13 de set de 2015

Save the cheerleader, save the world: Revendo as 4 temporadas originais de “Heroes”

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por Caio Coletti

Desde que foi anunciado que Heroes iria voltar à programação da NBC, lá em Fevereiro de 2014, a internet rachou em dois: aqueles que se sentiram esperançosos quanto a um retorno à boa forma da lendária primeira temporada da série, de 2006; contra aqueles que se lembravam dos deslizes cometidos nos anos posteriores ao primeiro, e ficaram com vários pés atrás quando a esse retorno. Uma parte do elenco, afinal, provavelmente estaria ocupada demais para voltar – Hayden Panettiere (a Claire) com Nashville, Milo Ventimiglia (o Peter) com papéis em The Whispers e Gotham, Zachary Quinto (o Sylar) sendo uma estrela de cinema. Além do mais, o criador Tim Kring (de volta como produtor executivo) e seu time de roteiristas já haviam decepcionado uma vez, mesmo que uma parte da culpa tenha caído em cima da greve de escritores que rolou em Hollywood em 2007, bem no meio da segunda temporada da Heroes original.

A verdade é que só saberemos a resposta para a dúvida da qualidade da nova minissérie (de 13 episódios) em 24 de Setembro, quando o primeiro episódio estrear na NBC, mas aqui está o que já sabemos: Jack Coleman (Noah), Greg Grunberg (Matt), Noah Gray-Cabey (Micah), Sendhil Ramamurthy (Mohinder), Masi Oka (Hiro) e Jimmy Jean-Louis (O Haitiano) estão de volta para seus papeis; os novos membros do elenco são Zachary Levi (Chuck), Ryan Guzman (Pretty Little Liars), Robbie Kay (Once Upon a Time), Danika Yarosh (Shameless) e Henry Zebrowski (A to Z) entre outros; já da pra conhecer o personagem desse último na websérie Heroes Reborn: Dark Matters, que foi lançada no Youtube mas está indisponível para o território brasileiro (dá pra achar torrent por aí bem fácil); a trama de Heroes Reborn vai se passar cinco anos depois dos acontecimentos da série original, num contexto em que as pessoas com habilidades estão enfrentando preconceito e tentativas de controle por parte do governo e de uma companhia que parece seguir os mandamentos da Primatech.

Veja o trailer oficial aí embaixo, e depois se delicie com os nossos reviews das quatro temporadas anteriores de Heroes (com a exceção da segunda, elas não eram tão ruins quanto lembrávamos):

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Heroes – 1ª temporada (EUA, 2006-2007)
Direção: Allan Arkush, Greg Beeman, Paul Edwards, John Badham, etc
Roteiro: Tim Kring, Jeph Loeb, Bryan Fuller, Adam Armus, Kay Foster, Aron Eli Coleite, Joe Pokaski, etc
Elenco: Jack Coleman, Noag Gray-Cabey, Tawny Cypress, Greg Grunberg, Ali Larter, Masi Oka, Hayden Panettiere, Adrian Pasdar, Sendhil Ramamurthy, Milo Ventimiglia, Zachary Quinto, James Kyson
23 episódios

Em seus melhores momentos, Heroes é largamente uma história sobre o poder da escolha – o que é estranho, vide a interminável discussão sobre os entremeios do destino que forma a narração em off feita por Sendhil Ramamurthy (o Mohinder). O curioso, então, é que mesmo quando canta as venturas e desventuras desse elusivo conceito de destino, Heroes na verdade está nos contando uma história sobre um grupo de pessoas que enfrenta circunstâncias extraordinárias, e que se definem pelas escolhas que fazem frente a elas. É esse o encanto da primeira metade da aclamada temporada da estreia, na qual conhecemos pouco a pouco a vida dos personagens que acompanharíamos por mais quatro anos (alguns deles não por tanto tempo) – nas mãos de Tim Kring, Jeph Loeb e Bryan Fuller, os três principais escritores da temporada, cada tipo desenhado com pinceladas largas e sensibilidade quadrinesca ganha vida junto com a trama convoluta que acerta em cheio ao não nos contar mais dos mistérios da trama do que o que é absolutamente necessário e conveniente para os personagens e sua jornada no momento. A verdade é que essa primeira temporada de Heroes foi bem-sucedida porque foi escrita com habilidade e planejamento ímpares no cenário da TV aberta.

Os destaques da temporada, obviamente, são Masi Oka, que mostra sensibilidade e carisma gigantescos ao construir seu retrato icônico de Hiro, o nerd japonês que descobre ser capaz de manipular o tempo-espaço; e Zachary Quinto, que molda um vilão formidável em Sylar, o “ladrão de habilidades” que representa o lado ruim do desejo de ser especial ou “diferente”, um traço comum entre muitos personagens da série. Muitas dessas pessoas levam vidas ditadas por suas limitações: o policial Matt Parkman (o sempre ótimo Greg Grunberg) não consegue uma promoção porque sofre de dislexia; o enfermeiro Peter (Milo Ventimiglia) não se contenta em salvar o mundo “uma pessoa de cada vez”; o próprio Hiro se sente preso no emprego de executivo que tem em um cubículo em Tóquio. Heroes é uma história sobre pessoas que estão clamando por mudança, e para quem essa mudança chega de forma radical – joga com a fantasia que todos nós temos de abandonar nossa vida ordinária e nos tornarmos algo notável, mas é também uma maneira linda de refletir, sob a lente de aumento da ficção, sobre as escolhas que precisamos tomar todos os dias, e a forma como estamos moldando nosso futuro com elas.

✰✰✰✰ (4/5)

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Heroes – 2ª temporada (EUA, 2007)
Direção: Greg Beeman, Allan Arkush, Paul Edwards, Adam Kane, Lesli Glatter, Greg Yaitanes, etc
Roteiro: Tim Kring, Michael Green, Adam Armus, Nora Kay Foster, Aron Eli Coleite, Joe Pokaski, Jeph Loeb, etc
Elenco: Jack Coleman, Noah Gray-Cabey, Greg Grunberg, Ali Larter, Masi Oka, Hayden Panettiere, Adrian Pasdar, Zachary Quinto, Sendhil Ramamurthy, Milo Ventimiglia, Dana Davis, Kristen Bell, Stephen Tobolowsky
11 episódios

É um clichê cansado abrir qualquer texto sobre a segunda temporada de Heroes com uma notinha explicativa sobre a greve dos roteiristas de Hollywood, que durou do final de 2007 até o começo de 2008, e provavelmente é a responsável pelos últimos episódios da temporada (encurtada na pressa quando a greve explodiu) parecerem tão corridos e mal-estruturados. Tanto “Truth & Consequences” quando “Powerless” (2x10 e 2x11) provavelmente foram estruturados como uma colagem de ideias e diálogos que os escritores já tinham em mente antes da paralisação, e isso é flagrante para qualquer observador mais cuidadoso. Assim, sem tempo para respirar e manipular sua história, o segundo ano de Heroes terminou com uma nota verdadeiramente desapontadora quando se leva em consideração a promessa da temporada de estreia. Não dá para culpar tudo na greve, no entanto, porque até os episódios iniciais dessa season 2, concebidos, finalizados e exibidos antes da paralisação, não se sustentam frente ao estilo de narrativa que a série havia estabelecido. Intitulado “Generations”, esse “segundo volume” da história dos heróis é ainda mais frustrante porque às vezes, bem às vezes, nos deixa ver que tem uma história ótima para contar, se ao menos soubesse a forma certa de contá-la.

Para começar, o arco do primeiro ano – que construía expectativa e familiaridade até o momento em que todos os protagonistas estavam reunidos, por suas próprias razões e com suas próprias missões, em um só lugar – é substituído aqui por uma narrativa que parece verdadeiramente fragmentada. Hiro passa grande parte da temporada no Japão do século XVII; Peter, na Irlanda; acompanhamos os irmãos Alejandro e Maya em sua jornada da Venezuela para os EUA, e a série ainda dá um jeito de colocar o vilão Sylar com eles. Heroes é uma série com muitos atores competentes, mas poucos excepcionais, e a verdade é que muitos deles funcionam melhor quando estão juntos. Para uma temporada que, no fundo, é sobre a forma como o passado assombra os caminhos do presente e do futuro, essa segunda de Heroes não se esforça muito (ou talvez não reserve o devido tempo) para mostrar o que esses indivíduos únicos que a série construiu podem fazer, juntos, para corrigir ou ratificar seus passados. Entre os 11 episódios há pequenos flashes do que poderia ter sido uma história carregada de emoções e caminhos interessantes, um retrato honesto da natureza da perda, do pesar, da culpa e do arrependimento. Há até um ótimo capítulo, o nono (“Cautionary Tales”) – mas a verdade é que tudo que era cuidado e atenção à narrativa na primeira temporada explode sumariamente, exatamente como Peter no primeiro ano. E esse não é o tipo de desastre divertido de se assistir.

✰✰✰ (2,5/5)

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Heroes – 3ª temporada (EUA, 2008-2009)
Direção: Allan Arkush, Greg Beeman, Jeannot Szwarc, Greg Yaitanes, Eric Laneuville, etc
Roteiro: Tim Kring, Joe Pokaski, Aron Eli Coleite, Adam Armus, Kay Foster, Jeph Loeb, Rob Fresco, etc
Elenco: Jack Coleman, Hayden Panettiere, Ali Larter, Adrian Pasdar, Greg Grunberg, Masi Oka, James Kyson, Zachary Quinto, Sendhil Ramamurthy, Christine Rose, Milo Ventimiglia, Ashley Crow, Brea Grant
25 episódios

Vamos tirar uma coisa do caminho: Heroes nunca se recuperou completamente do desastre da segunda temporada. A atuação durante a greve dos roteiristas deixou mais que exposta a constituição frágil e desapontadora da trama da série, segurada na garra por um grupo de escritores talentosos que não perdiam de vista os temas e os personagens. No terceiro ano, com Hollywood mais que recuperada do susto, Heroes ganhou uma temporada de 25 episódios para acertar a bagunça e mostrar que ainda era capaz de prender o público e convencer com a história dessas pessoas ordinárias recebendo poderes extraordinários. Dividida em dois volumes, o conjunto resultante desse investimento massivo feito pela NBC é um amontoado de episódios de qualidade bastante variável, que eventualmente esbarram no brilhantismo mas nunca firmam os pés nele com a segurança e a determinação da primeira temporada. A grande vantagem que esse terceiro ano tem em relação ao segundo, no entanto, é que ele trata os temas da história com muito mais cuidado, se certificando de que as mensagens são entregues e as jornadas dos personagens nos digam alguma coisa importante sobre eles. Heroes não exatamente recupera o feeling de pertencimento que entregou na primeira temporada, em que convidava o espectador a compartilhar das decisões e destinos de pessoas marcadas como diferentes, mas que tinham muito de semelhante conosco, mas é possível sentir a mão cuidadosa dos roteiristas por trás da(s) história(s) contadas aqui.

O lado ruim é que, conforme a série se aventura cada vez mais longe na história desses super-heróis nada convencionais, e quanto mais ela revela sobre o passado dos nossos protagonistas e da geração que veio antes deles, Heroes se torna menos imediatamente assimilável nos aspectos dramáticos. Os poucos momentos de personagem que funcionam aqui se voltam para as relações “ordinárias” do grupo central de atores, especialmente o retrato dos relacionamentos entre pais-e-filhos, que conserva  alguma força na forma como se costura ao tema de sacríficos e arrependimentos que guia a segunda metade da temporada. A série também aprendeu a lição de não manter todos os heróis separados por muito tempo, e trata de interconectá-los de forma interessante durante a temporada, mesmo antes de juntar quase todos os protagonistas no final apoteótico. As motivações particulares de cada um deles, no entanto, seguem meio difusas por uma boa parte dos 25 episódios, especialmente as de Sylar, que passa por várias crises de identidade e sai de cada uma delas com objetivos mais confusos. No jogo perigoso entre maniqueísmo (no Volume 3, “Villains”) e relativismo (no Volume 4, “Fugitives”) do terceiro ano de Heroes, quem sai perdendo é o personagem de Zachary Quinto, que sempre caminhou na linha tênue entre as duas coisas.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Heroes – 4ª temporada (EUA, 2009-2010)
Direção: Jim Chory, Roxann Dawson, S.J. Clarkson, Allan Arkush, Adam Kane, Tucker Gates, etc
Roteiro: Tim Kring, Aron Eli Coleite, Joe Pokaski, Rob Fresco, Adam Armus, Kay Foster, Mark Verheiden, etc
Elenco: Jack Coleman, Greg Grunberg, Robert Knepper, Ali Larter, James Kyson, Masi Oka, Hayden Panettiere, Zachary Quinto, Milo Ventimiglia, Deanne Bray, Ray Park, Elizabeth Rohm
19 episódios

Robert Knepper é um dos character actors mais subestimados da televisão americana, e isso não é dizer pouco, visto que as séries são um verdadeiro celeiro desses artistas mal-apreciados. Chegando atrasado para a festa na quarta e última temporada de Heroes, Knepper interpreta o grande vilão da trama, o conflituoso Samuel, com um senso da sua humanidade e da terrível mesquinhez de seus motivos que não passou nem perto de qualquer um dos sempre magnânimos vilões anteriores da série. Ele vende, praticamente sozinho, um personagem e uma premissa que é colada descaradamente das histórias dos X-Men, e compõe a parte central do quarto ano de Heroes em companhia inesperada. Não se trata de uma das novas adições ao elenco, que deram o azar de chegar na trama quando esta já estava praticamente fadada ao cancelamento, e sim de uma velha conhecida: a Claire Bennet de Hayden Panettiere, cujo arco de amadurecimento e jornada de personagem se revela um dos mais bem-desenhados da série, rivalizando talvez só com as idas e vindas do destino de Hiro. A quarta temporada de Heroes é uma salada mista de acertos e erros, mas seus grandes trunfos são Panettiere e Masi Oka, que carregam seus personagens com a dignidade inquebrável de atores que não perdem a mão mesmo quando os roteiristas no comando forçam um pouco a paciência do espectador. Quando eles se envolvem na confusão toda em torno do grupo de artistas de circo que Samuel reúne a sua volta (todos dotados de poderes) e sua missão de trazer todos para uma mesma comunidade, eles adicionam elementos novos e interessantes à premissa, distraindo o espectador da caracterização do discurso de Samuel, feito à imagem e semelhança do de Magneto.

Não deixa de ser bacana, no entanto, que Heroes se mantenha fiel ao seu espírito de mostrar pessoas bem mais ordinárias que aquelas que vestem os uniformes da Marvel como portadoras de poderes inesperados. O Samuel, como escrito pela equipe de Heroes e feito por Robert Knepper, é bastante patético – em busca de um amor perdido que há muito superou o romance que tiveram anos atrás e construiu uma vida diferente; sedento por poder e pela supremacia tanto entre seus iguais quanto entre os humanos; ele é um vilão nada formidável, mas tremendamente disposto a causar confusão. Curiosamente, o mesmo princípio não se aplica à Sylar, que continua em sua sucessão de crises de identidade, amnésias e reconstruções de personagem, enquanto os roteiristas se afundam ainda mais na sua tentativa de monetizar o sucesso do personagem de um jeito todo errado: tentando torná-lo objeto de uma história de redenção e empatia. Zachary Quinto não sabe vender um personagem que se desculpa pela sua natureza, mesmo uma natureza tão terrível, e a série se encaminha para um beco sem saída ao nos lembrar o tempo inteiro das coisas desumanas que Sylar fez e da total falta de arrependimento e compaixão que ele demonstra. A busca de Sylar por redenção é totalmente egoísta, e por isso mesmo não funciona.

Por todos os seus defeitos, no entanto, o quarto ano de Heroes termina do jeito perfeito, com Claire olhando para as câmeras de diversas estações de TV e revelando o segredo das pessoas com habilidades para o mundo. Não só a série fecha assim uma “era”, encerrando a parte da narrativa em que nossos heróis e vilões tiveram que permanecer escondidos de tudo e de todos, como também dá a Claire a importância que fomos ditos que ela teria desde o começo – o criador Tim Kring, que assina o series finale, a faz repetir uma frase marcante da primeira temporada para nos lembrar que essa ainda não é uma história sem nenhum valor humano ou dramático, e de repente todo um novo sentido se abre para a frase “save the cheerleader, save the world”. É em cenas escritas e encenadas desse jeito que mora a esperança de que nem tudo está perdido para Heroes, e que Reborn pode surpreender muita gente.

✰✰✰ (3/5)

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