1 de mar de 2015

Review: Será que “A Teoria de Tudo” respeita demais seu famoso protagonista?

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por Caio Coletti

Cinema não é jornalismo. Quando eu assisto um filme, eu não espero a versão mais confiável possível dos fatos, nem espero que cada fato me venha confirmado de uma fonte que não seja a mente do roteirista (e de cada profissional envolvido na finalização do filme, é claro). Cinema, como qualquer forma de arte, não tem nenhum comprometimento com a verdade – nem mesmo quando se trata de um filme que vem com o famoso rótulo “baseado em fatos reais”. Ao encarar uma cinebiografia como A Teoria de Tudo, do físico Stephen Hawking, o espectador tem que ter em mente que, por mais que se baseie em um livro biográfico escrito pela primeira esposa do britânico, o Stephen que aparece em tela é, fundamentalmente, um personagem. Filtrada pela visão de Jane Hawking e filtrada de novo pelo roteirista Anthony McCarten (Death of a Superhero), que assina o filme, a história de vida do célebre cientista é manipulada pelas intenções narrativas não de um, mas de dois autores – e não há nada de errado com isso.

Dito isso, A Teoria de Tudo talvez seja, entre os concorrentes do Oscar 2015 (do qual saiu com o prêmio de Melhor Ator), o filme mais falho de todos. No entanto, é feito com um esmero de produção impressionante: a direção do britânico James Marsh, conhecido pelo trabalho em documentários como O Equilibrista, coordena de forma tipicamente habilidosa uma série de trabalhos individuais impecáveis que criam uma unidade cinematográfica de bom gosto exemplar. Da fotografia sensível e quietamente experimental de Benoit Delhomme (O Menino do Pijama Listrado) à trilha-sonora baseada em piano de Jóhann Jóhannsson, passando pelo elegante trabalho de edição de Jinx Godfrey e a sutil passagem de tempo retratada pelos departamentos de figurino e design de produção, A Teoria de Tudo é executado com uma finesse absolutamente europeia. Uma pena que tal excelência esteja a serviço de uma narrativa tão carecida de humanidade.

Não me levem a mal: se tem algo que a história de Stephen Hawking definitivamente é, é um testemunho de humanidade. Diagnosticado aos 21 anos, quando era um jovem e brilhante universitário, com uma doença degenerativa conhecida como ALS, o físico superou todas as expectativas de vida que lhe foram dadas e atravessou a existência vivendo-a de forma absolutamente plena. Stephen passou por dois casamentos, teve três filhos com a primeira esposa, e manteve-se historicamente reservado sobre sua vida pessoal mesmo quando boatos apareceram de que a segunda mulher, Elaine Mason (que aparece brevemente no filme), abusava do marido fisicamente. Aos 73 anos anos, é evidente que a vida de Hawking foi uma de grandes feitos, grandes conquistas, excepcional capacidade de adaptação e sobrevivência, e ainda maiores limitações. A Teoria de Tudo não peca exatamente por não retratar essa vida da forma que ela foi, mas por fazer com que a versão que foi parar na tela seja infinitamente menos interessante do que a matéria-prima prometia.

O filme assinado por McCarten quer ser um pungente estudo sobre a forma como as pessoas se afastam, mesmo que tenham se amado de maneira intensa e demonstrado solidariedade impensável uma a outra, mas esbarra o tempo todo no imenso respeito que nutre por seus biografados. Talvez seja o fato de que Stephen e Jane estejam ambos vivos, sejam figuras públicas bastante notáveis e tenham se envolvido com a produção do filme, mas A Teoria de Tudo começa e acaba sem realmente mergulhar nas intenções, nas falhas e nas miúdas rachaduras desse relacionamento, e desses seres humanos. Os personagens que vemos passar por essa epopeia de degeneração física, desgaste romântico, estresse matrimonial e adaptação constante a condições cada vez mais precárias de interação com aqueles que amam não estão à altura da história. Stephen, Jane e até o coadjuvante Jonathan (atual marido de Jane) são santos que sofrem calados a pressão de um relacionamento em ruínas, e que não saem dele com uma mancha sequer de culpa – é difícil se identificar com eles, para falar a verdade.

Se há algum esforço no sentido de mudar isso, ele vem do elenco. É preciso cantar as virtudes da performance de Eddie Redmayne, vencedor do Oscar pelo papel, não só por sua transformação e simulação impressionantes do personagem real, mas também pelas sutis emoções que ele se permite transmitir através do rosto, mesmo quando a paralização de Stephen progride. Eddie nos dá dicas do remorso do personagem, da culpa que ele sente por prender Jane em um relacionamento limitado, da mistura de martirização, profunda tristeza e esperança que ele sente ao finalmente anunciar a ela que quer dissolver o casamento – se seguisse um pouco mais a deixa de seu protagonista, A Teoria de Tudo seria um filme muito mais caloroso do que é. A mesma premissa serve para Felicity Jones, que perdeu a estatueta de Melhor Atriz, mas realiza um trabalho de integridade e transparência impressionantes, capturando nuances de Jane que escapam completamente ao roteiro e só são trazidas à tela pela atriz.

É curioso que o personagem mais inerentemente humano de A Teoria de Tudo seja Brian, o melhor amigo de Stephen interpretado com carisma e sensibilidade por Harry Lloyd (ele mesmo, o Viserys de Game of Thrones). O personagem é uma invenção completamente original do roteirista McCarten, baseado apenas em pequenas descrições que Jane dá, no livro, sobre vários colegas de universidade de Stephen – no filme, ele ganha vida como um companheiro por vezes inepto para o amigo debilitado, que constantemente dá dicas de um lado ligeiramente egocêntrico, e que reage de forma exasperadora quando primeiro ouve a notícia do diagnóstico. Ele está lá, no entanto, na cena derradeira de palestra de Stephen, carregando nas costas todas as cicatrizes, os remorsos e as dores de ser quem ele é. Mesmo que o filme nos revele tão pouco da vida de Brian, A Teoria de Tudo o faz parecer uma contradição fascinante – uma pena, de fato, que o filme se prive de retratar seus protagonistas dessa mesma forma.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, Inglaterra, 2014)
Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten, baseado no livro de Jane Hawking
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Harry Lloyd, David Thewlis, Charlie Cox, Emily Watson
123 minutos

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