19 de jun de 2015

Review: “Jurassic World” não reinventa a roda, mas tem o bastante para divertir

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por Caio Coletti

No ano passado, mesmo com todas as latentes falhas no roteiro de seu Godzilla, o diretor Gareth Edwards fez jus ao seu status de cineasta surgido do cinema independente e distorceu o mito de um dos maiores símbolos da indústria do entretenimento (no Japão e nos EUA) em um filme que se importava com construção de personagem e suspense, preferindo sugerir ameaça, atiçar o espectador quanto a dimensão do seu monstro, do que mostrá-lo. Jurassic World chegou aos cinemas no último dia 11 com a assinatura de outro diretor vindo do cenário indie (Colin Trevorrow, cujo único filme anterior foi a ficção científica lo-fi Sem Segurança Nenhuma) e um fardo pesado de expectativas. Jurassic World, no entanto, não é nenhum Godzilla – no final das contas, é mais fácil para Hollywood mexer em um ícone que não é essencialmente seu do que subverter as expectativas em uma série de filmes criada pelo grande cineasta de blockbusters da história da indústria, que repetiu a fórmula em duas continuações e continuou atraindo um público considerável.

O roteiro confeccionado à oito mãos por Rick Jaffa e Amanda Silver (Planeta dos Macacos: A Origem) em parceria com Trevorrow e Derek Connolly, que também escreveram Sem Segurança Nenhuma, ganha alguns pontos por estar plenamente consciente de que não está reinventando a roda. Pelo contrário, muito de Jurassic World é uma tremendamente reverente homenagem ao cânone do blockbuster hollywoodiano, seja nas insistentes referências que faz ao filme original ou nos seus elementos emocionais mais eficientes,  que residem na relação entre os irmãos interpretados por Ty Simpkins (Homem de Ferro 3) e Nick Robinson (Melissa & Joey). O filme confia muito na eficácia de determinados clichês estabelecidos pela indústria, e em grande parte pelo próprio Spielberg, e o resultado nesses momentos é, obviamente, tão misto quanto a legitimidade dos clichês em si.

Enquanto os diálogos entre os irmãos funcionam, por exemplo, a relação entre a personagem de Bryce Dallas Howard e o de Chris Pratt afunda tanto na caracterização dele, um machão sabe-tudo de quem é praticamente impossível gostar (não que Pratt não tente!), quanto no desprezo mal-disfarçado que nutre pela moça, uma mulher de carreira resoluta que é constantemente deslegitimada pelo roteiro por “querer estar no controle” – o filme só se salva dessa atitude misógina lá no final, quando são dadas algumas atitudes heroicas para a personagem de Howard, e a atriz sem dúvida faz o seu melhor para humanizá-la além dos limites e piadas de mau-gosto que o roteiro dispensa à figura dela. Para além dessa construção de personagens, Jurassic World repete muitas das mensagens e metáforas dos três filmes que o antecederam, tocando no assunto da presunção de controle que o homem sente sobre a natureza e criando mais algumas figuras que, conforme o filme passa, são obrigadas a encarar que trazer dinossauros de volta da extinção significa criar vida, não apenas atrações para um parque temático (ou armas, aliás) – e vida não se permite estar sob o controle de ninguém.

O melhor parte do filme é que o diretor Trevorrow empresta da cartilha de Spielberg também a forma de dirigir as cenas de ação, uma mais impressionante do que a outra. Jurassic World faz cara feia para as aventuras de hoje em dia que se apoiam no caos visual (câmeras trepidantes, borrões de violência), preferindo usar o som para sugerir aquilo que a exigência etária não deixa mostrar e estabelecer para o espectador com exatidão cada desenvolvimento das sequências. Em nenhum momento, em Jurassic World, aquela sensação desesperadora de não saber exatamente o que está acontecendo toma conta do espectador – pelo contrário, o suspense e a angústia vem dessa precisão, dessa vontade de nos mostrar exatamente onde estamos, e em que cantos da câmera estão as ameaças. Há muito tempo um blockbuster não usa a limitação da visão cinematográfica para causar suspense e adrenalina como Jurassic World. Uma pena que essa realização esteja à serviço de um roteiro tão pouco imaginativo.

✰✰✰ (3/5)

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Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, EUA/China, 2015)
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Rick Jaffa, Amanda Silver, Colin Trevorrow, Derek Connolly
Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Irrfan Khan, Nick Robinson, Jake Johnson, Omar Sy, BD Wong, Judy Greer, Katie McGrath, Jimmy Fallon
124 minutos

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