30 de set de 2015

Review: A comédia de “Wet Hot American Summer: First Day of Camp” não é só pra americano ver

wethot

por Caio Coletti

É fácil dispensar o humor de Wet Hot American Summer, tanto o filme de 2001 quanto essa absurda minissérie prequel lançada pelo Netflix no último dia 31 de Julho, como dirigido a um público muito específico. No final das contas, o longa-metragem original foi batizado aqui no Brasil de Mais um Verão Americano, o que não é uma má tradução para os padrões das distribuidoras nacionais, mas certamente é uma péssima estratégia de marketing. O título brasileiro vende uma noção de que a comédia escrita e dirigida por David Wain, que viria a fazer Viajar é Preciso e Faça o Que eu Digo, Não Faça o Que eu Faço, só pode ser verdadeiramente saboreada por quem passou a adolescência nos EUA e viveu de verdade o ambiente retratado no filme, um acampamento de verão do comecinho dos anos 1980. Um pouco menos limitante é pensar que, com todas as suas referências e personagens arquetípicos, Wet Hot American Summer é boa diversão só para quem conhece os saudosos e ingênuos filmes adolescentes da mesma década de 80 (as obras de John Hughes principalmente, é claro). Nenhuma das duas definições é exatamente justa, no entanto – a criação de David Wain, e especialmente First Day of Camp (a minissérie) é diversão garantida para qualquer pessoa exposta ao modelo básico de narrativa de qualquer arrasa-quarteirão hollywoodiano.

A ambientação e os clichês oitentistas estão aqui exatamente porque Hollywood nunca exatamente superou a facilidade formulaica da maioria das tramas dessa época. Porque o público de cinema do mundo inteiro ainda adora ver a história de um personagem que tem todas as probabilidades voltadas contra si, mas mesmo assim resolve arriscar sua sorte (ou não tem outra escolha). Nas aventuras e filmes de ação da terra do cinema, na maioria das vezes o nosso herói vira-lata surpreende a todos e vence o dia, terminando a história em um lugar muito mais vantajoso do que estava quando começou – não só essa é a fórmula de Hollywood, como é a estrutura básica de qualquer narrativa convencional (até as de qualidade!). O jogo de First Day of Camp é montar uma história composta de inúmeras pequenas jornadas desse tipo, e brincar com a expectativa do espectador, às vezes indo contra a convenção (e presentando nossos heróis com inesperados fracassos) e às vezes achando alguma maneira absurda de fazer tudo funcionar para o personagem em questão. A minissérie se diverte mais quando coloca suas crias em situações improváveis e inescapáveis, e se obriga a puxar a linha da verossimilhança para acomodar um final feliz.

Aos que viram e amaram Wet Hot American Summer, no entanto, não há nada a temer: o humor absurdista que era o principal atrativo do filme ainda persiste aqui, estocando os 8 episódios de pouco menos de meia hora com tiradas visuais brilhantes e preferindo (na maior parte do tempo) um humor de situações do que de one-liners, aquelas piadas rápidas que se originam exclusivamente da verbalização dos personagens. Apesar de provocar uma fragmentação da trama (é bastante óbvio que o elenco, lotado de astros, não esteve todo junto por muito tempo em set), a decisão de trazer de volta quase todos os membros do cast original mantem a importância histórica de Wet Hot American Summer como o nascimento de uma geração de comediantes, e ainda garante que as piadas de Wain sejam entregues com timing mais que perfeito. Os destaques ficam por conta de Bradley Cooper, que reportadamente filmou suas cenas em apenas um dia, mas que traz para a tela um entendimento do personagem e do humor que ele representa que não teve tempo de existir nas meras 1h30 do filme original; Cristopher Meloni, que ainda é a figura mais espetacular da larga galeria de personagens; e H. Jon Benjamin, que apareceu apenas em voz no filme de 2001 e agora se personifica em uma atuação tremendamente engraçada mesmo com pouco tempo em tela.

O cômico desajuste etário dos atores principais (quase todos na casa dos 40, e interpretando adolescentes ou jovens adultos) e as referências espertas ao filme original são só a superfície de First Day of Camp, que desenterra improváveis origens para os personagens que já conhecíamos mas, surpreendentemente, mantem o mesmo carinho e compreensão por eles que existia no Wet Hot American Summer de 14 anos atrás. A assinatura de Wain garante que a minissérie do Netflix seja o tipo de “comédia com coração” que não apela para o sentimentalismo barato, ou mesmo dá trégua em suas piadas para inserir momentos dramáticos “sérios e importantes” – ele encontra a essência de seus personagens tanto na época que retrata em sua narrativa quanto dentro dos improváveis plots que se desenrolam durante os capítulos. Mesmo uma década e meia depois, não há nada como Wet Hot American Summer na comédia ianque atualmente, e First Day of Camp é um bem-vindo retorno desse tipo de humor para as telas.

✰✰✰✰ (4/5)

WHAS-6310.CR2

Wet Hot American Summer: First Day of Camp (EUA, 2015)
Direção: David Wain
Roteiro: Michael Showalter, David Wain, Christina Lee
Elenco: Marguerite Moreau, Paul Rudd, Michael Showalter, Michael Ian Black, Bradley Cooper, Janeane Garofalo, Amy Poehler, Molly Shannon, Lake Bell, David Bloom, Jason Schwartzman, Samm Levine, Elizabeth Banks, Christopher Meloni, Josh Charles, Michaela Watkins, David Wain, Joe Lo Truglio, Ken Marino, Chris Pine, H. Jon Benjamin, Jon Hamm, Michael Cera, Kristen Wiig, Jayma Mays, Weird Al’ Yankovic
8 episódios

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