13 de jul de 2015

Review: “Mad Max: Estrada da Fúria” é uma subversão de tudo que o blockbuster representa

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por Caio Coletti

Nós já tivemos mais que a nossa cota de super-heróis no cinemão americano desde o começo do século XXI. De X-Men para cá, pelo menos uma vez por ano os multiplexes ao redor do mundo são invadidos por seres de poderes extraordinários, seja por qual razão for – aranhas radioativas, genes modificados, uma tonelada de dinheiro e uma obsessão por morcegos. Em 2015, no entanto, ficou claro que as adaptações de quadrinhos e histórias derivadas foram se tornando um hábito de consumo muito mais do que uma obsessão do público, e o filme que chegou para roubar esse lugar no coração dos espectadores não poderia ser melhor do que Mad Max: Estrada da Fúria. É de conhecimento público que a obra de George Miller é um reboot da trilogia original protagonizada por Mel Gibson entre 1979 em 1985, mas só quem viu o filme é capaz de testemunhar o quanto ele vai muito além disso. Mad Max: Estrada da Fúria é, em muitos sentidos, o anti-blockbuster-do-século-XXI, e como tal tem em seu centro um tipo diferente de protagonista. Imperator Furiosa (Charlize Theron) não é uma super-heroína pelo que tem de excepcional, mas justamente pelo que tem de humano.

Antes de qualquer coisa, no entanto, vamos tirar o elefante branco do caminho: um dos motivos pelos quais Furiosa é tão diferente de todos os outros heróis que estamos acostumados a ver no centro das histórias de Hollywood está no fato de que ela é uma mulher. Isso é muito mais um crédito para a forma como Estrada da Fúria constrói seu mundo e seus personagens do que qualquer outra coisa, porque no universo pós-apocalíptico recriado por George Miller e pelos roteiristas Breandan McCarthy e Nick Lathouris (ambos estreantes), as mulheres são as portadoras de uma esperança e de uma determinação que vai além da sobrevivência,  à qual os homens parecem irremediavelmente presos. Cada um dos personagens masculinos do roteiro responde a um comportamento feral, que não conhece passado e não reconhece nenhum futuro. Nux (Nicholas Hoult) e seus colegas warboys vivem uma meia-vida lutando e, no final, se sacrificam pela promessa de uma eternidade no paraíso; o vilão Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne) quer um filho sadio e reafirma sua “propriedade” sobre todas as coisas e pessoas na Cidadela, mas sua sede por poder parece muito mais instintiva, como a de um leão sádico e feroz, do que racional.

Quando o filme começa, nosso ostensivo protagonista Max (Tom Hardy) não está muito longe disso. Ele é “aquele que foge dos mortos e também dos vivos”, aquele que diz que “a esperança é um erro” e uma série de outros bordões cunhados para sublinhar o estado de completo desolamento do mundo futurista de Miller e companhia. Max é um símbolo muito mais que um personagem, e é largamente pelos esforços nobres de Hardy que ele se torna mais que isso – o ator empresa à Max um olhar curioso e uma gama de sentimentos que precisa ser expressada silenciosamente, porque não está nos diálogos do roteiro. Hardy desenha o arco de personagem de Max, espertamente, junto à jornada da trama e ao tempo que ele passa ao lado de Furiosa, a verdadeira protagonista da história. A “road trip” que estrutura o filme, e que os dois fazem juntos pela maior parte do tempo, mostra que há algo na personagem de Theron que falta em cada um dos antagonistas e coadjuvantes: uma perspectiva para o futuro e a vontade de torná-lo possível. Furiosa desperta o que há de humano em Max, em Nux e nas esposas de Immortan, que rapta da prisão em que o vilão as deixava, e luta ferozmente tanto por si quanto por essa nova humanidade que descobriu neles. Num mundo em que a sobrevivência parece ser ó único instinto restante numa humanidade que matou o próprio planeta, não há nada mais heroico que isso.

Como toda boa ficção científica (o que o filme essencialmente é), é claro, Mad Max: Estrada da Fúria obviamente se mostra muito uma reflexão da nossa realidade. “Onde precisamos ir, nós que caminhamos nessa terra destruída, procurando pelos nossos melhores eus?”, proclama a epígrafe do filme, criada pelo diretor George Miller para fazer parte da mitologia do universo de Max e companhia. Estrada da Fúria nos pergunta o quanto somos parecidos com os títeres insanos que percorrem seus caminhos poeirentos, seja buscando a confirmação de nossa propriedade sobre coisas e outras pessoas, celebrando a violência ou vivendo uma vida medíocre em busca de uma salvação final. O quanto nos contentamos em sobreviver, não importa em que condições, ao invés de nos conectarmos com as pessoas ao nosso redor e buscarmos alguma espécie de esperança? O quão perto estamos de matar o nosso mundo, o quão longe estamos do egoísmo absoluto que mora dentro de um homem cujo único e verdadeiro instinto é a sobrevivência? Estrada da Fúria é um blockbuster, um filme de ação com questões importantes para fazer, e que não foge da responsabilidade de fazê-las.

O filme de Miller, inclusive, talvez seja um dos mais corajosos a saírem de Hollywood em muito, muito tempo. Existe um desafio inerente a cada aspecto e escolha envolvida nele, a começar pela opção pela fotografia intensa e constrastante do mestre Jon Seale (Oscar por O Paciente Inglês) – laranja e branco resplandecentes durante o dia, azul e preto severos durante a noite, com pequenas bolsas de luz e cor, e intenso preto-e-branco durante a tempestade de areia inacreditável pela qual nossos personagens passam em certo ponto do filme. Estrada da Fúria ousa fazer da cor e das (nem tantas) partes em CGI elementos artísticos que auxiliam na compreensão da obra – isso numa Hollywood que quer mastigar a informação visual para os seus espectadores e assaltá-los com a familiaridade de efeitos visuais sem nenhum estilo distintivo além da busca pela imitação perfeita da realidade. A trilha de Junkie XL (300: A Ascensão do Império) combina a intervenção pontual de cordas e orquestras com o uso de guitarras e tambores para as cenas de ação, o que só ajuda a sublinhar o quão absurdamente bem estruturados, planejados e executados são os momentos em que a adrenalina domina o filme. O diretor George Miller, para ajudar, trabalha com a editora Margaret Sixel (Happy Feet) e não se rende ao frenesi que domina a maioria dos blockbusters, construindo essas cenas com a serenidade e o olhar orgulhoso de quem supervisionou a construção de uma sequência cinematográfica perfeitamente coreografada e montada.

No centro de tudo isso, segurando o firmamento de um filme que não toma atalhos ou caminhos fáceis na hora de contar uma história e entregar algo de excelência notável para o espectador, está a atuação de Charlize Theron como a nossa aclamada heroína. Mais focada do que nunca, a oscarizada sul-africana se entrega a personagem física e mentalmente, trabalhando a linguagem corporal e os movimentos de Furiosa de forma a emprestar a ela não a constituição de uma heroína de ação, mas a agilidade e destreza de uma mulher acostumada a lutar. Ao mesmo tempo, a atriz carrega nos olhos e na expressão do rosto o cansaço e a compreensão de que cada uma dessas lutas que a formou pode ser essencialmente inútil no mundo em que ela vive. Há um pesar e uma resignação que Furiosa enterra por cima da determinação de ferro de quem não está disposta a apenas sobreviver – mas a forçar a sobrevivência de cada fiapo de humanidade que ela encontra em si e nos outros pelo caminho. Estrada da Fúria é uma verdadeira injeção de adrenalina que desafia a preguiça e a castração da criatividade que reinam em Hollywood, é o melhor filme de ação em anos, e é uma tremenda lição de storytelling. De fato, algo excepcional de se testemunhar.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road, Austrália/EUA, 2015)
Direção: George Miller
Roteiro: George Miller, Brendan McCarthy, Nick Lathouris
Elenco: Charlize Theron, Tom Hardy, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Josh Helman, Nathan Jones, Zoë Kravitz, Rosie Huntington-Whiteley, Riley Keough, Abbey Lee, Courtney Eaton
120 minutos

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