13 de ago de 2014

Por que a ditadura anti-spoilers não faz sentido nenhum?

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ATENÇÃO: O texto a seguir contem spoilers!
(obviamente)

por Caio Coletti

Nos primeiros minutos de Lisbela e o Prisioneiro, produção nacional de 2003, a personagem-título interpretada por Débora Fallabella está indo ao cinema com um rapaz (Bruno Garcia) e, antes mesmo do filme começar, conta a ele exatamente o que vai acontecer. Lisbela nunca viu o filme, mas garante ao seu companheiro de sessão que é sempre do mesmo jeito. Então, qual é a graça? “A graça não é saber o que acontece, é saber como acontece e quando acontece”, decreta a personagem, com o adorável sotaque nordestino que a atriz lhe emprestou. Esse é um daqueles momentos deliciosos em que um filme mostra a que veio já de primeira, e Lisbela e o Prisioneiro veio para (re)acender em seu espectador o prazer de uma boa história. E uma boa história nunca – nunca – é definida por seu final.

Corta para os últimos anos, com as febres culturais de Game of Thrones e Breaking Bad trazendo ainda mais gente para esse buraco negro de opções que é o mundo das séries de TV. As tramas da HBO e da AMC mobilizaram um contingente de fãs que talvez não seja inédito para a história da mídia (vide Friends, The X-Files, Lost), mas foi sem dúvida potencializado pelo poder que a mídia social exerce sobre a cultura contemporânea. Perto do final da série estrelada por Walter White, tudo o que se lia no Twitter e no Facebook eram reclamações sobre spoilers postados por aqueles que tinham arranjado um tempo para assistir o finale, “estragando” a experiência para os menos afortunados (e mais ocupados). No ano passado, semana após semana, a situação se repetiu com os episódios dominicais das desventuras de Daenerys, Tyrion e cia. Cada informaçãozinha postada, cada capa de Facebook mudada para homenagear alguma cena da semana – tudo era tratado como um crime capital.

Pois estou aqui para concordar com Lisbela, e discordar de (quase) todos vocês. Desculpem-me a descortesia. O dia em que ler um livro, ver um filme, acompanhar uma série ou qualquer outra coisa que eu possa fazer que me coloque em contato com uma narrativa, for feito com o único propósito de conhecer o final, será o dia em que vou procurar algo diferente para fazer. Por que se todas aquelas horas perdidas com os olhos na tela (ou no papel) são só uma inconveniência, um meio para chegar em um final, não importa quão prazeroso tudo aquilo seja – se a estrada de tijolos amarelos para encontrar O Mágico de Oz for só um caminho –, então realmente vale a pena?

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O que me faz me agarrar em uma história minuto após minuto, página após página, episódio após episódio, não é a perspectiva de chegar a algum lugar, mas a de acompanhar aqueles personagens até eles chegarem lá. Nenhum final na ficção é verdadeiramente um final, ou é? Animais cruéis como são, os escritores resolvem nos fazer entrar nesses mundos num ponto arbitrário, observá-los por um tempo limitado, e deixá-los quando ainda haveria muito o que se viver neles. Dependendo do código de crenças que rege a história, talvez nem a morte dê a algum personagem um final absoluto. A quantidade de coisas que ficamos sabendo ao acompanhar uma narrativa é insignificante diante da imensidão de coisas que nunca saberemos.

Como todos os prazeres da vida, o da ficção pode ser um prazer brutal. Pode provocar tristeza, amargura e raiva; pode nos deixar em pedaços, quase sem reação. Pior que isso, pode nos fazer gostar, aplaudir e nos apegar a todas essas emoções negativas. Em poucos relacionamentos amor e ódio são tão íntimos quanto no do ser humano com sua ficção. Talvez seja por isso que as pessoas atualmente se sintam tão violadas quando alguém lhes conta algo importante sobre sua série favorita antes que eles mesmos possam ver. É compreensível se sentir roubado do prazer de assistir, mas é também uma ilusão. O prazer continua ali, porque ele nunca esteve na surpresa.

O prazer da narrativa está na agridoce sensação de habitar e, ao mesmo tempo, não habitar aquele mundo. Conhecer e, ao mesmo tempo, não conhecer aqueles personagens. E observar de longe e, ao mesmo tempo, tão de perto, como eles podem chegar tão longe.

PS: Outra coisa que eu estive pensando quando escrevi esse texto: se tudo o que você quer é saber o final, pra quê se importar em viver? Todos nós sabemos como vai acabar mesmo…
PS2: Valar Morghulis

La muerte de Ned StarkSpoiler só da primeira temporada para ninguém ficar bravinho

1 comentários:

Anônimo disse...

Sou do time que "caça" spoilers!