pizzolato, costurando uma série de referências culturais (The King in Yellow, famosa coletânea de contos do autor Robert Chambers, é uma das mais notáveis; assim como a trilogia Inferno, Paraíso e Purgatório de Dante Alighieri) a uma jornada emocional e filosófica centrada nesses dois protagonistas. No final das contas, a simbologia toda está aqui para embasar e enriquecer o ponto do roteirista, não para fazê-lo. Um dos grandes vícios das séries “com mitologia” da atualidade é tentar ganhar significado apenas com ela, ao invés de usá-la a favor da história – o ponto do qual todo e qualquer elemento do produto final deve partir.

A direção de Cary Fukunaga (Jane Eyre), ainda bem, entende isso perfeitamente. Climática ao extremo, a câmera do californiano de 37 anos, um dos novos nomes mais notáveis do cinema americano, consegue a proeza de não ser intrusiva numa narrativa que é praticamente um convite ao exagero para o diretor. Na sua orientação dos atores, na forma como filma os detalhes dos sets brilhantemente montados, nas brincadeiras com o foco da câmera e no uso minimalista da trilha-sonroa, Fukunaga mostra-se um mestre em trazer para a tela aquilo que o roteiro lhe pede – e não o que seu ego e talento permitem. Se há uma contenção em True Detective que sublinha o quão brilhantemente concisa é a missão da série, esse crédito é muito devido ao diretor.

A química perfeita entre McConaughey e Harrelson, no entanto, é o ponto valorativo onde começa a aflorar a real genialidade da série. A amizade entre os atores emerge na tela da maneira certa, sem definir as performances mas ajudando a contornar a relação entre os personagens. É claro que McConaughey está especialmente sensacional num papel que lhe dá muito material para mastigar, acertando no olhar perdido e na inteligência aguda escondida por trás da carcaça roída pelo tempo e pela vida mal-cuidada de Cohle. Seu monólogo final em “Form and Void” é um momento emocional tão forte porque vem depois de uma pesada construção de personagem e visão de mundo – há algo de especial em ver Cohle chorar, por mais que isso seja cruel. Esse destaque para McConaughey, que faz um trabalho infinitamente superior aqui ao seu desempenho vencedor do Oscar em Clube de Compras Dallas, não apaga no entanto o brilhantismo de Harrelson. Não é só intensidade, masculinidade e rudez que o ator traz para seu Marty Hart – é, antes, um entendimento profundo desse homem “mimado” pelas vantagens que a sociedade dá a ele, desse idealista falso que, ele mesmo admite, é culpado do pecado da omissão. Omissão de si mesmo, que se diga, por uma versão ideal e irreal de si, uma condição complicada que Harrelson retrata em sutilezas e explosões.

Nesses personagens imperfeitos colocados num mundo de pura perversão, Pizzolato encontra seus heróis. Como Dante em busca da amada Beatrice, passando por inferno, purgatório e paraíso, os dois encaixam-se em True Detective como uma chave que abre a porta da compreensão narrativa. “It’s just one story. The oldest. It’s light vs. darkness”, diz Cohle ao final da série. “And if you ask me, light is winning”. Até no mundo hediondo de True Detective, vejam só, há beleza nas histórias de vida entrelaçadas de dois seres humanos.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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A segunda temporada de True Detective já está em processo de produção.

1 comentários:

sofia martínez disse...

Grande, a série conseguiu o que poucos, posição em redes sociais como um dos melhores, eu espero que a segunda temporada alcançado surpresa.