4 de jan de 2015

Review: “O Grande Hotel Budapeste” é um pedaço comovente (e esperançoso) de metaficção

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por Caio Coletti

A fascinação humana pela fantasia é uma das características mais naturalmente bem-documentadas da nossa espécie – se a Teoria da Evolução nos caracteriza como os primatas com polegares opositores, talvez também devesse nos caracterizar como os primatas que contam histórias. O Grande Hotel Budapeste é uma das histórias mais especiais que 2014 teve para contar, e é também uma oportunidade absolutamente bem-vinda de refletir sobre o que nos faz tão fascinados pela ficção. É uma proeza cinematográfica, uma caixa de surpresas visual e uma montanha-russa de sensações para o espectador que acompanhar bem de perto, e é também um dos retratos mais sensíveis, em muito tempo, da capacidade humana de criar mundos inteiros à despeito dessa coisinha chata chamada realidade.

É o que faz o protagonista de Budapeste, o encantador M. Gustave, interpretado com delicadeza e timing cômico ímpar por Ralph Fiennes, um ator capaz de esconder significados em cada expressão idiossincrática do roteiro de Wes Anderson, e fugir obstinadamente da caricatura. Se essa não é uma das melhores interpretações masculinas do ano, este crítico que vos fala não sabe qual é. O filme retrata Gustave através dos olhos de Zero (o estreante Tony Revolori e o veterano F. Murray Abraham, em momentos diferentes da narrativa), o novo criado do Grand Budapest, hotel administrado com punho de ferro pelo concièrge. Além de comandar a metódica rotina do local, o personagem de Fiennes ainda serve como consolo sexual para as ricaças de idade avançada que passam pelo estabelecimento – e é quando uma delas (Tilda Swinton, irreconhecível) morre, deixando para Gustave um quadro valiosíssimo, que a confusão começa.

O novo filme de Anderson, talvez o diretor americano mais marcante do século XXI, se impõe como uma aventura de proporções épicas realizada em um tom muito reconhecível para quem acompanha a carreira do moço, e mesmo assim dotada de uma riqueza de significados e uma densidade emocional que é inédita em sua filmografia. Budapeste é um filme muito pleno, em todos os sentidos, e não é a profusão de personagens que o faz assim: é a total honestidade com que o roteiro trata essas figuras, a tridimensionalidade que elas adquirem mesmo com pouco tempo em tela, e o papel fundamental que elas cumprem para o retrato espertíssimo que Anderson faz da época em que se passa sua história dentro da história. Localizada temporalmente à beira da Segunda Guerra Mundial, a comédia aventuresca do diretor funciona também como uma lamentada realização da morte de mundos inteiros de fantasia, baseados em concepções morais firmes que se mantem imaculadas mesmo quando confrontadas com a mera humanidade daqueles que os sustentam.

Anderson estrutura um terceiro ato de tirar o fôlego, uma série absurda de perseguições que tem efeitos tão cômicos quanto angustiantes, largamente porque o restante do filme nos fez nos importar, de maneira muito sutil, com os personagens. Já é de conhecimento público que o diretor é um gênio dos enquadramentos e das pequenas brincadeiras visuais (nossa favorita pessoal tem a ver com uma escada enorme e um cenário de prisão – fiquem atentos), e aqui ele compõe suas cenas com a meticulosidade de sempre, mas a estrela de Budapeste é a história. Executada por Anderson ela se torna muito mais evocativa, divertida e magistralmente estruturada como encenação, mas o acerto em cada passo da história e da caracterização dos personagens é mais importante, e é isso que faz o filme se destacar na filmografia do diretor.

De certa forma, O Grande Hotel Budapeste é sobre a morte da esperança, da civilidade, talvez até da Justiça – e a sua substituição por conceitos muito mais complexos, adequados para um mundo que passou e sobreviveu ao conflito mais brutal da história da humanidade, e que sabe muito bem que aquele não foi o último. Anderson se permite ser melancólico, mas nunca depressivo, porque esconde na manga, em meio à sua forma muito peculiar de fazer cinema, a carta mais poderosa de todas: enquanto formos capazes de contar histórias, esses mundos e valores nunca estarão verdadeiramente perdidos. Essa “enchanting old ruin” da humanidade (a ficção) nada mais é do que nosso remédio, devastadoramente efetivo e cheio de efeitos colaterais, contra nós mesmos.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, EUA/Alemanha/Inglaterra, 2014)
Direção e roteiro: Wes Anderson, baseado nos escritos de Stefan Zweig
Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Mathieu Almaric, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Harvey Keitel, Jude Law, Bill Murray, Edward Norton, Saoirse Ronan, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori
100 minutos

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