18 de fev de 2015

Por que estamos vendo filmes do jeito errado?

avengers-age-ultronSó no canal da Marvel, Os Vingadores 2 já tem cinco vídeos de preview

por Caio Coletti

Talvez seja a era em que nós vivemos, na qual previews de trailers são lançados online e pequenos gifs postados no Facebook e no Twitter antecipam até mesmo esses diminutos previews. Tomemos por exemplo o segundo filme da equipe de super-heróis Vingadores, da Marvel: o primeiro teaser da continuação foi lançado em outubro passado, e o filme só está marcado para estrear em abril desse ano; além disso, a produtora tem o costume de incluir durante os créditos de seus filmes pequenas cenas que dão um gostinho do que está por vir para os espectadores, então é possível considerar que Os Vingadores 2 está criando raízes nas mentes dos fãs do universo Marvel há um bom tempo (até o terceiro filme da equipe já tem elementos garantidos). Mas por que isso tudo nos faz ver filmes “do jeito errado”, como o título anuncia? Provavelmente porque, quanto mais criamos expectativas, mais uma versão “imaginária” e muito particular do resultado final se forma em nossa cabeça – e são maiores as chances de sairmos do cinema decepcionados por todas as piores razões.

O ponto maior, porém, é que isso não acontece só com continuações de franquias (nas quais, para o bem ou para o mal, o espectador já tem uma boa noção do estilo distintivo daquela série de filmes) e grandes blockbusters hollywoodianos, mas também com pequenas obras cujas pretensões são deturpadas ou pela campanha publicitária, ou pelo hype criado pela crítica e pelo público. Acontece que a culpa não é dos executivos do estúdio ou dos formadores de opinião sobre cinema, muito menos daquele cara que fez um post no Facebook dizendo que tal filme era tudo aquilo que você achou que ele falhava em ser; a culpa, na verdade, é todinha nossa.

RATATOUILLE PHOTO2O crítico com o qual você discorda

Garantidamente, e com muita frequência, filmes são interpretados como algo que não são, mas não dá pra posar de vítima nessa história. Aquele crítico cujo review você leu viu o filme de um jeito completamente diferente que você; aquele seu amigo do Twitter que foi surtar em várias mensagens de 140 caracteres, também; esse buzz todo que você está ouvindo sobre o último filme do diretor Fulano de Tal (e hype é uma coisa muito difícil de definir) é uma junção de opiniões e reflexões em cima de uma obra cuja percepção é fundamentalmente subjetiva; e sabe os executivos de estúdio, aqueles que engenham trailers, propagandas e escolhem os quotes de críticos para colocarem no cartaz? Eles vão pintar, infalivelmente, o filme mais vendável e universalmente apelativo que eles conseguirem dentro dos limites do que a obra em si os fornece.

É (ou deveria ser) dever do espectador, que não quer desrespeitar o filme que assiste, entrar na sala de cinema com só uma convicção e só uma intenção: se deixar levar por aquilo que o filme quer lhe mostrar. Mesmo que nem toda peça de cinema, especialmente o comercial, seja uma grande obra de arte, todas elas merecem essa prerrogativa porque são a expressão de uma visão sobre uma história. Todo roteiro, e cada escolha de direção, fotografia, trilha-sonora, cenografia e atuação são dotados de uma intenção em comum, e convergem para entregar ao espectador a mensagem, a sensação, a filosofia daquela trama. Um filme é o resultado do trabalho de centenas de pessoas a fim de dar vida a uma determinada narrativa, com um determinado conjunto de valores e manifestos. Quão justo é julgarmos um trabalho assim pelo que esperávamos que ele fosse, e não pelo que é? Com que direito desbancamos a visão de um artista para impor-lhe suposta má qualidade, só porque achamos que outro tipo de história deveria ter sido contada?

Claro que existem filmes que são mal-executados até naquilo que propõem. Claro que existem filmes que não resistem, por exemplo, a uma análise sobre suas atitudes em relação às personagens femininas, às políticas raciais, a todos os outros temas espinhosos com os quais, às vezes, os cineastas resolvem mexer – mas esse é exatamente o meu ponto. Quando realmente abordam esses assuntos, é justo julgar um filme pelo quão eficiente ele é em abordá-los. Dizer que a terceira temporada de American Horror Story errou ao não desenvolver as personagens negras (ou a maioria delas) antes de nos bombardear com sua chocante cena de chacina é válido, porque Coven claramente pretendia encarar a questão racial; dizer que Boyhood é racista por não incluir personagens latinos mesmo que se passe em um estado com muitos habitantes dessa etnia é ridículo, porque a história que o filme pretende contar não abarca questões étnicas e se concentra na vida íntima de uma família branca (discutir o porquê do arquétipo americano ser uma família branca de classe média é outra história, e muito maior que o filme do Linklater).

B7ZXYhWCEAEeoP-Um quiz rápido: você acha que essa família vive em um círculo social acessível para a maioria dos latinos trabalhadores dos EUA?

Entretanto, a coisa vai mais fundo, e ao mesmo tempo é mais trivial, do que isso. Até filmes que não ganham a temida acusação de “preconceituoso com minorias” são julgados de maneira cruel por qualquer espectador que entra em sua sessão com uma ideia pré-definida do que ele deveria ser. Nós sabemos que você queria que Malévola fosse um filme protagonizado pela vilã impiedosa da Disney, e não uma subversão dos próprios valores maniqueístas de A Bela Adormecida e uma história de amor fraternal desenvolvido através de anos de convivência e cuidado, mas quão bom o filme é em ser o que quis ser? Quão bem os recursos visuais casam com essa visão, as atuações dão vida ao texto como ele foi escrito e o quanto ele funciona em nos mostrar que bem e mal são relativos àquilo que escolhemos fazer com o que acontece a nós? Quão bom o filme é em contar a história que conta, do ponto de vista de quem conta? É justo julgá-lo por não atender a seus caprichos?

Não faz tanto tempo que eu descobri que ir ao cinema é uma experiência muito mais prazerosa se eu não acumular esses tais caprichos. Há um mundo saboroso de sensações e realizações artísticas para se observar quando estou livre dos desejos mesquinhos de consumidor e me deixo levar pela despretensiosa experiência de receber a mensagem – de ser, verdadeiramente, espectador. É uma visão terrivelmente limitada, e extremamente egoísta, a de quem considera qualquer expressão artística uma corrida para satisfazer suas vontades. Não só elas nunca vão ser atendidas por completo, como ele (nosso hipotético sujeito espectador) nunca vai se encontrar de verdade na experiência de ver um filme, sentí-lo como obra sensível que é, para só depois pensá-lo. Como qualquer experiência humana, a da narrativa é muito mais completa se você se entrega a ela.

MALEFICENTAbra sua mente: as vilãs também amam!

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