2 de ago de 2015

Essa mensagem será auto-destruída em 5 segundos: Revendo a série “Missão: Impossível”

 

por Caio Coletti

Nos últimos 19 anos, a franquia Missão: Impossível fez bem mais do que ser apenas um recurso para Tom Cruise resgatar (ou turbinar) a carreira de tempos em tempos. Se bem observados, cada um dos quatro filmes da série até agora indica exatamente em que ponto está a produção mainstream de Hollywood, e o que há de bom e ruim nela. Dependendo da época em que você cresceu, inclusive, talvez um desses filmes desperte um sentimento de nostalgia da “época” em que os filmes de ação eram “melhores”. Logo aí embaixo você vê nosso review, bem curtinho, de cada um dos filmes. Com vocês, Ethan Hunt:

Missão: Impossível (Mission: Impossible, EUA, 1996)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Koepp, Robert Towne
Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott Thomas, Vanessa Redgrave
110 minutos

O primeiro filme da marca estreou em 1996 com um tipo de investimento e publicidade que já antecipava o tamanho do seu sucesso, mas isso não impediu que o seu processo de idealização e produção fosse menos “manchado” pelas maquinações hollywoodianas do que as futuras continuações da série. Assinado por um “cineasta de grife” como Brian De Palma (Scarface), o filme é naturalmente mais cerebral, abrindo com uma sequência de créditos inspirada na série de TV original e seguindo uma trama de espionagem complicada, cheia de traições e reviravoltas. O importante aqui, no entanto, é que o centro da trama envolve o herói Ethan Hunt (Cruise) quando, após uma operação que dá terrivelmente errado, ele é acusado de ser um agente duplo infiltrado na IMF. Isolado dos recursos de sua organização, ele recruta a ajuda de outros renegados (Emmanuelle Béart, Jean Reno, Ving Rhames) para descobrir a identidade do verdadeiro espião.

Tudo se discorre de maneira muito hitchcockiana em Missão: Impossível, como não é de se surpreender com um filme de De Palma. O americano sempre foi influenciado pelas obras do mestre do suspense, e essa talvez seja sua homenagem mais direta ao muso inspirador do seu estilo cinematográfico – usando a linguagem convencional do cinema comercial americano para contar a história de um homem acusado injustamente de um crime, e usando o personagem do ótimo Jon Voight para discursar sobre as tensões internas americanas pós-Guerra Fria. É um trabalho subversivo incluído dentro do sistema, que de quebra ainda trás alguns dos melhores exemplos de direção de ação da história do cinema no clímax, uma eletrizante perseguição entre helicóptero e trem por dentro do Eurotúnel, um feito poucas vezes superado por Hollywood.

✰✰✰✰ (4/5)



Missão: Impossível II (Mission: Impossible II, EUA/Alemanha, 2000)
Direção: John Woo
Roteiro: Robert Towne
Elenco: Tom Cruise, Dougray Scott, Thandie Newton, Ving Rhames, Ricard Roxburgh, John Polson, Brendan Gleeson, William Mapother
123 minutos

Entre 1993 e 2000, o chinês John Woo era o indisputável rei da ação em Hollywood. Depois de construir uma carreira respeitável no país natal, o diretor viu seu Fervura Máxima virar sucesso internacional, e logo foi cooptado para dirigir O Alvo, com Jean-Claude Van Damme. Depois de A Última Ameaça (1996) e A Outra Face (1997), a última missão de Woo na terra do cinema americano foi tomar conta da segunda entrada da franquia Missão: Impossível, que o cineasta do filme anterior, Brian De Palma, havia recusado dirigir. O resultado foi o começo de uma tendência para a série: um filme por diretor, e um estilo bem distinto por filme. Com um roteiro construído todo em cima de ideias para cenas de ação (segundo o próprio autor Robert Towne) dadas pelo cineasta, M:I II é um passeio de montanha-russa e uma das demonstrações mais espetaculares do poderio de Hollywood.

Com uma trama bobinha que envolve um vírus sintético criado por um cientista russo e roubado por um agente vira-casaca da IMF, a participação não-creditada de Anthony Hopkins como o chefe do nosso Ethan Hunt e a interação não muito natural entre Cruise e uma jovem Thandie Newton, o filme é um amontoado de besteiras narrativas que servem como desculpa esfarrapada para Woo destilar estilo. O truque não funciona tão bem (nada surpreendentemente) até o clímax, em que o diretor chinês monta uma sequência de tirar o fôlego de tiroteios, reviravoltas, roubos, perseguições e combates corpo-a-corpo. Aí é que Woo mostra porque é uma lenda do gênero: ele dirige com paixão, atenção aos detalhes, um senso de movimento e localização impressionantes e, principalmente, muita ironia. Missão: Impossível II pode ser o mais terrivelmente inócuo filme da série, mas é impossível dizer que ele tenta enganar seu espectador – ao contrário de seus personagens, que usam um recorde de “rostos falsos”, M:I II não poderia ser mais transparente.

✰✰✰ (3/5)



Missão: Impossivel III (Mission: Impossible III, EUA/Alemanha/China, 2006)

Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci & J.J. Abrams
Elenco: Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Ving Rhames, Billy Crudup, Michelle Monaghan, Jonathan Rhys Meyers, Keri Russell, Maggie Q, Simon Pegg, Eddie Marsan, Laurence Fishburne
126 minutos

Ao contrário do que ocorreu nos dois primeiros filmes da franquia, é difícil culpar J.J. Abrams pelas falhas de Missão: Impossivel III. Talvez seja um reflexo da forma como os blockbusters hollywoodianos aos poucos foram perdendo a identidade e o espaço do diretor-autor, ou talvez seja o fato que os muitos elementos interessantes da narrativa de M:I III são afogados em um oceano de clichês providos pelo roteiro de Alex Kurtzman e Roberto Orci, dupla responsável pelo script de Transformers, Star Trek e O Espectacular Homem-Aranha 2, entre vários outros arrasa-quarteirões dos últimos anos. Como dá para perceber pelo resumo do currículo, Kurtzman e Orci estão acostumados a brincar com clichês do cinema de ação, mas o que geralmente fazem em seus melhores momentos é injetá-los com personagens bem delineados e renovar os motivos pelos quais eles funcionaram tão bem em um passado distante de Hollywood. Basta dizer, no entanto, que não é esse o caso em M:I III.

O que mais incomoda é o final feliz forçado, que não combina com o tom razoavelmente realista do restante do filme e com os temas discutidos – talvez a contribuição de Abrams ao roteiro, uma vez que temáticas recorrentes em outros filmes do diretor aparecem aqui, como a responsabilidade sobre aqueles que nos cercam e a necessidade de construir uma vida plena mesmo em circunstâncias adversas. M:I III poderia ser um filme de ação não só absolutamente espetacular nas cenas de adrenalina (e é preciso dizer que Abrams supera seus predecessores no quesito de provocar as reações mais viscerais do espectador) como também esperto narrativamente. Tem Cruise em um bom momento interpretativo, tem Seymour Hoffman estabelecendo o padrão a partir do qual todos os outros vilões da franquia para sempre serão julgados, e tem um cineasta inteligente no comando. Ao invés de usar todo esse potencial, no entanto, o filme prefere ser um pastiche hollywoodiano – um muito bem-executado, diga-se, mas nunca mais do que isso.

✰✰✰✰ (3,5/5)



Missão: Impossivel – Protocolo Fantasma (Mission: Impossible – Ghost Protocol, EUA/Emirados Árabes/República Tcheca, 2011)
Direção: Brad Bird
Roteiro: Josh Applebaum, André Nemec
Elenco: Tom Cruise, Paula Patton, Simon Pegg, Jeremy Renner, Michael Nyqvist, Léa Seydoux, Josh Holloway
133 minutos

Contratar o americano Brad Bird para dirigir o quarto filme da franquia Missão: Impossível, principalmente depois do fracasso de bilheteria da sequência anterior, foi uma manobra arriscada para Tom Cruise, transformado em produtor da série. No entanto, era mais do que claro que a marca precisava mesmo de uma dessas manobras arriscadas, e a aposta no talentoso diretor de animações como Os Incríveis e Ratatouille mais do que pagou por si mesma. Protocolo Fantasma não só se tornou o filme com mais resultado comercial da franquia como também recebeu elogios inéditos da crítica especializada, que detectaram no trabalho de Bird e do roteiro de Josh Appelbaum e André Nemec (Alias) exatamente o que faltava na franquia: consciência de si mesma e senso de ação e risco que não se vê nos blockbusters hollywoodianos desde o século passado.

Acompanhando o agente Hunt alguns anos depois que o deixamos recém-casado em M:I III, o filme começa em uma prisão russa, passa por Dubai (onde uma agonizante sequência em que o herói escala o prédio mais alto do mundo auxiliado por luvas ultra-tecnológicas – ! – leva o prêmio de mais eletrizante de toda a franquia) e termina na Índia, onde Hunt e um time de desajustados precisa impedir um terrorista russo de começar a aniquilação nuclear do planeta. Parece ridículo, e Protocolo Fantasma brinca bastante com isso e com outros clichês do gênero, seja colocando “Ain’t That a Kick in the Head” como marcação para uma fuga de prisão ou zombando das alturas mal-calculadas das quais os heróis de ação geralmente saltam para a salvação. A sensibilidade de Bird ajuda a delinear os personagens, e o elenco entrega performances afiadas (especialmente Jeremy Renner, uma adição bem-vinda à franquia). O resultado é que Protocolo Fantasma é simplesmente o que Hollywood tem de melhor para oferecer aos fãs do gênero.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)



Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission:Impossible – Rogue Nation, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Christopher McQuarrie
Elenco: Tom Cruise, Jeremy Renner, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Ving Rhames, Sean Harris, Tom Hollander, Alec Baldwin
131 minutos

Quando Nação Secreta estreou nos cinemas, em Agosto, muita gente o viu como uma continuação brilhante justamente por seguir com a tradição da série de não ter muita conexão entre os capítulos. Agora, bons 4 meses depois, talvez o filme não pareça mais tão convencional para a franquia em que está inserido – recentemente, foi anunciado que o sexto capítulo da série já está em produção, o que não é comum para uma franquia que até hoje foi bissexta; atrelados ao projeto também estão Christopher McQuarrie, que se tornará o primeiro diretor a retornar à série, e Rebecca Ferguson, a primeira protagonista feminina a ter essa mesma distinção; por fim, vale destacar que Nação Secreta é a primeira entrada da franquia a ter um diretor que também serve como roteirista (J.J. Abrams co-escreveu M:I III, mas McQuarrie é o único roteirista creditado aqui). Não parece, mas faz diferença, e o sentimento é cada vez mais que, finalmente gozando de boa reputação com a crítica e bilheterias confiavelmente espetaculares, a série Missão: Impossível está pronta para ter uma continuidade de verdade. Mas o que isso significa para Nação Secreta?

Para começar, significa dar um pouco de atenção aos personagens. McQuarrie, com quem Cruise trabalhou no terrível Jack Reacher, faz escolhas mais sábias aqui ao: 1) deixar Ethan Hunt como o herói mal-definido e desenhado que sempre foi, um Coringa quase super-poderoso, mas eventualmente humano, com quem podemos simpatizar sem nos envolvermos muito; 2) servir boas doses de desenvolvimento para os coadjuvantes, se aproveitando do talento de gente como Simon Pegg (voltando como Benji) e da própria Rebecca Ferguson (The White Queen) para construir o começo de uma identificação com o público. Talvez o senso de movimento de McQuarrie como diretor não seja tão espetacular quanto o dos comandantes anteriores da série, mas é interessante que M:I tenha escolhido trazer um cineasta que dá importância a história. Nação Secreta ainda é maravilhosamente divertido, com doses generosas de pulp e absurdo hollywoodiano, mas tenta fazer uma coisa diferente – resta saber onde esse esforço vai dar, em 2017.

✰✰✰✰ (4/5)


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