12 de mar de 2015

The Americans 3x06/07: Born Again/Walter Taffet

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ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

3x06 – Born Again

Há algo de diabolicamente esperto no olhar de Frank Langella quando ele está interpretando Gabriel, seu personagem nessa terceira temporada de The Americans, e como estamos falando de um dos melhores atores americanos em atividade, é claro que isso não é nenhuma coincidência. Langella compõe de maneira muito sutil um personagem que se esconde por trás de imagens muito bem construídas de si e da confiança que ele transmite para os agentes de campo com os quais lida, e que quietamente manipula todas as marionetes por trás dos panos. “Born Again” é o episódio em que isso fica mais evidente para o espectador atento, com Gabriel dividindo cenas tanto com Elizabeth quanto com Phillip e usando da retórica e das informações que possui para encaminhar a situação familiar dos dois para o lado que a KGB espera que ela se encaminhe.

De certa forma, “Born Again” estende essa temática para todas as narrativas, seja ao mostrar como Stan é convencido pela garota que ele conheceu no seminário EST a se livrar do fantasma da ex-mulher, seja ao rebater esse desenvolvimento logo em seguida, quando a morte de um ex-parceiro do FBI faz o agente tentar uma reaproximação de Sandra. Ao mesmo tempo, a storyline de Nina se desenrola de maneira mais rápida do que estamos acostumados a ver em The Americans, com a soviética arrancando a verdade de sua companheira de cela e observando as consequências quando a mesma é retirada violentamente do cárcere. Nina recebe recompensas fartas pelo feito, e a série nos dá dicas sutis, embasadas pela atuação sempre no ponto de Annet Mahendru, de que a ex-agente-dupla passou por uma transformação profundamente enraizada em suas crenças – se Nina não era uma mulher intensamente cínica e fria antes, agora o é.

E esse processo de certa forma não espelha aquele que Elizabeth e Phillip passaram antes de chegar nos EUA, aquele mesmo que eles procuram desconstruir (ou não) para entender os limites da autenticidade de sua vida privada como casal e como pais? The Americans, é claro, faz colidirem esses dois conceitos, nos mostrando a formação de uma mente preparada para uma guerra como essa, que entende que a conexão interpessoal não pode passar de meios para um fim, e a fundamental falha nessa elaboração, que desconsidera a humanidade dos seus agentes. Conforme Elizabeth começa a se mover mais rápido com o “recrutamento” de Paige e Phillip encontra maneiras de fugir ao contato físico com Kimberly, a série trata de não desumanizar nenhuma das partes dessa história, desafiando o espectador a entender o porquê o conceito de montar uma encenação para se envolver com alguém é fundamentalmente equivocado.

Notinhas adicionais:

  • Há algo de despudor na maneira como “Born Again” filma o rosto e a linguagem corporal de Keri Russell, mesmo que isso não seja feito de forma muito óbvia, é claro. Isso ajuda o episódio a suavizar as atitudes à flor da pele da personagem no roteiro, e é uma das sacadas mais bacanas da ótima direção de Kevin Dowling.
  • Todos os guest stars fizeram trabalhos incríveis aqui: já é hora de elogiar Julia Garner por empresar certa inocência e, ao mesmo tempo, alguma complexidade à Kimberly; Callie Thorne (Rescue Me) também se destaca com o maior tempo de tela dado à sua Tori.

✰✰✰✰ (4/5)

THE AMERICANS -- "Walter Taffet" Episode 307 (Airs Wednesday, March 11, 10:00 PM e/p) Pictured: (L-R) Matthew Rhys as Philip Jennings, Alison Wright as Martha Hanson. CR: Patrick Harbron/FX

3x07 – Walter Taffet

Apesar de ser lindamente escrito, ou tanto quanto qualquer grande episódio de The Americans, “Walter Taffet” deve uma boa parte do que o faz brilhante à direção. E o nome creditado no comando aqui é o de ninguém menos que Noah Emmerich, o homem que há três anos vem trazendo sua interpretação minimalista e sensível do Angente Beeman para a série da FX. Em sua estreia na direção, o ator faz um trabalho de elegância e sensibilidade visual impressionantes, usando a intimidade com seus companheiros de elenco para criar um episódio que não é só tremendamente bem-guiado em termos de interpretação, mas também cheio de tomadas, cortes e composições geniais de cena. A sequência logo antes da abertura da série, por exemplo, é exemplar, enquadrando Elizabeth e Phillip em uma intensa discussão dentro do quarto do casal que inclui uma linda tomada do personagem de Matthew Rhys se movimentando inquieto pelo banheiro, visto pela porta aberta, e um take final devastador em que os Jennings são vistos do lado de fora da casa, a divisória da janela do quarto os separando tanto quanto as ideias de como lidar com Paige.

Em suma, “Walter Taffet” é o episódio mais espetacularmente dirigido dessa temporada, e esperamos sinceramente que Noah Emmerich vá para trás das câmeras com mais frequência no futuro – mas ajuda, é claro, que ele esteja no comando de um dos capítulos mais empolgantes, fascinantes e bem costurados desse terceiro ano. O roteiro assinado por Lara Shapiro (Meu Trabalho é um Parto) é exemplarmente contido, especialmente para segurar o tom de encenação de The Americans frente à imensidão de coisas que acontecem nesses 44 minutos de episódio. O destaque óbvio é a descoberta do grampo no escritório do chefe do FBI, plantado por Martha à mando de Phillip (quem lembra?) – a cena da descoberta do pequeno chip é uma pérola de tensão construída em torno de ações absolutamente banais, de uma forma que só essa série seria capaz de fazer. O desenvolvimento leva Martha a passar por maus bocados, o que só sublinha a atuação incrível de Alison Wright no papel e o paciente e trágico arco de personagem que The Americans está desenhando para ela.

Em outra vertente, também observamos Phillip e Elizabeth dar seguimento à missão de prender um agente do governo sul-africando trabalhando com um informante para descreditar os grupos estudantis que protestam a existência do Apartheid nos EUA. A operação toda foi trazida ao conhecimento dos Jennings através de um agente desenvolvido por Elizabeth, o jovem Hans (Peter Mark Kendall, de Girls), e a série trata de incutir na sub-trama dele o mesmo tipo de risco que impõe a todos os “amigos” do casal protagonista – The Americans trabalha tanto em entrelinhas que seria leviano afirmar que a série pretende se livrar de Hans tão cedo, mas as sementes estão plantadas. Essa história toda é entrelaçada com o aprofundamento da crise entre Elizabeth e Phillip, que encontraram a maior rachadura em seu relacionamento na forma de lidar com Paige e o desejo da KGB de tê-la como futura agente. O casal passa por momentos de compreensão e discórdia, e The Americans encontra nos diálogos mais sutis (o que ocorre dentro do carro entre os dois é especialmente sensível e significativo) a maneira de retratar esse momento. Como sempre, é nos detalhes que a série da FX encontra seu triunfo.

Notinhas adicionais:

  • “Walter Taffet” marca o melhor uso de perucas em The Americans em muito, muito tempo. Faz uns bons meses que não era tão legal ver as produções boladas pelos protagonistas – o destaque óbvio é o visual proto-Bon Jovi de Phillip na cena de ação climática do final, mas a franja loira de Elizabeth não fica atrás, e o visual jovem-Donald Trump de Phillip no encontro com Lisa é igualmente divertido.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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