6 de jul de 2015

Review: “House of Cards” segue um caminho inesperado na terceira temporada

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por Caio Coletti

Em um dos subplots da terceira temporada de House of Cards (e nada disso é um grande spoiler, fiquem tranquilos), nosso protagonista e agora presidente Frank Underwood contrata um escritor para assinar um livro sobre o programa governamental mais polêmico do seu curto mandato substituindo o deposto Presidente Walker. Durante o tempo que passa em companhia de Frank para escrever seu tomo, no entanto, o tal escritor (interpretado por Paul Sparks, que os fãs de Boardwalk Empire vão reconhecer) passa por muitas “fases” criativas, e o livro que era para ser sobre uma ideia grandiosa para o país passa a ser sobre o homem que teve essa ideia e, finalmente, sobre o casal (Frank e Claire) que ocupa a Casa Branca. A impressão que fica é que, com a subtrama estrelada pelo personagem de Sparks, House of Cards quer nos mostrar que a série passou exatamente por esse mesmo processo – de uma trama exclusivamente preocupada com o que queria dizer, House of Cards se tornou um pungente drama de relacionamento entrelaçado com mensagens e manobras políticas, exemplarmente comprometido em desvendar quem está dizendo. E ficou muito melhor pelo caminho.

A verdade é que esse terceiro ano é também o momento em que House of Cards mais se aproxima do que aprendemos a convencionar como a linguagem televisiva. Isso porque é redundância dizer, hoje em dia, que uma série tem “tom cinematográfico” –  a diferença entre as duas mídias está muito mais no modelo narrativo do que nos valores de produção, e a terceira temporada de House of Cards é decisivamente uma narrativa de TV. Essa é a primeira vez que cada um dos episódios, mesmo inseridos em uma trama serializada, arquiva um “feeling” diferente, como se formassem juntos um quebra-cabeças que não tira a autonomia de cada uma das peças. Nas duas temporada anteriores, House of Cards trabalhou com um modelo que, de certa forma, é muito mais complicado de se escrever, desenhando uma única linha narrativa exponencial que caminhava junto com a temporada. A diferença, basicamente, é que, nos anos anteriores, a série de Beau Willimon era um longo (e ótimo) filme de 13 horas, e dessa vez entregou uma tremenda temporada de televisão.

Nessa crônica do tempo de presidência de Frank, os escritores ganham mais autonomia para explorar o personagem e sua relação com a esposa sem o tom estoico e misterioso que enevoou o relacionamento dos dois nas temporadas anteriores. Sob pressão inédita como comandante-em-chefe do país e passando por um momento decisivo no seu casamento, no qual as ambições e promessas que fez para a esposa na caminhada em direção ao poder precisam ser cumpridas, o protagonista quase perde a aura daquele monstro quase caricato que vimos nos outros anos. “Quase” porque Kevin Spacey não deixa o personagem escapar de suas mãos, revelando-o para o espectador em toda a sua qualidade patética de humano de formas sutis, e desvendando com essa interpretação de onde vem o bravado e a verve cruel e autoritária que Frank demonstra nos momentos de raiva. É um retrato muito humano e tremendamente sensível do estado de espírito vulnerável e inseguro do qual vêm todos os atos tirânicos de quem se embebeda de poder – e Frank é definitivamente esse tipo de pessoa.

Talvez por isso que a atuação de Robin Wright brilhe tão mais aqui do que nos anos anteriores, também. Sua Claire é muito semelhante ao marido nesse sentimento que domina a psique de Frank no Salão Oval – uma mulher faminta por reconhecimento cujo estômago revira (literalmente) ao menor sinal de que sua posição em um relacionamento está sendo diminuída pelo poder que o outro detém nas mãos, seja como presidente ou como homem em uma sociedade patriarcal. Existe um compasso moral na personagem, no entanto, mesmo que ele só funcione quando as consequências humanas dos seus atos políticos apareçam claras como o dia na sua frente. É o que acontece no excepcional sexto capítulo da temporada, quando Claire e Frank vão à Rússia visitar um ativista americano dos direitos homossexuais que foi preso pelo presidente e negociar sua soltura. O diálogo entre Wright e o prisioneiro, interpretado por Christian Camargo (Dexter), e as consequências finais da negociação confrontam a primeira-dama com os limites de sua consciência e deixam ver uma rachadura inevitável entre ela e o marido, que culmina lá no final da temporada em uma das decisões de trama mais corajosas da série até hoje.

Sem nomes como Joel Schumacher e David Fincher assinando a direção dos episódios (Agnieszka Holland, de O Jardim Secreto, dirige dois), House of Cards suaviza o tratamento visual a fim de deixar as atuações e o trabalho dos roteiristas brilharem. É uma decisão esperta, que eleva a série de uma trama bem conduzida em termos de produção para um brilhante drama político com tantas implicações sociais quanto emocionais para o espectador. O terceiro ano da série do Netflix é também seu ano de amadurecimento – House of Cards mostra, finalmente, a quê veio no cenário de narrativas televisivas e reafirma-se não só como pioneira de uma nova liberdade de produção (afinal, foi a primeira série feita por um serviço de streaming) mas principalmente como história que precisa ser contada e assistida. Que tal isso como legado, Sr. Presidente?

Notinhas adicionais:

  • Spacey e Wright são os pilares da série, mas o elenco todo brilha: vale destacar a curtinha participação de Rachel Broshanan, que faz um trabalho primoroso com pouco tempo em tela; a performance compenetrada e expressiva de Michael Kelly, dando continuidade ao bom trabalho na segunda temporada; e a excelência sutil de Molly Parker, como a congressista de alianças duvidosas Jackie Sharp.
  • Robin Wright, inclusive, dirige dois episódios dessa terceira temporada e, assim como fez na segunda, mostra que tem domínio visual e narrativo incomparáveis sobre a série que estrela. Fica a torcida para que as investidas de Wright atrás das câmeras não parem por aqui!

✰✰✰✰✰ (5/5)

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House of Cards – 3ª temporada (EUA, 2015)
Direção: John David Coles, Tucker Gates, James Foley, John Dahl, Robin Wright, Angnieszka Holland
Roteiro: Beau Willimon, John Mankiewicz, Frank Pugliese, Laura Eason, Kenneth Lin, Melissa James Gibson, Bill Kennedy, baseados nas novelas de Michael Dobbs e na minissérie de Andrew Davies
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Elizabeth Marvel, Jimmi Simpson, Paul Sparks, Molly Parker, Kim Dickens, Derek Cecil, Mahershala Ali, Nathan Darrow, Lars Mikkelsen
13 episódios

Emmy watch – possíveis indicações:
Melhor Série Dramática
Melhor Ator em Série Dramática (Kevin Spacey)
Melhor Atriz em Série Dramática (Robin Wright)
Melhor Roteiro em Série Dramática (Melissa James Gibson, “Chapter 32”)
Melhor Direção em Série Dramática (Robin Wright, “Chapter 35”)

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