22 de jul de 2015

Review: “Bates Motel” encontra sua zona de conforto no terceiro ano no ar

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por Caio Coletti

Bates Motel não sabia o que estava fazendo quando a primeira temporada estreou, lá em 2013. A série que vimos nos primeiros 10 episódios exibidos pela A&E não era um tomo sobre a lenta descendência de um garoto “comum” para o monstruoso Norman Bates que conhecemos de Psicose, clássico de 1960 de Alfred Hitchcock. Ao invés disso, era a mistura bizarra de elementos narrativos que incluíam a investigação sobre uma rede de prostituição; a relação nada saudável entre Norman e a mãe, Norma; e um suspensezinho de high school que passava longe de convencer. Era Carrie a Estranha com subtons psicossexuais, mas não era uma prequel de Psicose. A série consertou um pouco o seu rumo na segunda temporada, largamente ao descartar o lado escolar da trama e focar no que a produção tinha de melhor: as atuações de Vera Farmiga e Freddie Highmore. Com esse foco, o segundo ano contou uma história mais centrada e consciente do vespeiro em que estava mexendo – mas é só na terceira tentativa, nos 10 episódios exibidos no comecinho desse ano, que Bates Motel consegue se sentir completamente confortável consigo mesma.

Renovada para mais dois anos de vida no A&E, a série encontra nesse terceiro ano seu cerne temático, a matéria mais importante da qual pretende tratar. Mantendo a filosofia cruelmente determinista e freudiana do filme original (e de grande parte da obra de Hitchcock, inclusive), Bates Motel é uma história sobre as origens da maldade e da violência. O mundo desenhado pelos developers Carlton Cuse, Anthony Cipriano e, especialmente, pela muito presente Kerry Ehrin, é um mundo no qual as relações familiares nos moldam de forma irreparável – os roteiristas traçam um paralelo importante entre o instinto super-protetor, controlador e sufocante de Norma em relação ao filho e a própria infância trágica da personagem de Vera Farmiga. Seja na relação dela com o irmão (Kenny Johnson, simultaneamente histriônico e eficiente), com quem possui um histórico complicado ou na forma como os outros personagens gravitam ao seu redor, atraídos pela sua particular mistura de força e fragilidade, Norma é uma figura trágica.

Um dos melhores momentos de Farmiga na temporada é silencioso: sentada na mesa de jantar de sua casa, Norma ouve dos dois filhos que o irmão está de volta à cidade, e que ambos acham que ela deveria retomar contato com ele e “deixar o passado para trás”, ou ao menos permitir que ele lhe peça perdão pelo abuso que perpetrou a ela na adolescência. Bates Motel nem sempre lida com a questão do empoderamento feminino tão bem, especialmente quando se perde em meio às complicações da personalidade de Norma, mas há algo de tão básico no ultraje e na decepção que ela sente ao ouvir essa proposta dos filhos que é completamente compreensível e, nas mãos de Farmiga, um momento tremendamente emocional. Celebrada desde o início da série por sua performance, a impressão que fica é que a atriz lentamente puxou Bates Motel para o território em que ela estava trabalhando, mostrando praticamente sozinha para os escritores o que funcionava em relação a história que eles deveriam contar, e sobre o quê ela deveria discursar. Isso não é tão raro na TV (Michael Emerson fez quase a mesma coisa na segunda metade de Lost), mas é sempre um atestado quanto ao talento do ator.

Por outro lado, a série pouco funcionaria se o retrato de Norman Bates não fosse tão acertado. De forma semelhante à qual Mad Mikkelsen construiu um Hannibal Lecter sutilmente diferente (e igualmente marcante) para si em Hannibal, Freddie Highmore pega as dicas do roteiro e da atuação de Anthony Perkins no filme original para acertar o tom da série em que está inserido e compor um Norman absolutamente particular. Nas mãos do ex-ator mirim, Norman é um assassino dotado de consciência (pelo menos por enquanto), um jovem que luta contra seus impulsos psicológicos numa versão hiperbólica do processo pelo qual todos nós passamos na adolescência. A descoberta da sexualidade para Norman dialoga com a relação sufocante que leva com a mãe, e em muitos momentos Highmore acerta ao agir, especialmente quando os dois estão em cena juntos, quase como uma extensão da atuação de Farmiga como Norma. Há algo de complementar na dupla principal de Bates Motel, e é isso que essencialmente faz a série funcionar – mesmo que a “trama criminal” da temporada ainda seja basicamente uma colcha de retalhos costurada para se integrar à narrativa maior da série.

A terceira temporada de Bates Motel, enfim, não passa incólume pelos 10 episódios, mas encontra um centro muito claro e a zona de conforto na qual pode brincar com os personagens e atuações (além de Farmiga e Highmore, os coadjuvantes Max Thierot, Olivia Cooke e Nestor Carbonell entregam interpretações extremamente valiosas para o todo da série) à vontade sem perder o controle da história que quer contar. Cada vez mais próxima do material que a inspirou, a série do A&E promete pelo menos mais duas temporadas da mistura muito particular de gêneros e mensagens que ela se tornou – mesmo no cenário televisivo inundado de boas produções, essa é uma que vale a pena conferir.

✰✰✰✰ (4/5)

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Bates Motel – 3ª temporada (EUA, 2015)
Direção: Tucker Gates, Tim Southam, Christopher Nelson, Nestor Carbonell, Phil Abraham, Ed Bianchi, Roxann Dawson
Roteiro: Carlton Cuse, Kerry Ehrin, Steve Kornacki, Alysson Evans, Erica Lipez, Scott Kosar, Philip Buiser, Bill Balas, Torrey Speer
Elenco: Freddie Highmore, Vera Farmiga, Max Thierot, Olivia Cooke, Kenny Johnson, Nestor Carbonell, Nicola Peltz, Kevin Rahm, Andrew Howard, Anina Noni Rose, Ryan Hurst, Joshua Leonard, Keenan Tracey
10 episódios

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