14 de jun de 2015

Review: Com “Ex Machina”, a ficção científica finalmente entende a matéria-prima da humanidade



por Caio Coletti

Em certo momento de Ex Machina, ficção científica comandada por Alex Garland (Sunshine, Extermínio, Dredd), os dois protagonistas masculinos dialogam em frente a um quadro do pintor americano Jackson Pollock, conhecido pelas obras abstratas e geralmente feitas em telas gigantescas, nas quais deixava respingar tinta da forma que sua mente sentisse ser a certa no momento. Durante o diálogo, Nathan (Oscar Isaac) descreve o processo de Pollock como “arte automática”, e pergunta ao colega Caleb (Domhnall Gleeson) o que teria acontecido se Pollock tivesse decidido o contrário, ou seja: que não pintaria nada que não fosse provido de intenção. O jovem programador não hesita: “Ele não teria feito uma marca sequer na tela”. Ex Machina, em muitos sentidos, é um filme sobre intenção – sobre premeditação e sobre a construção de uma narrativa emocional que, na cabeça de cada personagem, envolve a relação com aqueles ao seu redor e os motivos que existem por trás delas. Garland não escreveu um filme otimista sobre a natureza humana, como é costume de seus colegas de ficção científica, mas talvez, ao não fazê-lo, tenha escrito o retrato mais claro dela que já tivemos no gênero.

Conhecemos Caleb como apenas mais um programador da Blue Book, empresa gigantesca comandada por Nathan cujo principal produto é o serviço de busca online mais acessado do mundo (o Google da realidade do filme, digamos assim). Ele é inesperadamente convocado para o retiro recluso do seu patrão, um bunker ultramoderno isolado do mundo e cheio de medidas de segurança que só fazem deixar o moço mais tenso, e conhece Ava (Alicia Vikander), uma inteligência artificial moldada na forma de mulher que Nathan criou e quer que Caleb teste. A ideia principal é que nas interações com Caleb a androide mostre não apenas domínio perfeito da linguagem e da simulação do que é ser humano, muito menos consciência de si própria, mas intenção (ela de novo) na construção de um relacionamento específico com o programador. Muito cedo no filme, Caleb contesta se Nathan programou Ava para flertar com ele, e a questão de repente se torna mais complexa: Ava está fingindo gostar do personagem de Gleeson para arquivar algum objetivo (o que a faria um ser dotado de intenção, sem dúvida), está de fato apaixonada por ele, ou foi criada para fazer isso?


O roteiro de Garland deixa o espectador no suspense até o final, mas nem por isso se torna maçante no miolo. Há uma multidão de coisas acontecendo e sendo discutidas no limitado cenário do filme, seja na relação antagônica mal-disfarçada entre Nathan e Caleb, na ironia de que Garland usa para retratar esses dois homens quebrados de maneiras diferentes, no cuidadoso estudo da relação entre masculino e feminino na estrutura social (dentro e fora do bunker de Nathan), na discussão da possibilidade e da significância de uma inteligência artificial para a história da humanidade. Ex Machina, como todo grande filme, é uma história cheia de significados que se desenrolam com elegância pelo roteiro de Garland, mas é firmemente no retrato da intenção de cada personagem que ele se coloca. E há algo de puro, algo de bonito, algo de egoísta e algo de feio em todos eles – com a ajuda de um elenco pequeno, mas brutalmente eficiente, o resultado é uma fábula com pulso dramático retumbante.

Isaac e Vikander estão especialmente excepcionais, apesar de Gleeson segurar a estrutura do filme nas costas com a facilidade de quem nasceu para ser astro. Talvez justamente por isso ele dê mais espaço para os outros dois brilharem, especialmente a sueca Vikander em um papel tão intrigante que fica difícil não se pendurar em cada palavra e expressão da moça. Ela não decepciona os espectadores ávidos, abraçando o espírito do filme e criando uma interpretação que passeia confortavelmente na linha da ambiguidade, usando o rosto e a linguagem corporal (sim) de maneira espetacular para transmitir emoções e, ao mesmo tempo, nos deixar buscando pelo significado de cada uma delas nas entrelinhas. Sua Ava é simulação e intenção ao mesmo tempo, e dado o desenvolvimento final da trama, não há nada mais adequado do que isso. Isaac, por outro lado, consolida seu nome como um dos mais interessantes jovens astros de Hollywood na composição de um Nathan intenso, que conscientemente desafia os estereótipos do nerd mas eventualmente sucumbe a vícios e desejos terrivelmente humanos. Não é um personagem simpático, e Isaac não o interpreta assim, mas lhe injeta uma dimensão emocional grandiosa, exagerada, para que o espectador entenda suas ações – funciona, e muito.

O que esses dois atores entendem em meio ao mundo lindamente filmado de Ex Machina é que esse é um film noir disfarçado de ficção científica, completo com sua própria femme fatale, envolvida com um protagonista supostamente abusivo e enlaçada pelo salvador em seu cavalo branco. Ou quase isso, porque Ex Machina é também uma subversão de ambos os gêneros (noir e sci-fi), nos presenteando enfim com um filme capaz de mostrar o lado mais manipulador e patético da natureza humana sem perder de vista o fato de que a artificialidade, por toda a sua ostentosa beleza fria de aço e circuitos eletrônicos, não é nem um pouco mais bonita, no final das contas.

✰✰✰✰✰ (5/5)












Ex Machina (Inglaterra, 2015)
Direção e roteiro: Alex Garland
Elenco: Doomhnall Gleeson, Oscar Isaac, Alicia Vikander
108 minutos

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