21 de ago de 2014

Review: Uma vida de ressentimentos em duas horas com o drama de “Álbum de Família”

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por Caio Coletti

“Life is very long”. Essas são as primeiras palavras de Álbum de Família, filme do ano passado que rendeu a Meryl Streep e Julia Roberts indicações ao Oscar de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante, respectivamente. A adaptação cinematográfica da peça teatral de Tracy Letts (Killer Joe) é um daqueles raríssimos filmes em que uma jornada de duas horas de encenação é empreendida para se condensar na conclusão dos primeiros minutos. Se existe um ponto que Álbum de Família quer passar para seu espectador, é que a vida é mesmo muito longa, e que sobra tempo nela para deslizes e arrependimentos, amarguras e perdões, amores e decepções, ressentimentos e cinismo. Ao apresentar três gerações da família Weston reunidas sob o mesmo teto, o filme assinado por John Wells (Shameless) condensa em uns poucos dias, ou ainda mais valentemente em meras duas horas, toda a bagagem e as escolhas desses personagens – e arranja tempo para mostrar como eles moldam uns aos outros de forma única.

Vencedora do Pulitzer e do Tony, a montagem original da peça de Letts reportadamente pegava mais pesado no humor negro, e mais leve no drama, do que essa adaptação cinematográfica. Não são cabíveis comparações, no entanto, principalmente tendo em vista que o próprio dramaturgo adaptou sua obra para o cinema. É compreensível que ele tenha sentido a necessidade de abordar essa história de uma maneira diferente, e é preciso que o espectador se mantenha aberto a uma visão da trama em que a dramaticidade suplanta os poucos momentos em que a observação mordaz de Letts se faz notar. O humor de Álbum de Família é glorioso, não me entendam mal: em vários momentos o filme é uma pérola de constrangimento, e a língua afiada da personagem de Streep garante as tiradas cruéis que temperam o filme. O prato principal, porém, é uma crônica dramática que se leva muito a sério. E não há problema nenhum com isso.

Violet (Streep) é a matriarca dos Weston, que reúne o clã todo em sua casa em Oklahoma quando o marido, Beverly (Sam Shepard), desaparece misteriosamente. O centro dessa reunião são as três filhas de Violet: Barbara (Julia Roberts) é a mais velha – e mais controladora –, está tendo problemas com o infiel marido Bill (Ewan McGregor) e a precoce filha Jean (Abigail Breslin); Ivy (Julianne Nicholson), a única que permaneceu em Oklahoma, é uma frágil e solitária solteirona que pode estar se arranjando com Little Charles (Benedict Cumberbatch), seu próprio primo; e Karen (Juliette Lewis) é a aventureira da família, trazendo sempre um namorado diferente para casa – o da vez é Steve (Dermot Mulroney). A família se completa com Mattie Fae (Margo Martindale), irmã de Violet, casada com Charlie (Chis Cooper), e mãe de Little Charles.

Com esse leque verdadeiramente carnavalesco de personagens em mãos, Letts explora quase todas as convenções do drama familiar. É um jogo esperto que o roteirista/dramaturgo joga, atirando em sua história clichês como a história do viciado em drogas da família (no caso, a própria Violet), o incesto, os casos extra-conjugais e a paternidade trocada. Brincando com esses modelos fixos do drama americano, Letts vira tudo de cabeça para baixo ao se focar intensamente no efeito e nas consequências desses desenredos na vida de seus personagens.

Cada um dos Weston ganha uma personalidade muito definida, marcas de expressão e cicatrizes muito reais, e não é difícil imaginar como elas foram adquiridas ao observar o ambiente em que se desenrola a história. Letts triunfa não só ao criar a família disfuncional das famílias disfuncionais, mas ao povoá-la de pessoas que não estão vivas somente naquele momento – a impressão que fica é que a narrativa de Álbum de Família começou a ser desenvolvida muito antes daquelas primeiras palavras em tela (“Life is very long”, lembra?).

É óbvio que Meryl Streep está superlativa. E não se trata de sotaque, técnica, visual ou despudor, e sim de entender que Violet é uma personagem maior-(e-mais-amarga)-que-a-vida, e interpretá-la de acordo. Os exageros e os maneirismos não estão aqui para servir o ego da atriz e garantí-la mais uma lembrança da Academia, mas exatamente para garantir que a matriarca dos Weston seja a figura marcante, magnética, caótica e catalisadora, em torno da qual todas as outras performances se reúnam. Meryl garante, assim, que todas elas tenham sua chance de brilhar, e Julia Roberts agarra a oportunidade com unhas e dentes. Se para a veterana intérprete de Violet essa é mais uma confirmação de um talento inescapável, para a eterna Uma Linda Mulher esse é talvez o grande o momento de sua carreira. Sua Barbara é o personagem menos glamuroso da carreira, e também o menos identificável. É uma mulher egocêntrica, indigesta, cheia de julgamentos para todos ao seu redor, e Julia não tem medo de retratá-la assim – ao mesmo tempo sendo capaz de desafiar Meryl em cena e se sair com uma performance inesperadamente tocante. Ela é o verdadeiro centro da trama, não se pode negar.

A quietamente sublime Julianne Nicholson e o minucioso Benedict Cumberbatch também merecem nota; ou talvez merecessem até mais, assim como Juliette Lewis, Chris Cooper e Margo Martindale, mas não dá para dissecar cada uma das performances aqui – é preciso ver para entender. Álbum de Família, como todo filme de origem teatral, se apóia muito mais intensamente nos seus atores, mas reúne um elenco tão bom que não sai perdendo com isso. A câmera viva de John Wells traz o renovado drama de Tracy Letts um senso de movimento impossível no teatro, o que só ajuda a separar as duas obras.

Aqui, a história que vemos passar pela tela é a exaustão de uma vida que não dá trégua. No inclemente Sol das planícies americanas, os dias se sucedem sem piedade, e nossos personagens precisam lidar com quem são a cada novo alvorecer. Álbum de Família é um drama muito vivo, talvez exatamente por ter consciência dessa inevitabilidade do mundo, e mesmo que não seja exatamente otimista, termina com uma larga estrada se estendendo para além de onde a câmera pode ver. A vida para Tracy Letts é muito, muito longa – tão longa que ainda há muito o que se ver dela.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Álbum de Família (August: Osage County, EUA, 2013)
Direção: John Wells
Roteiro: Tracy Letts, baseado em uma peça de sua autoria
Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Dermot Mulroney, Margo Martindale, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Abigail Breslin, Sam Shepard
121 minutos

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