26 de out de 2014

Person of Interest 4x05: Prophets

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Quando uma narrativa transcende o seu tema aparente, aquele que já dá as caras na mais simples resposta para “do que essa série fala?”, é praticamente impossível fugir de algumas discussões morais. A partir do momento em que o roteirista resolve falar de algo que vá apelar ao público não só pelo poder de envolvimento da narrativa, mas também pela universalidade daquilo que ela discute, ele está entrando num jogo perigoso: como lidar com os códigos morais diferentes de cada espectador, e realizar um retrato fiel da realidade desses personagens, sem maniqueísmos e soluções fáceis? Person of Interest não só se recusa a fugir dessa prerrogativa, como escolhe encará-la de frente e fazer dela um aspecto central de sua própria constituição.

“Prophets” é o episódio da quarta temporada, até agora, que mais incisivamente toca nessa questão. O script assinado por Lucas O’Connor (3x12, “Aletheia”) traz de volta o recurso dos flashbacks para nos mostrar outro aspecto dos dias de nascimento da máquina que joga uma luz interessante sobre as ações dela e do seu criador no presente. Vemos Finch lutando contra várias versões diferentes da máquina e percebendo que, dando-lhe poder de observar e intervir num mundo digitalizado, ele estaria potencialmente subjugando a sociedade a uma arbitragem fria, que não se importa de eliminar seu próprio criador para alcançar seu objetivo. De certa forma, Person quer nos dizer que basta tirar o elemento consciência da nossa capacidade cognitiva que somos todos vilões – psicopatas talvez seja a palavra certa.

A discussão filosófica acontece em meio a trama da semana, envolvendo Simon Lee (Jason Ritter, Parenthood), o garoto de ouro das predições eleitorais, que trabalhou para a campanha do governador de Nova York, candidato a reeleição, com a aura de 10 previsões acertadas em disputas anteriores. Quando o político perde o cargo para a outra candidata, no entanto, Simon levanta suspeitas contra a legitimidade das eleições, o que pode enfurecer algumas pessoas – especialmente o pessoal do Samaritan, que pode estar por trás da falcatrua toda, a fim de colocar uma marionete sua na posição de poder.

A trama apresenta algumas novidades em relação ao funcionamento do episódio, como é de costume em Person, sempre trazendo abordagens novas à premissa básica. Grande parte da graça de “Prophets” é ver os integrantes do #TeamMachine (eu me rendo!) perseguindo Simon pela cidade sem poderem ser vistos, uma vez que Samaritan também está no rastro do moço. As coisas escalam em uma curva narrativa perfeita que culmina em uma das cenas de ação mais bem coreografadas e filmadas das quatro temporadas da série – o tiroteio entre uma estoica Root e a implacável Martine (Cara Buono, Mad Men), assassina contratada do Samaritan. O diretor Kenneth Fink (3x05, “Razgovor”) tira o melhor desse momento dramático e cria um dos momentos mais tocantes da temporada de Person até agora.

Ver que Root evoluiu de uma vilã com um passado sombrio nas primeiras temporadas para uma das figuras mais moralmente significativas da série – um yiang para o yin de Finch, por assim dizer –, é a melhor testemunha para a forma como Person é capaz de manipular os personagens e as situações que tem em mãos para montar a mais bem azeitada engrenagem narrativa da televisão aberta americana. “Prophets” é uma pérola de relativismo, colocando lado a lado uma sensação de pavor mais do que bem justificada em relação ao mundo governado por uma máquina (ou um Deus?) e a crença cega no fato de que tal inteligência artificial é capaz de tomar decisões com os mesmos princípios de um ser humano.

Person não aponta quem está certo, como de costume, mas é muito mais interessante acompanhá-la quando se percebe que seus protagonistas não estão lutando só uma guerra contra inimigos perversos – estão também travando uma batalha contra os próprios medos e inseguranças.

Observações adicionais:

  • Queremos muito que a terapeuta de Mr. Reese continue por perto durante a temporada: além de dar ao personagem de Jim Caviezel a chance de acrescentar algo à temática da série, a doutora ainda é interpretada por Wrenn Schmidt, que arrasou na última temporada de The Americans.
  • “If the worst comes to pass, if you could give Shaw a message?” “I think she already knows” JÁ ESTOU SHIPPANDO! ♥ ♥

✰✰✰✰✰ (5/5)

PERSON OF INTEREST

Próximo Person of Interest: 4x06 – Pretenders (28/10)

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