6 de jun de 2015

5 álbuns que fazem dez anos em 2015 (e merecem ser lembrados)



Estamos há 15 anos no terceiro milênio, e em plena segunda década dos anos 2000, ainda tem gente que acha que não se produz nada de qualidade, artisticamente como um todo, hoje em dia. Ou, talvez mais certeiramente, nada que “sobreviva ao tempo” como algumas relíquias culturais de décadas atrás sobreviveram. Os cinco álbuns listados abaixo completam uma década de lançamento esse ano. E, além de sua influência ser sentida até hoje no mundo da música (o que prova sua importância histórica), eles continuam sendo peças brilhantes por si mesmos. Pièces de resistance, por assim dizer.

Arular 
Lançamento: 22 de Março de 2005
Gravadora: XL/Interscope
Produção: Paul Byrne, Cavemen, Diplo, KW Griff, Richard X, Switch, Anthony Whiting, Wizard
Duração: 38m06s

por Caio Coletti

A quantidade de contradição sobre a qual o mundo contemporâneo está erguido só se tornou mais absurda desde o lançamento de Arular, disco de estreia de M.I.A. Em termos musicais e artísticos no geral, no entanto, poucas obras representam tão bem o que pode transpirar dessas contradições do que o álbum batizado em homenagem ao pseudônimo político do pai da cantora, parte de um grupo revolucionário do Sri Lanka, de onde M.I.A. e a família fugiram em meio a um violento conflito. Naturalizada na Inglaterra, M.I.A. se tornou uma verdadeira esponja de influências e significações – formada em uma prestigiada faculdade de artes britânica e influenciada tão fortemente pelo hip-hop quanto pelos ritmos jamaicanos, brasileiros e cosmopolitas que aparecem no álbum, a documentarista-transformada-em-cantora criou um álbum desafiadoramente pluralista, que expandiu as barreiras do gênero que os americanos chamam de world music.

Na afamada “Bucky Done Gun” (abaixo), o produtor Diplo inseriu ritmos e dicas que vieram direto do funk carioca (inclusive admitindo a inspiração da música "Injeção", de Deize Tigrona). O estilo dancehall jamaicano, que assombrou a música americana por muito tempo no começo da década passada, inclusive trazendo Rihanna da ilha de Barbados para os EUA, inspira boa parte do álbum. Batidas realizadas a partir de sons de objetos como celulares, canetas e brinquedos comprados pela cantora na Índia formam a surpreendentemente empolgante "Hombre". Composto quase todo por M.I.A., incialmente em um instrumento que junta bateria eletrônica e sintetizador, Arular é, musicalmente, um exercício de pop dançante filtrado por uma sensibilidade corajosamente independente. Ousado, mas também absolutamente grudento. Firmado no sentimento do it yourself que inspirou o punk britânico, mas também obsessivamente lapidado e compilado por profissionais de estúdio e pela própria M.I.A., claramente uma perfeccionista.

Tematicamente, o álbum esconde temas políticos fortes e polêmicos ("Sunshowers" não era exibida na MTV americana sem um aviso que isentava a emissora da mensagem expressada na letra) e mistura a sensibilidade metropolitana da M.I.A. que experimentou tanta pobreza quanto riqueza na Inglaterra, e conheceu as atribulações políticas do mundo no Sri Lanka. Saudada por muitos, na época do lançamento do álbum, por trazer essa consciência política de volta à música pop, M.I.A. criou um álbum que não tem medo de parecer descartável, usar símbolos superficiais relacionados a uma cultura que por décadas foi considerada “marginal” à expressão artística humana. De fato, a missão da cantora-compositora-produtora, nesse sentido, parece ser resgatar esses símbolos considerados menores e imbui-los de uma mensagem e um propósito social e cultural que os torne atemporais. Tanto conseguiu que cá estamos, em pleno 2015, reafirmando que Arular é um dos discos pop mais inteligentes do nosso século.


Demon Days 
Lançamento: 11 de Maio de 2005
Gravadora: Parlophone
Produção: Gorillaz, Danger Mouse, Jason Cox, James Dring
Duração: 50m40s

por Caio Coletti

“Demon Days”, a faixa-título do segundo álbum de estúdio do Gorillaz, é o melhor exemplo da mistura absurda de gêneros que é a fundação do projeto paralelo de Damon Albarn (Blur). Em pouco mais de 4 minutos, a faixa passeia por sintetizadores distorcidos, desagua em uma melodia pop cantada pelo coral gospel de Londres e encobre tudo com uma batida e um riff de guitarra diretamente advindos da reggae music. De forma absolutamente corajosa, “Demon Days” é ainda a canção de encerramento do álbum, deixando que a obra da banda de desenho animado mais famosa de todos os tempo termine com uma nota completamente diferente daquela que deu o tom do álbum (seja tematicamente ou musicalmente). Com seu clima ensolarado, “Demon Days” é o exato oposto do disco de “pop sombrio” (nas palavras de Albarn) que o Gorillaz fez em parceria com o sempre fabuloso produtor Danger Mouse, o homem responsável pelas batidas do Gnarls Barkley e do álbum Little Broken Hearts de Norah Jones. O Gorillaz sempre foi, em sua essência, o projeto no qual Albarn pode descarregar sua excentricidade musical, mas Demon Days arquiva um nível de discurso musical que o frontman do Blur ainda não superou, mesmo 10 anos depois.

A primeira parte do disco pulsa com uma urgência inédita na música do Gorillaz - "Last Living Souls", "Kids With Guns" e "O Green World" se apóiam na guitarra e no baixo para nos inserir no mundo quase pós-apocalíptico do qual a banda nos traz mensagens pessimistas. Os vocais de Albarn são o destaque nessas primeiras faixas, dando vida às letras feitas sob medida para evocar imagens de desolação e abandono, como se o Gorillaz nos trouxesse avisos de um futuro em que a Terra não passa de um enorme deserto e as antigas realizações da nossa civilização sejam apenas ruínas esquecidas. O produtor Danger Mouse enche esse espaço vazio com sutilezas musicais, pacotes de cordas inesperados e intervenções de backing vocals e sintetizadores, mas a mensagem continua ali. Assim como continua, aliás, o cerne hip-hop do Gorillaz, que aparece mais a partir do lead single, “Feel Good Inc.” (abaixo) e ainda cria a pérola "DARE", comandada pelo rapper Shaun Ryder.

Assim que o primeiro terço do álbum nos climatizou com o mundo que o Gorillaz representa, Albarn e Danger Mouse se sentem mais a vontade para brincar com ritmos e instrumentações. Alguns dos melhores resultados são a grudenta "Dirty Harry", apoiada por um coral de crianças que se junta ao vocalista Albarn (ou devemos nos referir a ele como 2D?) e a excentricamente tropical "El Mañana". Em "Every Planet We Reach is Dead", os teclados de Ike Turner emprestam uma modulação soul ao som do grupo que casa surpreendentemente bem com o tom melancólico do disco. Demon Days é um álbum conceitual que não precisa ser narrativo para levar o ouvinte em uma viagem por outro mundo (ainda que seja um assustadoramente parecido com o nosso) – até a faixa falada "Fire Coming Out of the Monkey's Head" é críptica e cheia de metáforas. Como bem colocou o crítico do Pop Matters na época, o arco de Demon Days não é narrativo, e sim musical.


Oh No 
Lançamento: 30 de Agosto de 2005
Gravadora: Capitol
Produção: Tore Johansson
Duração: 41m40s

por Caio Coletti

No post de 5 álbuns que fazem dez anos de 2014, um dos nossos destaques foi o álbum de estreia do Franz Ferdinand, uma das bandas de rock mais importantes da nossa era e os definidores iniciais de uma estética muito particular que é comum, hoje, em grupos como o Two Door Cinema Club e o Passion Pit. Oh No é o álbum que colocou os americanos do OK Go no mapa, depois do sucesso estrondoso de "A Million Ways" nos EUA e de "Here it Goes Again" (abaixo) no resto do mundo. Com a ajuda do super-produtor sueco Tore Johansson, que trabalhou com o próprio Franz Ferdinand, entre muitos outros artistas, o quarteto de Chicago produziu um dos discos de rock mais divertidos, dançantes e únicos das últimas décadas. Os dois singles citados são exemplos perfeitos da dicotomia que o Oh No carrega: a começar pelo mais famoso, que ganhou vídeo no qual os integrantes se arriscam numa complexa coreografia em cima de esteiras – “Here it Goes Again” é uma empolgante gema pop-rock, com um refrão grudentíssimo e repetitivo que, graças ao arranjo genioso do produtor Johansson, nunca fica cansativo.

Cheio de backing vocals e versos gritados, a canção mais famosa da banda rima com várias outras do disco que seguem a mesma fórmula (com graus variados de sucesso): "Television, Television" é ótima, mas "Crash the Party" talvez seja a mais bacana, discursando sobre um relacionamento que dispensa “suavidade, cortesia, cavalheirismo e charme” para trocá-los por uma bela noitada a dois. Em certo ponto da música, o vocalista e compositor Damian Kulash confessa: “Eu não sou muito bom com sutilezas”. E de fato é a abordagem refrescantemente direta e honesta do OK Go diante de melodias e ganchos pop em meio a uma elaboração instrumental claramente rock que os torna únicos: ao contrário do esteticamente sofisticado Franz Ferdinand, os meninos de Chicago usam os mesmos elementos para fazer música de uma forma mais intensa e clara.

Em “A Million Ways” e algumas outras faixas, no entanto, emerge um OK Go capaz de tratar as melodias com mais gentileza, e um Damian Kulash de voz mais suave. São canções meio-amargas e machucadas que a banda trabalha para expressar musicalmente sem sair da zona de conforto do álbum – as duas canções finais ("Maybe This Time" e "The House Wins") estão entre os momentos mais brilhantes do álbum, e mostram sombras da banda ainda mais inteligente que o OK Go se tornaria nos anos seguintes. Colando vários elementos da estética de bandas que surgiram no rastro do Franz Ferdinand, o OK Go usa esse território entre o pop e o rock para experimentar com instrumentais, composição e uma temática simples de relacionamentos e decepções. Os moços de Chicago não só fizeram história com a videografia, portanto, como contribuíram muito para o que chamamos de pop rock contemporâneo.


A Fever You Can’t Sweat Out
Lançamento: 27 de Setembro de 2005
Gravadora: Decaydance/Fueled By Ramen
Produção: Matt Squire, Panic! At the Disco
Duração: 40m15s

por Henrique Fernandes

Numa época em que o emo estava no auge e que os adolescentes glorificavam My Chemical Romance, Fall Out Boy e Simple Plan, o Panic! At The Disco apareceu pra colocar um pouco de circo e teatralidade no cenário musical. A Fever You Can't Sweat Out é aquele tipo de debut que faz as pessoas duvidarem se a banda conseguirá lançar álbuns que o superem (no caso do Panic descobrimos que a banda se reinventa totalmente a cada disco e nem é possível fazer comparações). Foi um grande sucesso de crítica e público por muitas razões. Dividido em duas partes, o CD apresenta rock, pop, eletro, pianos e cordas num conjunto muito competente. Munidos de excelentes composições do guitarrista Ryan Ross, que trazem referências a livros de Chuck Palahniuk e filmes como Closer, além da potência vocal do vocalista Brendon Urie, o Panic! At The Disco conseguiu criar, junto com os outros integrantes, uma sonoridade única. Junto disso, a banda trouxe um visual Vaudeville para os clipes, shows e performances, tornando-se uma de suas marcas registradas naquela época.

A primeira parte do CD te leva para um futuro nostálgico com grandes músicas como "The Only Difference Between Martyrdom And Suicide Is Press Coverage" e "Time To Dance", que carregam grandes melodias pop rock com inteligentes intervenções eletrônicas que obrigam os ouvintes a dançar. No meio do CD, Brendon Urie declara que é impossível para eles continuarem com a música eletrônica e se desculpa com uma interlude de piano, dando início a segunda parte do CD e uma volta ao tempo onde os cabarés, o circo e o sexo eram os protagonistas. A sonoridade aqui mistura pianos, guitarras, acordeão e muitas cordas. Dessa parte do CD saiu "I Write Sins Not Tragedies" (abaixo), o maior sucesso da banda. O clipe, que conta uma história de amor carregada de ironia e com ares circenses de plano de fundo, ganhou o prêmio de melhor clipe do ano no VMA.

Quando a maioria das bandas de rock que os jovens ouviam estavam preocupados em usar preto, escrever músicas tristes e provocar o choro adolescente, o Panic! At The Disco apareceu para colocar o povo para dançar com suas músicas animadas, suas letras provocativas e sexys e um visual diferente. A Fever You Can't Sweat Out é um CD curto, coeso e completo. Devido a sua originalidade, se tornou um disco atemporal que deu ao Panic uma boa reputação. Os garotos de Las Vegas, naquela época todos na faixa dos 18 anos, fizeram muitos deixarem de chorar para dançar num cabaré moderno.


Confessions on a Dance Floor 
Lançamento: 11 de Novembro de 2005
Gravadora: Warner Bros
Produção: Madonna, Stuart Price, Mirwais Ahmadzai, Bloodshy and Avant
Duração: 56m34s

por Caio Coletti

Já fazem 10 anos, e ninguém ainda compôs um álbum pop melhor que o Confessions on a Dance Floor. Curiosamente, o disco é também o 10º na discografia de Madonna, e o último da sua carreira (outros três vieram depois dele) a receber críticas realmente entusiasmadas com o resultado conseguido pela rainha do pop. A parceria com o produtor Stuart Price (conhecido pelo trabalho com o The Killers e com o Pet Shop Boys) faz muita diferença nesse sentido, canalizando a energia compositiva que Madonna ainda tinha uma década atrás para um álbum que é paradoxalmente contemporâneo e retrô, como qualquer grande obra pop. A influência e a reputação do Confessions o precedem, sendo apontado por muitos como o álbum que trouxe o revival setentista e oitentista para a música pop eletrônica do século XXI, que arrancou essa influência do underground e o trouxe para o amebiente mainstream. Madonna sempre foi uma artista capaz de detectar as ondas sonoras do mundo alternativo e trazê-las para a música comercial, mas há algo de ainda mais subversivo e saboroso no Confessions, um álbum pop feito para ser ouvido de ponta-a-ponta numa época em que o processamento de música é muito imediato, e muito preso ao formato do single.

É impossível diminuir o Confessions a uma seleção de hits, seja porque o produtor Price o faz um todo coeso, seja por causa da decisão de intercalar as faixas como se não houvesse “pausa” entre elas, como um set de DJ. “Hung Up” (abaixo), "Sorry" e "Jump" foram os destaques na época, mas até essas faixas inexistem sem o contexto maior do disco, que mistura as referências oitentistas com um verniz de tecno moderno, fazendo do Confessions a trilha-sonora perfeita (e atemporal) para uma noite iluminada pelas luzes da pista de dança. Isso não significa que o disco não tenha peso lírico – conforme as faixas progridem, as letras se tornam mais substanciais, com o tema confessional guiando discussões sobre religião ("Isaac" é insuperável) e um instrumental mais guiado pelo violão dando a deixa para a última faixa, "Like it Or Not", ser a faixa mais fierce de uma artista que já mostrou tremenda resiliência nesses 30 anos de carreira.

Em um mundo pop em que tudo é essencialmente descartável (o que não significa que tudo seja essencialmente ruim), é a marca de um artista que realmente entende o meio em que está se metendo a criação de uma obra capaz de resistir ao tempo. Confessions on a Dance Floor não é só um disco que merece ser celebrado pelo que trouxe de definidor para aquilo que veio depois dele, mas um disco que merece ser celebrado simplesmente pelo que é. Lindamente composto, melodicamente espetacular, com o melhor trabalho de um dos melhores produtores do nosso século, o 10º álbum de Madonna sobrevive como a prova que, para falar dela, não basta dizer que “um dia ela já for relevante”. Com obras como Confessions, a ítalo-americana arquiva aquilo que qualquer artista, pop ou não, almeja: a imortalidade.

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