4 de out de 2015

Diário de filmes do mês: Setembro/2015

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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Caminhos da Floresta (Into the Woods, EUA/Inglaterra/Canadá, 2014)
Direção: Rob Marshall
Roteiro: James Lapine, baseado no musical de James Lapine & Stephen Sondheim
Elenco: Anna Kendrick, Daniel Huttlestone, James Corden, Emily Blunt, Christine Baranski, Tammy Blanchard, Lucy Punch, Tracey Ullman, Lila Crawford, Meryl Streep, Johnny Depp, Billy Magnussen, Chris Pine
125 minutos

Não dá pra subestimar a influência e a importância de Les Misérables quando um projeto como Caminhos da Floresta é lançado mesmo dois anos depois da adaptação musical da obra de Victor Hugo chegar aos cinemas. O sucesso acadêmico e comercial do filme estrelado por Hugh Jackman e Anne Hathaway mostrou que estava na hora de levar o renascimento dos musicais cinematográficos, iniciado lá atrás com Moulin Rouge! (2001), para um novo estágio. O diretor Rob Marshall, que tem background na Broadway, se aproveitou da boa recepção do musical sério e comprometido com o conceito de sing-through feito por Tom Hooper para fazer o seu primeiro filme cantado que não tem vergonha de ser um filme cantado. Tanto Chicago quanto Nine, com seus sets minimalistas e senso de espetáculo meio constrangido, foram exercícios interessantes de imaginação e contaram suas histórias com brilhantismo (guardadas as devidas proporções entre eles). Caminhos da Floresta se liberta desses constrangimentos e assume um tratamento visual mais teatral, uma forma de filmar que privilegia o movimento dos atores e os takes longos, e um roteiro que não tenta justificar porque os personagens estão o tempo todo cantando ao invés de conversar. Caminhos da Floresta, talvez por se localizar no mundo dos contos de fada, não sente a necessidade de dizer ao espectador que os números musicais estão acontecendo dentro da cabeça dos personagens, ou em um show de jazz – e há momentos preciosos, seja pela doçura, pelo cinismo ou pelo puro divertimento, para tirar desse comprometimento com o formato e com as particularidades dele.

Para começar, faz bem aos atores ter um diretor que trabalha a favor do espetáculo que eles podem prover, e não tentando limitá-lo. A câmera quase intrusiva de Marshall aqui, que segue seus personagens com insistência pela floresta densa que é o principal cenário da história, cria cenas bem-estruturadas e muitas vezes visualmente impressionantes, especialmente quando consegue observar a perfeitamente ensaiada conjunção de performances de vários atores participando de uma mesma canção – e sem cortes excessivos. A trama entrelaça vários contos de fadas, incluindo o garoto pobre Jack (Daniel Huttlestone, o garotinho de Les Misérables) e seu pé-de-feijão gigante; a inicialmente ingênua Chapeuzinho Vermelho (Lilla Crawford) e o malicioso Lobo Mau (Johnny Depp, bem melhor em dose pequena); a indecisa Cinderella (Anna Kendrick) e seu príncipe (Chris Pine, excelente) “criado para ser charmoso, não sincero”; e até a confinada Rapunzel (Mackenzie Mauzy), e sua carcereira que faz às vezes de mãe e vilã (a bruxa de Meryl Streep). Todas as histórias são costuradas através do conto de um padeiro (James Corden) e sua esposa (Emily Blunt), que precisam juntar itens mágicos para que a bruxa lhes conceda a recompensa de um filho.

É claro que Streep é o destaque do elenco, se divertindo à beça com o papel “devorador de cenários” que lhe é dado, e aos poucos deixando passar um pouco mais de profundidade emocional na construção da personagem. O filme é desenhado, inclusive, para que ela possa deixar seus colegas de elenco para trás, introduzindo esse assustador e divertido elemento de caos no meio da história, responsável em grande parte por conduzí-la e fazê-la funcionar. O mais bacana é que isso deixa gente como Emily Blunt, James Corden e Anna Kendrick mais à vontade para criar encarnações carismáticas e competentes de seus personagens, com destaque para a sempre excepcional Blunt, que causa a impressão mais duradoura ao traduzir as angústias de sua personagem da mesma forma madura e inteligente que o filme conduz a trama. Caminhos da Floresta, como o musical de palco que o inspirou, é um conto de relativismo moral obstinado, que brinca com temas sombrios mas em última instância é sobre a enredada teia de razões e enganos da qual é formada a própria vida, esse eterno passeio pela densa e emaranhada floresta de sentimentos conflitantes e convicções vacilantes que existe dentro de cada um de nós.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Exorcistas do Vaticano (The Vatican Tapes, EUA, 2015)
Direção: Mark Neveldine
Roteiro: Christopher Borrelli, Michael C. Martin
Elenco: Olivia Taylor Dudley, Dougray Scott, John Patrick Amedori, Djimon Hounsou, Michael Peña, Peter Andersson, Alison Lohman
91 minutos

De todos os clichês do gênero terror, poucos são mais difíceis de acertar que o filme de exorcismo. Talvez pela sombra enorme do clássico O Exorcista de 1973, talvez pelas milhares de repetições meia-boca da trama básica daquele filme que foram realizadas à exaustão por Hollywood, o filme de exorcismo precisa se esforçar mais que a maioria dos outros para encontrar um nicho de originalidade e competência. Um bom diretor ajuda, com ideias visuais interessantes e o toque de Midas para acertar no tom, como o razoável Livrai-Nos do Mal, do ano passado, provou. Ao contrário de Scott Derrickson, diretor daquele filme e de outros bons filmes de terror desse século (A Entidade, O Exorcismo de Emily Rose), Mark Neveldine, que comanda esse Exorcistas do Vaticano, não é um cineasta com mão segura ou experiência no gênero. Pelo contrário, o currículo anterior do nova-iorquino se limita a colaborações com Brian Taylor em filmes como os dois Adrenalina, Gamer e Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança, títulos de ação estilosos, mas com pouca ou nenhuma substância. O resultado do comando de Neveldine aqui é que as pouquíssimas boas ideias visuais são diluídas em meio a uma mistura de técnicas de filmagem mal-equilibradas (o filme não se compromete com a proposta de filmar de câmeras “caseiras” operadas pelos personagens, mas quer usar esse recurso sempre que é conveniente), além de deixar evidente a capacidade praticamente nula de criar atmosfera de suspense. Não é de se surpreender: nas suas colaborações com Taylor, Neveldine nunca se mostrou um cineasta sutil, e poucas coisas são mais importantes no cinema de terror do que acertar nos detalhes que tornam a ambientação da trama mais convincente.

Olivia Taylor Dudley, que esteve em Transcendence e Chernobyl: Sinta a Radiação, interpreta a possuída da vez, a pobre Angela, que começa a se sentir estranha quando o pai militar (Dougray Scott) vem visitá-la para seu aniversário, na casa que ela divide com o namorado (John Patrick Amedori). O que se segue no roteiro assinado por Christopher Borrelli (Reféns do Mal) e Michael C. Martin (Atraídos Pelo Crime) é uma trama convoluta no pior sentido da palavra, que joga seus personagens de um lado para o outro tentando tão desesperadamente afirmar sua originalidade que se esquece de montar uma linha narrativa convincente pelo caminho. Dudley se esforça para entregar uma atuação convincente, e certos momentos de inspiração da direção de Neveldine exploram bem o rosto e o corpo da atriz, que não pode ser culpada pelo desastre de filme em que se encontra. O fato, no entanto, é que a reviravolta final de Exorcistas do Vaticano, ainda que atice o espectador para uma possível continuação, não o redime pela bagunça cinematográfica que formou seus dois primeiros atos, pelo pouco investimento nos personagens coadjuvantes, ou pela notável timidez dos momentos sangrentos. Quando um filme de terror não entrega nem o básico, não dá para esperar que entregue o adicional.

✰ (1/5)

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Sem Segurança Nenhuma (Safety Not Guaranteed, EUA, 2012)
Direção: Colin Trevorrow
Roteiro: Derek Connolly
Elenco: Aubrey Plaza, Jake Johnson, Karan Soni, Mark Duplass, Jeff Garlin, Mary Lynn Rajskub, Kristen Bell
86 minutos

Depois do sucesso mastodôntico de Jurassic World, o americano Colin Trevorrow se tornou um dos “cineastas do futuro” mais badalados de Hollywood. As muitas objeções críticas ao filme dos dinossauros, no entanto, fazem tremer os cinéfilos mundo afora, especialmente depois de Trevorrow ser anunciado como o diretor de um dos filmes da nova trilogia Star Wars, que começa esse ano sob o comando de J.J. Abrams. Sem Segurança Nenhuma é o filme certo para acalmar os ânimos dos críticos mais calorosos do trabalho de Trevorrow: mostra que o diretor trabalha bem, de forma sensível e acessível, quando tem em mãos um bom roteiro; e que não fica perdido ao lidar com um tratamento esperto da ficção científica. Apesar da premissa aparentemente fantasiosa, com um trio de jornalistas (Aubrey Plaza, Jake Johnson, Karan Soni) tentando desvendar o mistério por trás de um anúncio dos classificados pedindo por um companheiro para viagem no tempo, Sem Segurança Nenhuma é na verdade uma esperta e brilhante exploração da forma como as percepções sociais afetam nossa navegação como seres humanos no mundo, e nossas relações com outras pessoas. Esbarra por vezes na dramédia ou na comédia romântica, usa e abusa de algumas figuras e temas batidos desses gêneros, mas mantem em si uma sensação muito real de originalidade narrativa. O elemento de ficção científica é abordado com bom humor e reverência, fazendo da dúvida do espectador o trunfo da trama e muito habilmente nos manipulando para vermos através dos olhos em transformação da personagem de Plaza o empreendimento aparentemente insano no qual Kenneth (Mark Duplass) está metido.

O personagem do estranhamente charmoso Duplass, inclusive, pode muito bem ser lido como uma versão masculina daquele velho clichê da manic pixie dream girl. Dessa vez, é o personagem masculino que entra em cena e transforma a vida marcada por uma nuvem carregada de depressão da personagem feminina, e não o contrário. É bacana o quanto o roteiro assinado pelo estreante Derek Connolly confia em Plaza, e na sua interpretação da cínica Darius, para se identificar com o espectador, e o quanto dá a Kenneth a função de nos fazer olhar para os acontecimentos, e para as relações e dramas dos outros personagens, com outros olhos. Sem Segurança Nenhuma é carregado de humanidade mesmo na forma como trata os clichês dos gêneros que explora – a coadjuvante nerd virgem ganha o afeto do espectador, o chefe cafajeste incorrigível e preconceituoso vê o outro lado da moeda e sofre na pele as consequências das concepções arbitrárias que as pessoas tem dele. Apesar de ter muitos diálogos, o filme milagrosamente não é verborrágico ou dependente deles, preferindo criar uma teia de personagens tridimensionais que se cruzam em uma misteriosa, sutil, divertida e esperta trama sobre arrependimentos, impossibilidades e afetos. Em suma, com Sem Segurança Nenhuma, Trevorrow mostra que sabe fazer cinema de verdade.

✰✰✰✰ (4/5)

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Goonight Mommy (Ich Seh Ich Seh, Áustria, 2014)
Direção e roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Susanne Wuest, Lukas Schwarz, Elias Schwarz, Hans Escher
99 minutos

Filmes de terror sobre maternidade e relações familiares em geral não são nenhuma novidade. Desde a invenção do gênero, autores e diretores descobriram que nós, pobres seres humanos, trememos com a noção de que nossa relação com aqueles mais próximos de nós (biologicamente, pelo menos) possa tomar a direção sombria que algumas vezes ameaça tomar. Há uma quantidade de ressentimento e ambiguidade enorme no relacionamento de alguém com sua família, e isso só fica mais evidente quando filmes como o enervante Goodnight Mommy focam especificamente na dinâmica entre mãe-e-filho. Para apresentar um exemplar mais recente, o brilhante The Babadook manipulou as emoções do espectador no sentido de gerar uma representação física, e aterrorizante, dos sentimentos mais cruéis profundamente enterrados dos personagens em tela, uma mãe e um filho lidando de suas formas particulares com a perda da figura paterna da casa. Aquele filme, assinado por Jennifer Kent, é um estudo profundo e genial sobre o funcionamento do luto e dos sentimentos terríveis que os adultos precisam esconder das crianças que estão sob seus cuidados. A reflexão de Goodnight Mommy não é tão explícita – de forma típica do cinema do Leste europeu (o filme vem da Áustria), os cineastas/roteiristas Severin Fiala e Veronika Franz criam um thriller sugestivo e sutil, que passeia por uma trama labiríntica de forma confortável mas, mesmo assim, encontra o caminho perfeito para a ferida mais incômoda do espectador.

O filme começa, se desenrola e termina dentro e nos arredores de uma casa de traços frios e modernistas num campo isolado, perto de uma plantação de milho. Lá vive uma âncora de televisão local (Susanne Wuest), que acaba de voltar para casa após sofrer extensiva cirurgia plástica por uma razão que não nos é revelada. Ela é mãe de meninos gêmeos (Lukas e Elias Schwarz, que dividem seus nomes com seus personagens), mas eles não reconhecem a mulher que volta para casa depois do procedimento médico como sua progenitora. O filme toma vários desvios de caminho a partir dessa premissa básica, mexendo com os sentidos do espectador e usando de forma espetacular a fotografia (um trabalho digno de galerias de arte de Martin Gschlacht), o design de som e as atuações de seu diminuto elenco para criar uma atmosfera estranha e uma narrativa quase sensitiva, que parece navegar por mares de sentimentos e presunções sem fazer tanto esforço quanto estamos acostumados a ver roteiristas e diretores fazerem. As duas reviravoltas do terceiro ato do filme são aplicadas com maestria pelo casal de cineastas, e Goodnight Mommy se concretiza como uma análise inteligente e extraordinariamente efetiva (embora tremendamente triste) da negligência e egoísmo que tantas vezes pautam as nossas reações ao mundo e àqueles que nos cercam -  mesmo que eles sejam nossos filhos, ou nossas mães.

✰✰✰✰ (4/5)

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Sentença de Morte (Kill for Me, Canadá, 2013)
Direção: Michael Greenspan
Roteiro: Christopher Dodd, Michael Greenspan, Christian Forte
Elenco: Katie Cassidy, Tracy Spiridakos, Donal Logue, Adam DiMarco, Shannon Chan-Kent, Torrance Coombs
95 minutos 

Lançado direto para vídeo em 2013 e acomodadíssimo no Netflix pouco tempo depois, Sentença de Morte tem todo o perfil de um thriller descartável com orçamento nulo, sem muita criatividade e um elenco de pouco destaque. Em grande parte, é isso mesmo que o filme de Michael Greenspan apresenta, mas o espectador casual que acabar topando com o suspense estrelado por Katie Cassidy (Arrow) e Tracy Spiridakos (Revolution) pode ter algumas surpresas pelo caminho, se realmente se envolver com a história e o clima do filme. A trama acompanha Amanda (Cassidy), que depois do desaparecimento da melhor amiga, presumidamente sequestrada ou assassinada, conhece a nova colega de quarto, Hayley (Spiridakos). A personalidade misteriosa da moça recém-chegada logo se revela, quando tanto Amanda quanto Hayley precisam lidar com homens abusivos e violentos de suas vidas. O roteiro aplica algumas reviravoltas a esse revenge thriller perturbador, que trata com pouco cuidado de um tema tão espinhoso quanto violência de gênero, mas ainda mantem uma visão clara o bastante da situação para nos apresentar a conclusão certa no final de seus 95 minutos. De certa forma, o filme de Greenspan (Armadilha do Destino) é uma subversão esperta de ideias, que brinca com clichês do gênero e com a percepção do espectador para temperar sua trama com um mistério que se desenrola de forma surpreendentemente simples no final. É um filme engenhoso, mesmo que não seja exatamente um ótimo filme.

As marcas da produção direto-para-vídeo ficam claras na direção burocrática, na atuação apenas eficiente (nunca espetacular, mesmo com um character actor bacana como Donal Logue em cena) e no pouquíssimo cuidado com elementos como fotografia, trilha-sonora ou edição, processos que poderiam carregar o filme de mais significado do que ele tem, da forma como foi feito. Sentença de Morte, tradução péssima de um título original que já não era exatamente evocativo ou inspirado, é um passatempo surpreendentemente pensante e interessante, mas principalmente porque as expectativas ao redor dele eram terrivelmente baixas. Como pedaço de storytelling, não é uma atrocidade; como entretenimento, quebra o galho de um domingo a noite sem muito esforço; como cinema, no entanto, não apresenta nada que o destaque em meio ao mar de produções estanques e industrializadas do multimilionário (é serio) setor de home video americano.

✰✰✰ (3/5)

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