1 de jul de 2015

Review: “Wolf Hall” encontra um poderoso estudo de personagem em uma história batida

Wolf-Hall-Poster

por Caio Coletti

Retratos ficcionais do turbulento reinado de Henrique VIII da Inglaterra não faltam. Os polêmicos múltiplos casamentos do monarca, com direito a execução de duas das ex-esposas e anulação de vários outros matrimônios, além da universalmente fabulada troca de amantes entre as irmãs Boleyn (Mary & Anne), deram material farto para novelistas, roteiristas e diretores ao redor do mundo. Duas das mais famosas encarnações da história, a série The Tudors e o filme A Outra, provavelmente servirão de parâmetro para o espectador incauto que trombar com Wolf Hall, minissérie da BBC que adapta dois livros de Hilary Martel em que o protagonista não é exatamente o monarca mulherengo, mas Thomas Cromwell, uma figura polêmica na história inglesa. Advogado por formação, Cromwell passou em um punhado de anos de braço direito de um cardeal em decadência para conselheiro mais próximo de Henrique e arquiteto de boa parte de suas separações, violentas ou não.

O Cromwell de Wolf Hall é o ator britânico Mark Rylance, e a série o acompanha desde a contratação como advogado pelo Cardeal Wosley (Jonathan Pryce, que esteve em Game of Thrones esse ano e está fantástico em ambos os papéis) até o julgamento e condenação de Anne Boleyn (Claire Foy, de Crossbones) por suposta infidelidade para com o rei. Rylance, que está com 55 anos e aparece no cinema desde 1985, é um ator bissexto, que prefere o teatro, mas esteve até em outra encarnação da mesma história, o filme A Outra, estrelado por Natalie Portman e Scarlett Johansson, que citamos ali em cima. Faz diferença ter à frente da história um ator com experiência predominante nos palcos, porque sua construção do protagonista é sutil e comunicativa como deveria ser, se aproveitando do olhar privilegiado da câmera para esconder no fundo dos olhos de Cromwell a angústia e a alma de um homem terrivelmente pragmático, que parece usar uma máscara mortuária o tempo todo. Ele mantém a moralidade ambígua que o roteiro e a época histórica pedem (afinal, era também o início da guerra entre católicos e protestantes, e Cromwell mais tarde se tornaria notoriamente um guerreiro sangrento pela causa dos segundos), e que Wolf Hall tão brilhantemente usa em seu favor ao humanizar intensamente, ainda que ao estilo britânico contido, todos os seus personagens.

Rylance divide bem a cena com Jonathan Pryce e mesmo com Damian Lewis (Homeland), uma escolha ousada para o papel do monarca, que surpreende ao entender o caráter duvidoso do personagem e pintar por cima dele uma personalidade exuberantemente carismática, entregando uma interpretação intensa e dúbia que sem dúvida se encaixa na perfeita metáfora do roteiro de Peter Straughan (O Espião Que Sabia Demais) para o personagem: um leão dócil ao ser acariciado, mas ainda um leão. A verdadeira mágica acontece, no entanto, quando Wolf Hall se volta para o arco da relação entre Cromwell e Anne – o estilo contido de Rylance, que se recusa a atuar pela vaidade de devorar cenários, se confronta diretamente com a ofegante tenacidade de Claire Foy em cena, entregando-se a personagem de maneira comovente e nervosa, pintando uma Anne em cores fortes que é supremamente egoísta, mas também terrivelmente trágica. Foy abraça o simbolismo de uma história como a da sua personagem, uma mulher esmagada pelas pressões da sociedade de sua época que encontrou um caminho para o topo mas ficou a mercê de um predador indomável com uma coroa sobre a cabeça. Wolf Hall não julga Anne por sua ambição, como uma obra menor faria, e Foy em resposta a interpreta escapando de quaisquer estereótipos e presunções que o espectador possa fazer sobre ela.

Wolf Hall é lindamente dirigida pelo veterano de TV britânica Peter Kosminsky, que em vários momentos brinca com a iluminação das cenas e com as simbologias do roteiro de Straughan (o tema de animais de estimação é particularmente recorrente, há de se notar) e cria uma encenação sóbria e tensa mesmo que muitas vezes o script arrisque perder a atenção do espectador, desafiando a estrutura convencional dramática de uma narrativa exponencial e tomando seu tempo para estabelecer cada um dos estratagemas e relacionamentos que compõem a teia de intrigas de Wolf Hall. Não surpreendentemente, mas sem dúvida de forma muito eficiente, a minissérie quer conversar sobre o significado do poder e sua constituição frágil e inconstante, sobre as consequências que a consciência de um ser humano pode sofrer ao buscá-lo, e sobre a forma como o passado informa nossas decisões, seja na forma de vingança ou de desprendimento emocional. Wolf Hall não é, o tempo todo, uma narrativa poderosa e envolvente, mas vale a pena ser vista tanto pelo refinamento de sua produção quanto pela coerência de sua mensagem.

Notinhas adicionais:

  • O elenco da série merece uma nota a parte, como é de costume para as produções da BBC. O quarteto principal é a espinha dorsal da trama, mas coadjuvantes como Bernard Hill (Duque de Norfolk), Jessica Raine (Jane Rochford), Tom Holland (Gregory Cromwell), Kate Phillips (Jane Seymour), Mark Gatiss (Stephen Gardiner), Anton Lesser (Thomas More) e Charity Wakefield (Mary Boleyn) fazem toda a diferença.
  • O terceiro livro da trilogia começada com Wolf Hall (a minissérie também cobre o segundo, Bring Up the Bodies) sai ainda esse ano segundo a autora, então devemos esperar uma futura continuação da história na televisão também?

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Wolf Hall (Inglaterra, 2015)
Direção: Peter Kosminsky
Roteiro: Peter Straughan, baseado nas novelas de Hilary Martel
Elenco: Mark Rylance, Damian Lewis, Claire Foy, Jonathan Pryce, Thomas Brodie-Sangster, Bernard Hill, Jessica Raine, Tom Holland, Kate Phillips, Ed Speelers, Mark Gatiss, Anton Lesser, Max Fowler, Joanne Whalley, Charity Wakefield, Harry Lloyd
6/7 episódios

Emmy watch – possíveis indicações:
Melhor Minissérie
Melhor Ator em Minissérie ou Filme (Mark Rylance)
Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Damian Lewis)
Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Filme (Claire Foy)

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