22 de mar de 2015

Person of Interest 4x17: Karma

Person of Interest

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Person of Interest não é sempre uma série escrita com a audácia da qual o formato televisivo é capaz. Comparar o texto de Jonathan Nolan e companhia para a trama da CBS com determinados trabalhos de TV fechada, por exemplo, é fatalmente perceber o quanto os diálogos de Person são muitas vezes didáticos demais, e como a condução de trama em uma parte dos episódios é truncada. Enfim, a verdade é que, apesar deste que vos fala sempre procurar elogiar os pontos fortes da série (tanto por orgulho de fã quanto por ofício de crítico, diga-se de passagem), é preciso admitir que Person não é perfeita. É produto do mercado, e por isso talvez não seja tão espetacular quanto poderia, num ambiente em que lhe fosse permitido correr mais riscos e deixar mais subentendido para o espectador. O grande trunfo da história de Finch, Reese e companhia, no entanto, é que mesmo com essas limitações Person mantem os olhos focados em seu objetivo, na comunicação com o espectador e na reflexão de determinados aspectos do mundo do qual é fruto.

Em “Karma” isso fica ainda mais evidente porque o script é assinado pelas estreantes Hillary Benefiel & Sabir Pirzada – as duas constroem um episódio quase playful estruturalmente, que mexe de um jeito bacana com a edição de cenas mas não parece capturar muito bem o conceito de ritmo narrativo. Logo no começo do episódio é que essa deficiência fica mais clara, mas bastam alguns minutos para que a história dos personagens e o elemento emocional que a trama carrega tomem o controle e “Karma” se torne o capítulo excepcional de televisão que nasceu para ser. Acompanhamos nossos protagonistas trabalhando no caso do psicólogo Shane Edwards (Patrick Kennedy, Boardwalk Empire), que perdeu a mulher em um crime violento e desde então dedica seus dias à ajudar pacientes na mesma situação. O que descobrimos é que Edwards não se limita a prover terapia, mas arranja um jeito de vingar os entes queridos de seus pacientes e colocar os responsáveis pelos crimes na cadeia.

Como essa é Person of Interest, a própria premissa traz uma pegadinha moral que vira parte do conceito da série de cabeça para baixo: quando o assassino de sua esposa sai da cadeia, o Dr. Edwards começa a planejar seu plano mais mirabolante para colocá-lo de volta no cárcere – tudo enquanto Finch descobre que o depoimento do psicólogo que colocou o acusado na cadeia em primeira instância pode ter sido falsificado, e Edwards está agindo em cima de provas circunstanciais para presumir que o homem é culpado. Parece um pouco demais de plot para se cobrir em um episódio, mas o roteiro lida com as reviravoltas bem, talvez justamente por ter problemas com o ritmo da narrativa linear. “Karma” é interessante porque subverte o procedimento de Person quando instala a incerteza sobre a moralidade da missão do seu número-da-semana. É possível dizer que, tecnicamente, Edwards é um perpretator, mas não sabemos até o final do episódio se sua vontade de vingança é justificada ou equivocada.

Ainda mais fascinante, no entanto, é o quão humano e complexo o episódio consegue ser com esse ponto de partida. Acompanhamos, paralelamente ao caso da semana, um flashback em que Finch aparece logo depois do acidente que matou seu amigo Nathan – amargurado e preso a uma cadeira de rodas, o personagem de Michael Emerson busca vingança contra a agente do governo Alicia Corwin (lembram dela?). “As certain as I was that these people deserved retribution, life was infinetely more complicated than that”, é a conclusão final que Harold tira, tirando de sua própria experiência para convencer Edwards que o caminho certo não é a vingança. Em vários momentos do episódio, tanto Reese quando Fusco dizem que é provável que a Justiça tenha falhado e que, portanto, a justiça (com minúscula) representada pela vingança de Edwards era necessária. O que a história de Finch coloca em questão não é a premissa de que a Justiça é falha, mas a ignorância a partir da qual agimos quando buscamos instaurá-la com nossas próprias mãos.

Numa temporada em que Person cada vez mais se parece com um épico urbano de ficção científica (será que vamos alcançar um momento em que essa série vai se tornar um conto cyberpunk?), é bacana receber um episódio que traz uma trama com a qual podemos nos relacionar quase completamente, e a desenrola de maneira tão hábil e tão pouco maniqueísta.

Notinhas adicionais:

  • Wrenn Schmidt segue entregando uma ótima interpretação como a psiquiatra de John, e a relação entre os personagens está sendo tão bem trabalhada pelo roteiro que fica difícil não se apaixonar por ela e querer mais cenas das sessões de Reese.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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