16 de set de 2015

Review: “Hannibal” entra para o limitado rol das séries que terminaram da forma como deveriam

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por Caio Coletti

A liberdade que a NBC concedeu à Hannibal durante seus três anos no ar não encontra paralelos dentro da história da televisão aberta americana. Talvez por isso tenha sido difícil ficar furioso com a emissora quando, ainda no comecinho da terceira temporada, foi anunciado o cancelamento da criação de Bryan Fuller (Pushing Daisies). Desde o primeiro ano rendendo muito prestígio crítico para a emissora, a série evoluiu tremendamente quando lhe foi dada a liberdade de se desenvolver e ser o que sempre teve potencial para ser – a nossa dose semanal de narrativa onírica com toques de pesadelo e apuro visual sem comparação dentro do seu gênero. O procedural sofisticado que caracterizou o primeiro ano deu lugar a uma intensa história de vingança e justiça no segundo, e se transformou em um amontoado elegantíssimo de metáforas, hipnoses e meditações nesse espetacular terceiro, que em 13 episódios arquivou a virtude de ser uma peça absurdamente autoral e idiossincrática de televisão sem nunca alienar o espectador.

A equipe de roteiristas e diretores de Hannibal nos envolveu e nos cercou tão eficientemente com a matéria escorregadia da qual a sua narrativa é feita que todos os arroubos estilísticos e truques espertos de edição, fotografia e trilha-sonora funcionavam a perfeição. Por quase uma hora por semana, a série nos provinha uma experiência imersiva e assustadora, sim, mas também tremendamente bela e invariavelmente fascinante. Hannibal, durante esse terceiro ano, foi a epítome daquela velha máxima sobre técnica e narrativa cinematográfica: “não diga, mostre”. Por todos os seus diálogos crípticos e construções complexas de personagem, por toda a interminável análise psicanalítica envolvendo o protagonista Will Graham (Hugh Dancy) e sua conflituosa relação com o personagem-título, Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen), a trama da NBC escondia muito da sua substância, do seu significado, por baixo de todas as camadas de verbalização, e era isso que a fazia não só uma produção televisiva absurdamente competente – muito mais que isso, Hannibal é uma das poucas séries da atualidade que se qualifica como verdadeiramente inesquecível.

E o quê Hannibal mostrou, se pergunta o leitor nesse momento, ao invés de dizer? A verdade é que a série de Bryan Fuller foi tão espetacular porque era sombria e perturbadora com um propósito, não apenas por ser – também porque mostrava atos de violência extrema sem esconder as profundas consequências psicológicas e físicas deles, porque não nos poupava dos traumas causados por aquele banho de sangue graficamente maravilhoso que víamos em tela, e porque em nenhum momento pretendeu glamourizar, relativizar ou justificar essa violência. Hannibal nos mostrou um mundo propenso ao caos em que as maquinações e manipulações de seu personagem-título eram apenas um agente catalisador das piores partes da humanidade daqueles que o cercavam. Hannibal não nos dizia que esse mundo é um lugar sombrio e que seres humanos são capazes de coisas terríveis – nos mostrava na complicada e sutil teia dos acontecimentos e das sensibilidades trazidas para a tela que há algo de inerentemente mórbido na nossa vida e na nossa construção psicológica. A série da NBC passou três anos nos mostrando a morte e a violência como uma parte fundamental da condição humana e da sociedade que criamos na conjunção das nossas psicologias (e psicopatias?). É um tema caro e recorrente nas séries de Fuller, mas não é menos impressionante como narrativa por isso.

Ajudou e muito, é claro, que tecnicamente a série fosse uma das produções mais impressionantes dessa era da televisão americana. A contribuição dos diretores não pode absolutamente ser reduzida a escolhas burocráticas, como ainda acontece na maioria das séries, especialmente nas de TV aberta – nomes como Vicenzo Natali (Cubo), Guillermo Navarro (diretor de fotografia de O Labirinto do Fauno) e Michael Rymer (A Rainha dos Condenados) contribuíram imensamente para a construção da identidade de Hannibal, traduzindo as obsessões e simbolismos da narrativa em imagens por vezes belíssimas, por vezes assombrosas, e frequentemente uma combinação de ambas as coisas. O roteiro muitas vezes labiríntico dos episódios, especialmente na terceira temporada, era deslindado e carregado pelas escolhas estilísticas dos diretores, e também era trabalho deles nos guiar pelos diálogos por vezes abstratos e desritmados (no melhor dos sentidos) tecidos pelos escritores. Ao lado principalmente de Steve Lightfoot (Camelot), Bryan Fuller escreveu com confiança exponencial na habilidade de seus diretores de criar a atmosfera que ele precisava para passar suas mensagens, das mais superficiais às mais profundas – na esmagadora maioria das vezes, essa aposta deu certo.

A escalação do elenco também foi um toque de mestre. Não existe mais discussão quanto ao fato de que Mads Mikkelsen  tomou o personagem que foi de Anthony Hopkins nos filmes para si e entregou uma interpretação única e fascinante dele. Não cabem mais comparações entre os dois atores, mas é interessante ainda notar que o dinamarquês emprestou dicas da forma como Hopkins expressava a astúcia e a frieza do Dr. Lecter mas tirou dele o comportamento mais intenso, a linguagem corporal mais instintiva, quase animal, que provavelmente era advinda de muitos anos em encarceramento. O Hannibal de Mikkelsen é uma criatura de nuances e atenção aos detalhes, e a tremenda civilidade e elegância no trato que o ator imprimiu a esse psicopata aterrorizante apenas sublinhava a percepção social aguda que a série carregava. A força da performance de Mikkelsen não obliterou, no entanto, a tremenda sensibilidade e expressividade do trabalho de Hugh Dancy como Will – e a junção dos dois em cena produziu faíscas físicas, emocionais e retóricas que foram essenciais para que o finale da série funcionasse tão bem. O retrato contundente e determinado que Dancy fez da empatia e da compreensão que Will estendia até para os mais incorrigíveis psicopatas e sociopatas ajudou a caracterizar Hannibal como uma história sobre humanidade, e as coisas terríveis entalhadas nela. Num mundo justo, ambos os protagonistas sairiam dessa jornada com Emmys na prateleira.

“The Wrath of the Lamb”, o series finale de Hannibal, termina da mesma forma pessimista e sombria com a qual a série levou sua narrativa desde o começo (embora a cena pós-créditos traga uma picada de ironia para completar). Seria falso terminar Hannibal de outra forma, no final das contas, e Fuller não é um escritor propenso a falsidades, muito menos a fazer concessões para agradar o público – embora existisse uma fatia dos fãs que entendia a relação complicada de Will e Hannibal como um caso de amor (um amor perturbado, mas still…), a junção final dos dois protagonistas e seu mergulho, literal e figurativo, em direção a absoluta insanidade, parece tremendamente adequada e, ao mesmo tempo, muito corajosa. Durante três anos, Hannibal nos fez olhar fixamente para o abismo, e ainda insistiu que entendêssemos que esse abismo está mais do que presente na vida real, na natureza humana, na sociedade que encaramos todos os dias. Nada mais apropriado, portanto, que no final o abismo nos olhasse de volta.

Notinhas adicionais:

  • Mikkelsen e Dancy são de fato o núcleo nervoso de Hannibal, mas é impossível terminar esse último review da série sem citar os coadjuvantes maravilhosos que passaram pela série, construindo personagens complexos, interessantes e em sintonia com o clima da série. O destaque, é claro, vai para as moças: Gillian Anderson (Bedelia), Caroline Dhavernas (Alana), Hettienne Park (Beverly), Kacey Rohl (Abigail), Lara Jean Chorostecki (Freddie), Katherine Isabelle (Margot), Gina Torres (Bella), Rutina Wesley (Reba), Tao Okamoto (Chiyo) e Nina Arianda (Molly). Girl power!
  • We’ll miss you, Hannibal.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Hannibal (EUA, 2013-2015)
Direção: Michael Rymer, Guillermo Navarro, Vincenzo Natali, David Slade, Tim Hunter, John Dahl, Peter Medak, Neil Marshall, etc
Roteiro: Bryan Fuller, Steve Lightfoot, Scott Nimerfro, Jeff Vlaming, Chris Brancato, Andrew Black, Nick Antosca, Kai Wu, Jennifer Schuur, Don Mancini, etc
Elenco: Hugh Dancy, Mads Mikkelsen, Caroline Dhavernas, Laurence Fishburne, Scott Thompson, Aaron Abrams, Gillian Anderson, Hettienne Park, Kacey Rohl, Lara Jean Chorostecki, Raúl Esparza, Katherine Isabelle, Eddie Izzard, Richard Armitage, Gina Torres, Rutina Wesley, Joe Anderson, Michael Pitt, Cynthia Nixon, Tao Okamoto, Anna Chlumsky, Nina Arianda, Zachary Quinto
39 episódios

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