12 de jan de 2015

Review: A humanidade crua e delicada de “Dois Dias, Uma Noite”

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por Caio Coletti

Quando se tem um histórico de depressão, as pessoas começam a te tratar de forma diferente. Embora a condição clínica da protagonista Sandra (Marion Cotillard) não seja exatamente o foco de Dois Dias, Uma Noite, a reação daqueles em volta dela na agonizante jornada documentada pelo irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne é muito importante para entender o que o filme quer passar. Saindo de uma longa luta contra a doença, Sandra precisa visitar seus colegas de trabalho para convencê-los a deixá-la retornar ao seu posto, mesmo que isso signifique – segundo o chefe da companhia – a perda do bônus de final de ano de todos eles. É uma tour de force de resistência, e de negação do próprio orgulho, que a personagem tem que passar, tudo enquanto luta contra os traços remanescentes da depressão. É também uma oportunidade única para os Dardenne realizarem um estudo social de profundo significado humano.

Jean-Pierre e Luc são queridinhos de longa data do cinema europeu, têm duas Palmas de Ouro na prateleira (por Rosetta e A Criança, de 1999 e 2005, respectivamente), e são conhecidos pelo estilo “câmera-na-mão” de fotografia, além do costume de não escalar grandes astros em seus filmes. O papel central que Marion desempenha em Dois Dias, Uma Noite, portanto, é uma exceção dentro da carreira dos cineastas, mas é uma exceção mais do que acertada – difícil pensar em outra atriz sendo capaz de interpretar Sandra com tamanha vulnerabilidade, transparência absoluta de emoções e uma linguagem corporal que expressa de costas mais do que muitas atuações seriam capazes em pleno close-up. Há algo nos olhos da atriz francesa, vencedora do Oscar por Piaf, que legitima o constante bravado de Sandra, que rejeita os sentimentos de pena do marido e de vários de seus colegas de trabalho, mas há também o retrato de uma mulher verdadeiramente em pedaços, lutando contra uma força muito maior que ela para se recompor.

Conduzida pela câmera delicada e íntima dos Dardenne, Marion é o corpo e a alma de Dois Dias, Uma Noite (e poucas vezes essa frase tão batida foi usada com tanta justiça): ela nos leva por uma jornada que tem muito a mostrar a cada parada pelo caminho. O roteiro assinado pelos dois irmãos cineastas colore uma ampla gama de reações e emoções ao passar por cada uma das pessoas que Sandra visita, documenta cada encontro com uma tonalidade diferente e parece querer nos mostrar o quanto a maneira como os outros nos veem pesa nos meandros da nossa vida. Citar qualquer uma dessas cenas seria estragar o ponto de Dois Dias, Uma Noite, a constante expectativa na qual a estrutura da história nos deixa, a honestidade brutal e (ao mesmo tempo) sutil com a qual o filme observa cada personagem, sem cair em maniqueísmos fáceis e falsos moralismos.

Cheio de momentos poderosos, o filme dos Dardenne passa sua mensagem com a quietude e a pouca pretensão que é marca indelével do cinema francês. Retratando uma realidade dura e intransponível, que não pode ser salva por atos heroicos ou superações magníficas que provam o espírito humano acima de qualquer provação, Dois Dias, Uma Noite é muito menos uma fábula moral (como facilmente poderia ser, nas mãos de roteiristas menos inteligentes) e muito mais uma reafirmação humanista. Quer nos lembrar que a força da vida, essa incansável vontade de continuar em frente que é justamente o que não nos mantem inertes na cama todas as manhãs de dias úteis, vem pura e simplesmente do ato de lutar por ela.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit, Bélgica/França/Itália, 2014)
Direção e roteiro: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée
95 minutos

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