2 de mai de 2015

Gotham 1x21: The Anvil or the Hammer

Gotham1

ATENÇÃO: esse review contem spoilers!

por Caio Coletti

Depois de algumas semanas nas quais, apesar da geral competência na hora de construir e lidar com os personagens e temas de seu cenário, Gotham havia deixado para trás o tom mais sombrio de algumas das desventuras urbanas que retratou no início da temporada, o arco envolvendo o assassino The Ogre, interpretado por Milo Ventimiglia, pareceu trazer de volta o espírito sujo e perturbador da produção da Fox. Em seus melhores momentos, Gotham é uma peça quase sórdida de narrativa, tirando um prazer estranho do ato de observar seus personagens serem corrompidos e chafurdarem em uma lama de corrupção, violência e psicopatia. Ao mesmo tempo, também em seus melhores momentos, a série dá um jeito de ser um conto de retidão moral exemplar, retratando seus vilões e mocinhos (sem aspas mesmo) da forma como eles são, pelos princípios que eles seguem. Há certa anarquia na forma como o caminho dessa moral não é imaculada, como se a sujeira da metrópole Gotham City fosse contagiosa, mas a prerrogativa fundamental da bondade ou maldade desses personagens continua aqui, como em qualquer boa HQ de super-heróis.

Vamos falar do próprio Ogre, para começar, e da atuação de Ventimiglia, um ator que muita gente ridiculariza até hoje pelo papel fraco que desempenhou na (afamada e mal-afamada) Heroes. Aqui, é notável a forma como o californiano encarnou a mitologia que a série construiu para seu Jason Lennon, calculando as expressões e a forma de se movimentar para a suave sedução, com o fundo perigoso (demais), que o personagem representa. Ventimiglia nunca realmente perde o controle em cena, refletindo o fato de que a psicopatia de Jason é muito mais fria e calculada do que desvairada como a de outros personagens notáveis do universo do Batman. Uma pena que o clímax de “The Anvil or the Hammer” elimine o personagem de Ventimiglia, que parece ter causado um desequilíbrio emocional transformador em Barbara – resta esperar os próximos episódios para ver o quanto Gotham está disposta a seguir esse caminho perturbador e sério de narrativa.

Por outro lado, o episódio também faz um bom trabalho ao seguir o script ditado pelo seu antecessor, “Under the Knife” (review) no sentido de emprestar ao futuro Charada, o Edward Nygma interpretado por Cory Michael Smith, uma storyline mais densa e sombras da personalidade extrema que ele vai representar no futuro. Não só o ator faz um trabalho formidável nas cenas em que o episódio lhe dá essa oportunidade, como o roteiro e a direção do sempre ótimo Paul Edwards (1x08, “The Mask” – review) fazem questão de fazer dessas cenas algumas das mais gráficas que Gotham já ousou mostrar. “The Anvil or the Hammer” é talvez o episódio mais gory e violento dessa primeira temporada da série da FOX, e não é que isso o empreste credibilidade automaticamente, mas como esse não é um prestige drama em uma emissora de TV fechada que aspira a uma braçada de Emmys no final do ano, a técnica nada sutil funciona muito bem – e o resultado é mais uma hora de televisão que retrata com contundência a forma como a violência é retroalimentada pela corrupção em Gotham City, e como é difícil mesmo para os mais nobres entre os cidadãos da metrópole quebrar esse ciclo vicioso.

Nessa engrenagem maligna podem incluir as empresas Wayne, que começam a ser desmascaradas pelo jovem Bruce quando o executivo que contratou Reggie para espionar a mansão Wayne confidencia ao personagem de David Mazouz que tanto o pai do garoto quanto o avô (e, presumivelmente, todos os CEOs da Wayne antes deles) sabiam dos negócios ilegais da empresa, e escolhiam fazer vista grossa. Ao mesmo tempo, as maquinações do Pinguim durante toda a temporada chegam ao seu ápice quando ele, sozinho, começa uma guerra de gangues descarada entre Maroni e Falcone. O personagem astuto de Robin Lord Taylor é sempre uma figura pivotal em Gotham, e não é a toa: ele é também a pessoa para se seguir quando se quer entender o destino e o funcionamento da metrópole em que a série se passa. Sempre intimamente conectada com seu cenário, a trama da FOX encosta no final da sua temporada mais coerente e interessante do que nunca.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

GOTHAM: Bruce (David Mazouz) looks deeper into his father’s past in the “All Happy Families Are Alike” episode of GOTHAM airing Monday, May 4 (8:00-9:00 PM ET/PT) on FOX. ©2015 Fox Broadcasting Co. Cr: Jessica Miglio/FOX

Próximo Gotham: 1x22 – All Happy Families Are Alike (04/05)

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