13 de out de 2014

Estreia: “Selfie” quer fazer graça de todo mundo sem julgar ninguém – e consegue

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Emily Kapnek vive em um mundo onde os aspectos ridículos do comportamento humano não são desculpa para pensar que as pessoas que o perpetuam são menores que aquelas que não o fazem. Por três gloriosos anos, Suburgatory esteve na ABC conjugando uma sátira ácida da forma de vida suburbana, toda a sua ostentação e suas futilidades, com o conto de dois outsiders que aos poucos percebiam que aquelas pessoas com as quais eles inicialmente não queriam se misturar tinham muito a oferecer (ainda que, também, muito a se consertar). Selfie, a nova série de Kapnek, é um conto moral parecido, com um alvo muito mais contemporâneo e o coração em temáticas diferentes, mas nem por isso deixa de ser preciosa.

A britânica Karen Gillian (a Amy Pond de Doctor Who)  faz um retrato bastante engraçado, ainda que consideravelmente caricaturesco, da protagonista Eliza Dooley, uma perfeita queen bee obcecada pela sua fama virtual, que trabalha em uma empresa farmacêutica. No roteiro de Kapnek para o piloto, a personagem se desenha como uma mulher cheia de problemas para aqueles a sua volta – das saias muito curtas à atitude desinteressada –, mas que aprendeu a agir dessa forma, paradoxalmente, para escalar a escada social de um mundo que se parece muito com uma versão gigantesca da high school. Essa sutileza perde um pouco da força no segundo episódio, “Un-Tag My Heart”, assinado por Amelie Gillette (Grouwing Up Fisher), mas os fundamentos estão postos para que Selfie não se torne uma série maniqueísta.

Vendido como uma repaginação de My Fair Lady para a geração obcecada pela mídia social, a série na verdade empresta elementos bem soltos da história estrelada por Audrey Hepburn em um musical para o cinema de 1954. Enquanto a Eliza de Audrey era uma pobretona que se junta a um professor esnobe para aprender a maneiras da alta sociedade, a Eliza de Karen Gillian é uma mulher que pensa estar no topo (porque o mundo a sua volta a ensinou assim), e depois de um evento traumático se reúne com um dos seus colegas de trabalho (John Cho, dos novos Star Trek e de Sleepy Hollow) para aprender como se livrar da imagem de garota fútil que conseguiu tudo o que queria graças a sua aparência.

O espírito de My Fair Lady, no entanto, vive de forma muito contemporânea em Selfie. Ainda que precise ajeitar alguns exageros na caracterização (e apesar do fato de que, devido à baixa audiência, a série provavelmente nem vai ter essa chance), a nova série de Mrs. Kapnek acerta em cheio no retrato ácido, mas bastante humano, que faz do ambiente que moldou seus personagens. Há piadas com a cultura hipster, mas isso não faz da vizinha da protagonista, Bryn (Allyn Rachel), uma personagem desprezível; há o retrato do executivo interpretado por Cho como um homem antiquado, e principalmente um que não sabe aproveitar a vida; e há, é claro, essa protagonista extraordinariamente engraçada que age como se fosse inócua, mas Selfie escolhe mostrar os caminhos pelos quais esses seres humanos lidam com quem eles são e caminham em direção a quem eles podem ser. Desde que o mundo é mundo, é exatamente isso que faz uma boa narrativa.

Mais importante ainda é notar que em um cenário televisivo cínico como esse em que estamos vivendo, a fé inabalável de Emily Kapnek na nossa vontade de mudar deveria ser muito mais apreciada do que é.

✰✰✰✰ (4/5)

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