5 de ago de 2015

Review: “Orphan Black” volta à sua melhor forma no terceiro ano

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por Caio Coletti

Não há performance na televisão hoje em dia que se compare à de Tatiana Maslany em Orphan Black. Eu sei que esse é um ponto batido e rebatido desde a primeira temporada da série, lá em 2013, quando essa “pequena” produção canadense pegou todo mundo de surpresa com uma primeira temporada genial e cartas de sobra na manga. Mesmo assim, assistir ao terceiro ano de Orphan Black é constatar, episódio a episódio, que a série não existiria da forma como a conhecemos sem o trabalho da sua protagonista nos múltiplos papéis que os roteiristas a delegam. E isso não é “só” porque Tatiana é brilhante, mas porque ela tem o tipo certo de talento para a história que Orphan Black quer contar, e para a forma como a conta – a trama conduzida por um batalhão de showrunners (são 12!) é essencialmente um jogo de malabarismo com vários clichês da ficção científica (fanáticos religiosos! clones! uma doença incurável!), que se move com agilidade pela trama, encara destemidamente a perspectiva de virar as expectativas do espectador de cabeça para baixo de vez em quando, e constrói sua verdadeira base na estruturação das personagens interpretada por Maslany.

Talvez por isso essa terceira temporada pareça tão melhor do que a (de certa forma esquecível) segunda, visto que os roteiristas parecem mais focados em nos mostrar as perspectivas e estruturas das vidas que cada uma de nossas protagonistas têm para si. Quando olhamos para Sarah nessa temporada, por exemplo, a série nos remete a tudo que vimos sobre ela antes e, com a ajuda inestimável de Maslany, a transforma em um ser humano completo. Ela não é só “a trapaceira”, uma cifra a mais para adicionar ao clone club que também inclui a “soccer mom” (Alison), a “nerd” (Cosima), a “perturbada” (Helena), a “do mal” (Rachel) e, agora, também a “fútil” (Krystal). Chega a ser cômico reduzir essas personagens a estereótipos, porque grande parte da série se dedica a desconstruí-las diante dos nossos olhos e mostrar todos os elementos, dos pequenos detalhes aos grandes formadores de personalidade, que as fazem quem elas são. E é inestimável ter, nessa missão, uma atriz que faz do respeito que sente em relação às personas que encarna a pedra fundadora da sua performance – sem exagerar nos maneirismos e encontrando formas sutis de diferenciar os clones, Maslany entrega performances que são inspiradoras de maneiras diferentes, e que realçam a tridimensionalidade que a série imprimiu a essas personagens.

O terceiro ano de Orphan Black também se faz um enorme favor ao materializar algumas respostas para perguntas que persistiam desde o início da série, e ao introduzir elementos novos na trama que tornam a jornada das protagonistas mais complicada – mas também mais satisfatória para nós como espectadores. A trama de Orphan Black se abre e se expande durante os 10 episódios da temporada, e o resultado é que, no final de “History Yet to Be Written”, a sensação de familiaridade que já sentíamos em relação à Cosima, Sarah, Alison, Helena e os outros membros honorários da “família” da série se estende para o universo e a mitologia na qual elas estão inseridas. Orphan Black sempre foi ótima em brincar com seus personagens e com as interações que existem entre eles, mas a forma como a trama se entrelaça às histórias desses personagens no terceiro ano torna a experiência mais completa, e o diálogo da série com o espectador mais aberto e interessante. Não que não reste nenhum mistério para os escritores responderem (e ainda bem que restam, porque senão qual seria o ponto?), mas a impressão que fica é que, para a quarta temporada, a configuração do jogo finalmente ficou clara para quem está assistindo.

Seja seguindo o processo eleitoral de Alison para um pequeno cargo administrativo em seu distrito suburbano (e suas desventuras como traficante de drogas, porque sim); acompanhando Cosima e seu dilema com a namorada Delphine, que assume uma posição importante dentro da empresa científica que criou os clones; mostrando a investigação que Sarah e Helena conduzem quanto aos clones masculinos que vimos no finalzinho da segunda temporada; ou nos apresentando a Krystal, parte importante de um aspecto da trama; Orphan Black ergue para si um verdadeiro castelo de cartas de emoções divergentes, observações sociais e considerações metafísicas sobre a natureza da humanidade e a constituição única de cada uma das nossas psiques. Tatiana Maslany é o coração dessa série não só porque ela precisa ser, mas porque ela pode ser – com uma atriz tão tremendamente empática em seu centro, Orphan Black provavelmente não conseguiria se estragar nem mesmo se quisesse.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Orphan Black – 3ª temporada (Canadá, 2015)
Direção: David Frazee, John Fawcett, Chris Grismer, Helen Shaver, Ken Girotti, Aaron Morton, Vincenzo Natali
Roteiro: Graeme Manson, Aubrey Nealon, Chris Roberts, Russ Cochrane, Alex Levine, Sherry White
Elenco: Tatiana Maslany, Jordan Gavaris, Kevin Hanchard, Ari Millen, Kristian Bruun, Evelyne Brochu, Maria Doyle Kennedy, Zoé de Grand’Maison, Justin Chatwin, Ksenia Solo
10 episódios

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