27 de nov de 2014

Gotham 1x09/10: Harvey Dent/Lovecraft

GOTHAM: Detectives James Gordon (Ben McKenzie, second from L), Renee Montoya (Victoria Cartagena, second from R) and Crispus Allen (Andrew Stewart Jones, R) meet Harvey Dent (guest star Nicholas D'Agosto) in the "Harvey Dent" episode of GOTHAM airing Monday, Nov. 17 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2014 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

ATENÇÃO:  esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

1x09 – Harvey Dent

Poucas séries são tão dedicadas à construção do mundo ficcional que habitam quanto Gotham. O leitor pode argumentar que era de se esperar, visto o próprio título da série, mas isso não diminui a importância do trabalho que os roteiristas realizaram nessa primeira fatia da temporada, nos mostrando os meandros e as naturezas de Gotham City, e o que nela move os personagens que a povoam. A essa altura, se aproximando do seu primeiro fall finale, a série da FOX respira com vitalidade impressionante pela complexidade e audácia que o seu retrato da metrópole mais famosa dos quadrinhos trouxe para a televisão americana. Gotham é notavelmente dark para o ambiente em que é produzida e o alcance potencial que tem, e poucas vezes isso ficou mais claro que em “Harvey Dent”.

Simbólico que seja essa o episódio, é claro, em que conhecemos o jovem promotor que é figura mais que carimbada do universo de Gotham. Interpretado por um histriônico Nicholas D’Agosto (conhecido dos fãs de Masters of Sex, que estão familiarizados com as suas limitações como ator), o futuro Duas-Caras é uma presença imediatamente impressionante em tela, porque representa a forma mais insidiosa de corrupção que poderia se infiltrar em qualquer cidadão de Gotham: aquela que aflora pelo desejo fulguroso de justiça. Garantidamente que o roteiro pesa a mão nos diálogos e na caracterização, e o ator não ajuda – mas há algo no Harvey de Gotham que mantem o espírito do personagem, e o torna um espelho interessante de Gordon.

O outro ponto principal de “Harvey Dent”, nas mãos do roteirista Ken Woodruff (1x04, “Arkham” – review), é a estrutura social da metrópole que dá nome à série. Há algo de cruel na forma como o episódio retrata a interação entre Bruce e Selina, por exemplo, embora Woodruff não esqueça de dar aos diálogos entre eles um tempero agridoce. Esse é o nascimento de um casal complicado que estamos vendo, e é interessante colocar o sempre focado David Mazouz em frente à vivaz Camren Bicondova – não só os dois soltam faíscas juntos, como puxam a mente do espectador, e a de Bruce, para a realidade que existe além dos muros da Mansão Wayne. Gotham vem tratando a evolução do seu herói como um núcleo separado do cerne da trama, e “Harvey Dent” deixa isso claro (para realçar a divisão social de Gotham) ao mesmo tempo que trata de trazê-la de volta ao nível terreno.

O caso da semana compreende um fugitivo da prisão de Gotham (Leslie Odom Jr, de Smash e Person of Interest), conhecido como um especialista em bombas, e a operação de guerra de máfias que parece estar por trás da sua fuga. Gotham não tem tempo para perder com histórias descartáveis para a evolução da trama, então descobrimos que não só Fish está por trás do estratagema todo, buscando fragilizar ainda mais Falcone, como a história do personagem de Odom Jr. serve para levar adiante a storyline do Asilo Arkham, que parece ser uma queridinha do roteirista Woodruff. Contando a história que conta, Gotham é uma série que estava fadada a jogar muito com expectativas, mas até que está indo adiante com notável rapidez – e transformou a construção das fundações de uma das histórias mais famosas do mundo em uma narrativa excelente por seus próprios méritos.

Notinhas adicionais:

  • Nicholas D’Agosto, really? Por hora até que o moço funciona nos moldes que Gotham coloca para o personagem, mas se a série tem a ambição de se demorar mais em Dent (e esperamos que tenha!) a coisa vai ficar feia.
  • Palmas para a diretora Karen Gaviola (The Blacklist, Criminal Minds) pela câmera elegante, a fotografia linda das cenas na Mansão Wayne, e a adição de sombras e dramaticidade nos momentos certos. “Harvey Dent” é um pouco uma bagunça de tons, mas a moça faz um trabalho hercúleo (e competente) em equilibrá-los.

✰✰✰✰ (4/5)

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1x10 – Lovecraft

A sensibilidade de Gotham com os seus personagens é um caso para se analisar de perto. Embora as virtudes da série da FOX sejam inúmeras quando estamos falando de encenação, construção de mundo e cerne temático conectado com todas as outras (boas) encarnações do Batman no cinema e na TV, todo esse trabalho bem feito veio a grandes custos para o desenvolvimento emocional da história. “Lovecraft” é o primeiro episódio (e, não por coincidência, também o fall finale da trama) que tenta nos envolver de verdade com os relacionamentos entre os personagens, e é notável o quanto o trabalho desenvolvido até aqui em pequenas doses durante os episódios dessa complexa e bem-pensada trama rende frutos em vários momentos. “Lovecraft” é muito bom em mostrar o que esses personagens significam uns para os outros, e a partir desse processo cria um interessante fechamento para a primeira meia-temporada de Gotham.

A trama é colocada em movimento quando assassinos profissionais são enviados à Mansão Wayne na busca por Selina, a já alardeada testemunha que pode conectar Dick Lovecraft ao assassinato do pais de Bruce. Apesar da atuação heroica de Alfred, o bilionário e a garota de rua precisam fugir para as ruas para evitar serem pegos pela equipe comandada por Diaz (Lesley-Ann Brandt, Spartacus) – e então a caçada começa. “Lovecraft” é um episódio com poucas implicações práticas na sua trama central, com a honrosa exceção de nos trazer a noção de uma força maior invisível manipulando todas as marionetes de Gotham, e também de provocar o racha entre Gordon e o prefeito James (Richard Kind, em sua melhor atuação na temporada), o que por sua vez leva o nosso protagonista a ser transferido da polícia para a guarda do Asilo Arkham, uma perspectiva empolgante para a segunda metade da temporada.

Por falar no personagem de Ben McKenzie, ele está pegando fogo em “Lovecraft” de uma forma que não víamos desde “Penguin’s Umbrella” (review) – Gordon volta a ser o centro da trama aqui, e o roteiro pega dicas da atuação furiosa de McKenzie para transformá-lo em um transgressor perigoso e pronto para explodir a qualquer momento. O acerto é tanto nesse retrato do futuro comissário da GCPD que até o Harvey Dent de Nicholas D’Agosto aparece mais amansado, e muito mais crível também. McKenzie é a segunda melhor atuação do episódio apenas porque Sean Pertwee eterniza seu Alfred em meio a todos os retratos do mordomo dos Wayne, trabalhando a destreza física mas principalmente o tough love britânico que torna a sua relação com Bruce a conexão de personagens mais tocante de Gotham até agora. Em muitos sentidos, “Lovecraft” é o produto desses dois atores.

Enquanto a guerra de gangues se desenrola com o ritmo característico da série no pano de fundo, e as histórias de vida de personagens conhecidos vão sendo mostradas de forma delicada em flashes intermitentes (esse episódio marca o retorno de Ivy!), Gotham trata de se fortalecer como narrativa e obra própria, mostrando que tem mais a dizer sobre esses personagens do que tudo aquilo que já foi dito. É ao estabelecer essa visão própria com mais assertividade que a série pode deixar de ser uma boa surpresa para se tornar uma ótima história.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

Gotham - Episode 1.10 - LoveCraft - Promotional Photos

Gotham volta depois do holiday break, em Janeiro.

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