12 de out de 2015

Mutant and proud: Um ranking dos 9 filmes dos X-Men da Fox, do pior ao melhor

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por Caio Coletti

No último dia 18 de Agosto, o lançamento de X-Men: O Filme no Brasil completou 15 anos. Reconhecido como marco do cinema de quadrinhos do século XXI, o filme inicial de Bryan Singer, que vinha com reputação limitada a obras indie como Os Suspeitos e O Aprendiz, deu início não só à mania e à sequencia de adaptações bem-sucedidas de personagens da Marvel (com um ou outro fracasso aqui e ali), como também a uma série cinematográfica que hoje ostenta respeitáveis 9 títulos. Vale a pena revisar os trancos e barrancos através dos quais a 20th Century Fox segurou os direitos do supergrupo de mutantes consigo mesmo depois do surgimento da Marvel Studios como o gigante do cinema que é hoje.

Cronologicamente, a sequência é a seguinte: X-Men – O Filme (2000), X-Men 2 (2003), X-Men: O Confronto Final (2006), X-Men Origens: Wolverine (2009), X-Men: Primeira Classe (2011), Wolverine: Imortal (2013) e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), Deadpool (2016) e X-Men: Apocalipse (2016). Para essa nossa retrospectiva, no entanto, resolvemos tomar um caminho diferente, e rankeamos todos os filmes de acordo com a nossa opinião da qualidade deles, começando do pior. Nada como salvar o melhor para o final, não é?

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9.
X-Men Origens: Wolverine
(X-Men Origins: Wolverine, EUA/Inglaterra, 2009)
Direção: Gavin Hood
Roteiro: David Benioff, Skip Woods
Elenco: Hugh Jackman, Liev Schreiber, Danny Huston, Will.i.am, Lynn Collins, Devin Durand, Dominic Monaghan, Taylor Kitsch, Ryan Reynolds, Troye Sivan, Patrick Stewart
107 minutos

Boatos dão conta que David Benioff (Game of Thrones) escreveu a primeira versão de X-Men Origens: Wolverine com uma história e uma elaboração muito mais sombria e meditativa do que a vemos em tela no filme assinado por Gavin Hood (O Jogo do Exterminador). Uma pena, portanto, que na altura de 2009 os executivos da 20th Century Fox estavam muito mais no comando da franquia do que qualquer diretor ou roteirista poderia, e que o filme planejado não tenha visto a luz do dia. Ao invés disso, o estúdio chamou Skip Woods (Swordfish) para repaginar o script, deixando como resultado uma colcha de retalhos que tenta se prender à história de origem de seu protagonista e acertar as múltiplas introduções a novos mutantes que aparecem, mas erra e muito ao deixar de lado a discussão ideológica que é marca dos filmes dos X-Men e colocar no lugar dela uma psicologização batida e pouco penetrante do Wolverine. Há quem diga que o personagem funciona melhor como um enigma, e por isso Origens é um descrédito a ele, mas a verdade é que uma história de origens bem contada, original e esperta, como provavelmente seria a imaginada por Benioff, não lhe faria mal. No mínimo, daria mais direção à atuação de Hugh Jackman, que se recusa a decolar aqui apesar da familiaridade com o personagem – é difícil levar no carisma e na linguagem corporal um personagem que é escrito de forma tão rasa e tão pouco imaginativa pelo roteiro. O Wolverine de Origens não tem nada do Wolverine que conhecemos nos filmes anteriores dos X-Men, e talvez esse seja o grande pecado do filme feito em 2009.

Dito isso, o diretor Hood e seus comparsas criativos mantiveram algumas cartas na manga mesmo quando o estúdio tomou controle da direção em que a franquia deveria ir. A escalação do elenco, por exemplo, é quase toda primorosa: Liev Schreiber se diverte à beça como um Sabertooth muito mais humanizado que aquele feito por Tyler Mane no primeiro filme de 2000, embora mantenha o comportamento animalesco e a verve maligna de um vilão nada ambíguo; Taylor Kitsch tem o tipo de charme certo para ser o Gambit, mesmo que o filme não lhe dê muito tempo para desenvolver o personagem além dos supostamente impressionantes poderes que lhes são particulares; e embora preso nos limites entediantes de um Coronel Stryker muito menos convincente que aquele de X2, Danny Huston é sempre um prazer de se assistir. Origens acompanha o mutante canadense em uma trama convoluta que começa na descoberta de seus poderes e termina no momento, depois de ter adamantium injetado no esqueleto, em que ele perde a memória. As reviravoltas e cenas de ação de uma ponta a outra conseguem se manter completamente esquecíveis, formando um inofensivo blockbuster para um personagem que, de inofensivo, não tem nada.

✰✰✰ (2,5/5)

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8.
X-Men: O Confronto Final
(Canadá/EUA/Inglaterra, 2006)
Direção: Brett Ratner
Roteiro: Simon Kinberg, Zak Penn
Elenco: Hugh Jackman, Halle Berry, Ian McKellen, Patrick Stewart, Famke Janssen, Anna Paquin, Kelsey Grammer, James Marsden, Rebecca Romijn, Shawn Ashmore, Aaron Stanford, Vinnie Jones, Ellen Page, Daniel Cudmore, Ben Foster
104 minutos

Quando o diretor Bryan Singer anunciou que não iria dirigir o novo filme dos X-Men para se concentrar em Superman – O Retorno, o pânico foi generalizado. O diretor de Os Suspeitos, afinal, tinha sido a fundação essencial para que os dois filmes anteriores funcionassem como funcionaram, tanto com a crítica quanto com o público, e a memória do espetacular X2 ainda vivia forte entre os cada vez mais numerosos fãs de filmes de super-heróis. A Fox, em resposta, chamou Brett Ratner, conhecido pela mão leve em blockbusters como A Hora do Rush e Dragão Vermelho, geralmente acertando bem o tom dos filmes que completa sem, no entanto, lançar mão de grandes arroubos visuais, estilísticos ou narrativos. Em suma, Ratner foi contratado porque era (e ainda é, largamente) um diretor competente sem personalidade, e é aí que começou o erro da Fox com a franquia que tinha em mãos. A verdade é que X-Men não comporta um diretor sem personalidade, porque seus temas e discussões são naturalmente impositivos no sentido narrativo, e uma direção no piloto automático só funciona na mais superficial das camadas da aventura sci-fi que é O Confronto Final. Confiante no potencial mercadológico dos mutantes, a Fox decidiu que os roteiristas Simon Kinberg (Sherlock Holmes) e Zak Penn (O Incrível Hulk) teriam como missão prioritária introduzir o maior número de novos mutantes possível, e resolver os problemas orçamentários de possíveis futuros filmes dos mutantes ao diminuir consideravelmente o número de personagens advindos dos filmes anteriores. A Fox não queria bancar todos os astros cada vez mais caros do elenco original, e caso tivesse dado certo, O Confronto Final seria uma mão na roda para o estúdio – é claro, não foi bem assim.

O filme combina elementos de duas sagas dos quadrinhos: a que trata da ressurreição de Jean Grey (Famke Janssen) como a Fênix; e a que narra os efeitos da descoberta de um mutante (Cameron Bright) capaz de cancelar os poderes dos outros, e cooptado pelo governo como a “cura” para o mal do gene X. Ratner e cia. apertam essas duas tramas fatídicas para o destino dos nossos heróis em apressados 104 minutos, mas impressionantemente arranjam espaço (e tempo) para incluir storylines que levam literalmente a lugar nenhum (notadamente a introdução de Angel, feito por um desperdiçado Ben Foster) e trocam os takes inteligentes de Singer na direção por cortes gratuitos para mutantes desconhecidos mostrando a extensão de seus poderes. O instinto de Ratner como cineasta é “dar ao público o que ele quer”, e pouco mais além disso – e o resultado é um filme que não ajuda seus atores a construir os personagens (mesmo assim, Famke Janssen faz um trabalho impressionante), jamais ultrapassa as formas mais rasas de discussão sobre as metáforas das histórias do mutantes, e entrega cenas de ação impressionantes, mas eventualmente esquecíveis. O Confronto Final, em suma, é tudo o que aprendemos a odiar nos mais inócuos blockbusters hollywoodianos, em uma série que sempre se esforçou para ser o contrário deles.

✰✰✰ (3/5)

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7.
Wolverine: Imortal
(EUA/Inglaterra/Austrália/Japão, 2013)
Direção: James Mangold
Roteiro: Mark Bomback, Scott Frank
Elenco: Hugh Jackman, Tao Okamoto, Rila Fukushima, Hiroyuki Sanada, Svetlana Khodchenkova, Famke Janssen, Ian McKellen, Patrick Stewart
138 minutos

Na tentativa de redimir toda a construção errada que guiou Origens em 2009, e de olho no bom resultado que Primeira Classe fez em 2011 ao trazer uma equipe nova e talentosa para o time de criação, a Fox apostou na dupla de roteiristas Mark Bomback (Duro de Matar 4.0) e Scott Frank (Minority Report) para adaptar a saga dos quadrinhos em que logan visita o Japão e encontra mais do que uma lembrança antiga por lá. O resultado foi Wolverine: Imortal, o filme da franquia que mais notavelmente se sustenta sem o apoio dos que o precederam, e também o mais discordante de tom e abordagem de personagem. De certa forma, é refrescante ver que Bomback e Frank vêem Wolverine como um herói de western das antigas, uma releitura do Estranho Sem Nome de Clint Eastwood, e aplicam esse estado de espírito em um filme que o insere em um contexto cultural novo, além de abusar da oportunidade para mostrar nosso herói passando por um processo de culpa e pesar pela morte de Jean Grey, que aparece em sonhos (de novo encarnada por Famke Janssen) para assombrá-lo. Por outro lado, o que ocorre é que Imortal herda também do faroeste americano todos os vícios e equívocos particulares a um exemplar típico do gênero, o que significa que sua atitude em relação às personagens femininas é terrível (ou são víboras – literalmente –, ou acessórios para a jornada do herói), e a imagem de Wolvie aparece muito mais petulante e menos identificável do que em filmes anteriores.

O filme é, portanto, uma salada mista. Jackman está na melhor forma física que já apresentou na pele do personagem, e navega pelos sentimentos mais sombrios do roteiro com perícia, modulando Logan para que entendamos e nos envolvamos com sua jornada de personagem. Todos os coadjuvantes, no entanto, são meras sombras que o seguem, sem um arco de desenvolvimento significativo ou algo além de carisma superficial (que é o que a Yukio da estreante Rila Fukushima, mais tarde escalada em Arrow, tem de sobra). Imortal faz um favor a si mesmo ao não tentar tocar nos mesmos temas dos outros filmes dos X-Men, se localizando bem como a jornada isolada de um personagem passando por um processo de descobrimento e reestruturação após uma tragédia. A fraquíssima trama romântica que ensaia entre Wolverine e Mariko (a bela e delicada – até demais – Tao Okamoto), no entanto, não se faz registrar como nada além de uma exigência estúpida do estúdio, que não conseguia visualizar um filme do “garanhão” feito por Jackman sem um par romântico. James Mangold (Garota, Interrompida) tem o olho certo para ação e cria sequências cinéticas e visualmente criativas, mas não é cineasta o bastante para fazer milagres com os defeitos do roteiro. Ele está atrelado ao terceiro (e ostensivamente último) filme do Wolverine, marcado para 2017.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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6.
X-Men: O Filme
(X-Men, EUA, 2000)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: David Hayter
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn, Bruce Davison, Shawn Ashmore
104 minutos

Revendo o primeiro X-Men agora, à luz das dezenas de filmes de super-heróis baseados em quadrinhos (ou não) que o seguiram, a obra que Bryan Singer lançou em 2000 parece um filme tímido. Seu envolvimento com a mitologia é mínimo, desvendando para o espectador apenas os pedaços absolutamente essenciais para o arranjo da trama; suas cenas de ação são restritivas, embora mantenham ainda hoje muito do charme e da eficiência que levou o público a lotar as salas de cinema; sua caracterização dos personagens é muito mais absoluta e “rabiscada” do que estamos acostumados a ver nos filmes de origem de hoje em dia. É preciso levar em conta, no entanto, que X-Men chegou aos cinemas numa época em que não haviam grandes filmes de super-heróis no circuito, e que a modesta metragem do filme (104 minutos) exige que Singer e o roteirista David Hayter (Watchmen) espremam várias definições de universo e personagem na mesma ágil narrativa, o que explica pelo menos em parte os contornos largos dados a figuras que seriam mais desenvolvidas no futuro. O bônus é que pudemos ver Ian McKellen devorando cenários como um Magneto muito mais megalomaníaco e cheio de autoridade do que o que esteve nos outros filmes, que analisaram mais de perto da relação cheia de ambiguidades e contradições entre ele o Charles Xavier feito pelo sempre imponente Patrick Stewart. O primeiro X-Men, como todos os dirigidos por Singer, entende que a história do confronto entre esses dois líderes é uma história sobre preconceito e as reações que ele causa – a diferença desse para os outros filmes feitos por Singer é que não há muito tempo para desenvolver a relativização das ações do “vilão” e do “mocinho” da trama.

O clima de dinamismo do roteiro não atrapalha a direção sempre compenetrada e cuidadosa de Singer, no entanto. X-Men é um filme brilhantemente encenado, com direção de atores primorosa que os faz encarnar os personagens da forma mais completa possível, aproveitando bem os poucos minutos de tela que muitos deles ganham. Stewart e McKellen brilham mais porque estão no centro da discussão moral da trama, e por isso ganham diálogos mais “substanciais”, mas o elenco todo é essencial para que a introdução aos mutantes funcione da forma ágil como foi concebida aqui. Hugh Jackman, Halle Berry, Famke Janssen, Anna Paquin e Rebecca Romijn marcaram tanto seus respectivos personagens que a série precisou introduzir um elemento de viagem temporal para justificar a escalação de outros atores para viver os mesmos personagens. Sem o impacto conceitual e narrativo de seu sucessor, mas anos-luz à frente de alguns dos outros filmes que se seguiram, X-Men foi um começo auspicioso para a franquia, e deve ser saudado como um marco histórico no gênero que fez popular.

✰✰✰✰ (4/5)

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5.
Deadpool
(EUA/Canadá, 2016)
Direção: Tim Miller
Roteiro: Rhett Reese & Paul Wernick
Elenco: Ryan Reynolds, Karan Soni, Ed Skrein, T.J. Miller, Morena Baccarin, Gina Carano, Leslie Uggams
108 minutos

Há uma parte obscura do fandom dos filmes de heróis que adorou Deadpool, e o levou a um sucesso imenso de mais de US$700 milhões no mundo todo, por todas as razões erradas. Celebrado por ser “politicamente incorreto” e “metalinguístico”,Deadpool é um empreendimento bem mais complexo do que o que se diz dele faz parecer. A incorreção política de seu protagonista não existe aqui como uma virtude, e sim como uma parte de sua natureza cínica que coloca o “anti-“ em sua denominação de “anti-herói”. Deadpool é constantemente engraçado, e apenas em alguns momentos ofensivo – e esses momentos são menos tropeços de roteiro e mais caracterização intencional. Deadpool não quer que torçamos por seu herói da forma como torcemos pelos X-Men; o mundo que o filme apresenta é mais sujo, mais niilista e mais banal, que se leva muito menos a sério. Um adjetivo que os adoradores do mercenário parecem ter acertado é “inovador”, porque de fato Deapool quebra convenções e tons com muito mais abandono do que os filmes de super-heróis discretamente subversivos que foram feitos no último par de anos. A metalinguagem e a conversa com o público faz parte dessa inovação, assim como os pulos temporais que criam uma trama que parece muito mais complexa do que realmente é. Uma história de origem, vingança e paixão bem convencional com algumas brincadeiras estruturais ainda pode criar um belo pedaço de cinema e narrativa, ao que parece.

Dizer que Reynolds “nasceu” para o papel é subestimar o seu trabalho tanto aqui quanto em outros cantos da carreira. O ator já mostrou por A+B que encara personagens diferentes e interessantes com a cara e a coragem, e mesmo que Deadpool o coloque em território mais familiar com seu humor rápido e ácido, o ator canadense se faz também uma rocha de humanidade sobre a qual o filme pode apoiar sua narrativa e seus malabarismos cômicos. Deadpool é um filme que quer funcionar em dois níveis: primeiro, uma envolvente história de origem que coloca seu protagonista como um homem desesperado que, compreensivelmente, quer vingança pela forma como alguns se aproveitaram desse desespero; segundo, uma enorme zoação conceitual em cima do gênero de super-heróis, da sua retidão moral, da sua “seriedade”. Deadpool tem muito a dizer, mas não quer gritar a plenos pulmões – existe nas entrelinhas, enquanto faz o espectador rir na superfície.

✰✰✰✰ (4/5)

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4.
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido
(X-Men: Days of Future Past, EUA/Inglaterra, 2014)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hoult, Anna Paquin, Ellen Page, Peter Dinklage, Shawn Ashmore, Omar Sy, Evan Peters, Josh Helman, Daniel Cudmore, Bingbing Fan, Ian McKellen, Patrick Stewart, Famke Janssen, James Marsden, Lucas Till, Kelsey Grammer
149 minutos

Além de marcar o retorno de Bryan Singer para a franquia depois de experiência com a DC (Superman – O Retorno) e com Tom Cruise (Valkyrie), Dias de Um Futuro Esquecido é, em muitos sentidos, um “filme de correção”. Não só correção de curso por praticamente desfazer, com seus paradoxos temporais, todos os acontecimentos de O Confronto Final, mas correção também por deixar clara a ponte entre os personagens que acompanhamos na trilogia original e os que iremos acompanhar a partir de agora, na continuação da timeline iniciada em Primeira Classe. Ocupado com todas essas elaborações, o roteiro de Simon Kinberg, mesmo com 2h30 de metragem em mãos, não tem tempo para equilibrar cenas de ação, introdução de uma mão cheia de novos personagens, construção emocional de arcos coerentes para os que já conhecíamos, e elaboração temática. Naturalmente, é esse último aspecto que sai perdendo, ainda que Dias de Um Futuro Esquecido se preocupe muito mais com suas ideologias e ambiguidades do que qualquer dos filmes que o precedem nessa lista. O embate entre Magneto e Charles na storyline passada nos anos 70, em contraste com a madura relação apresentada entre as versões mais velhas dos personagens, traz uma perspectiva valiosa ao relacionamento de trégua dentro da discordância que caracteriza esses dois líderes, às suas maneiras, de uma mesma fatia oprimida da humanidade. Se há algo que Dias de um Futuro Esquecido faz melhor que seus companheiros de franquia, portanto, é nos mostrar o que há de mais humano nos mutantes.

A combinação do elenco antigo com o novo também é de arrepiar. James Mcavoy se aproveita das generosas doses de conflito que o roteiro entrega para seu Xavier e constrói uma atuação que não se afasta da veia dinâmica que ele encontrou em Primeira Classe, mas sem dúvida nos leva mais fundo nesse personagem que começou a ser construído pelo gigante Stewart, é claro, mas que encontrou em McAvoy o intérprete certo para se tornar o centro nervoso da franquia. Xavier é um Messias falho, quase um anti-herói, e o roteiro não tem vergonha de nos mostrar que sua infância de privilégios, embora não mude o fato de que se trata de um ser humano tremendamente compassivo e empático, o fez também imune para a revolta e a indignação profunda que recorre em Magneto e seus aliados, mesmo os mais questionadores como Mística. Por falar nela, Jennifer Lawrence toma conta do personagem aqui, se sentindo confortável na pele de Raven e trazendo bagagem emocional e um elemento de imprevisibilidade para o filme – exatamente como a personagem fazia nos quadrinhos. Em meio a Fassbender, Jackman, Stewart, McKellen, Nicholas Hoult e companhia, o Mercúrio bem-humorado de Evan Peters (American Horror Story) é quase uma nota de rodapé. E quando um filme pode deixar um personagem carismático como o construído por Peters nessa posição, tal filme certamente não deve ser subestimado.

✰✰✰✰ (4/5)

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3.
X-Men: Primeira Classe
(X-Men: First Class, EUA/Inglaterra, 2011)
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Matthew Vaughn
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Kevin Bacon, Rose Byrne, Jennifer Lawrence, Oliver Platt, Jason Flemyng, Zoë Kravitz, January Jones, Nicholas Hoult, Caleb Landry Jones, Lucas Till, Matt Craven, Hugh Jackman, Rebecca Romijn
132 minutos

Ambientado nos anos 1960 e com uma reconstituição de época esperta que privilegia o ambiente político, Primeira Classe é o elemento divergente dentro do “padrão” da série dos X-Men no cinema. Não por acaso, é também o filme que resgatou a franquia da desgraça crítica (e até comercial) que recaiu sobre O Confronto Final e Origens: Wolverine, e o fez ao renovar o time criativo por trás da série e apostar em um autor/diretor cheio de personalidade. O britânico Matthew Vaughn já foi parceiro de Guy Ritchie (Sherlock Holmes), mas desde a estreia na direção em 2004, com o filme de gângster Nem Tudo é o Que Parece, se mostrou um habilidoso estilista cinematográfico, criando aventuras divertidas e refrescantes em cima de padrões cansados. Aqui, ele e os parceiros de roteiro Ashley Miller e Zack Stentz (Thor), além da frequente colaboradora Jane Goldman (Stardust), tecem uma descomplicada história emocional das origens dos líderes mutantes que conhecemos nos filmes anteriores. Magneto e Professor X são só Erik Lensherr e Charles Xavier aqui, e a escalação de Michael Fassbender e James McAvoy, mostrando insuspeita química, é o primeiro de muitos golpes geniais dados por Vaughn e sua equipe. Ao contrário de Origens: Wolverine, a volta no tempo de Primeira Classe não vem para descaracterizar personagens e jogar aparições especiais no ar para “agradar” (com muitas aspas) os fãs – nesse filme de 2011, os limites da série que o precedeu são respeitados, e a condução é mais discreta, procurando (e encontrando) propósito emocional e temático em mostrar o começo da relação entre Charles e Erik, e entre os mutantes e o governo/a sociedade.

O clímax envolvendo a crise dos mísseis em Cuba e toda a elaboração histórica acerca da Guerra Fria são ao mesmo tempo divertidos (no sentido que dão um twist de ficção a acontecimentos reais, incluindo-os no universo dos mutantes) e inteligentes, se conectando com o tema de preconceito e medo do “outro”, aprofundado aqui pela inclusão de personagens mais diversos racialmente. O roteiro pega pesado ao mostrar que os personagens que são parte de uma minoria ou de um grupo oprimido, entre eles a latina Angel (Zoe Kravitz), veem de forma diferente o embate entre humanos e mutantes que parece latente quando o governo começa a reunir todos os portadores do gene X conhecidos. O arco de personagem de Magneto é impressionante, e ao mesmo tempo desenhado de forma muito natural pelo roteiro, e o filme se conecta com elegância às características dos personagens que conhecemos na saga anterior. Vaughn conseguiu fazer um filme personalíssimo que se encaixa como uma luva, ao mesmo tempo, em uma grande franquia comercial de Hollywood. Não é missão para qualquer um, especialmente dentro de uma história com temas tão espinhosos e importantes quanto a dos X-Men – mas o britânico tira de letra.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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2.
X-Men 2
(X2, Canadá/EUA, 2003)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Michael Dougherty, Dan Harris, David Hayter
Elenco: Patrick Stewart, Hugh Jackman, Ian McKellen, Halle Berry, Famke Janssen, James Marsden, Anna Paquin, Rebecca Romijn, Brian Cox, Alan Cumming, Bruce Davison, Aaron Stanford, Shawn Ashmore, Kelly Hu, Daniel Cudmore
134 minutos

A cena de abertura de X-Men 2 é uma obra-prima. Estabelecendo suspense e seu cenário em uns poucos takes, Bryan Singer procede em nos guiar pela inicialmente quieta infiltração de um mutante no gabinete do presidente dos EUA, e o ataque perpetrado por ele, que quase mata o comandante-em-chefe do país. O diretor não se rende ao frenesi em nenhum momento, mostrando o mínimo possível do invasor até o clímax da cena, passeando de forma organizada, elegante e genial pelo trajeto traçado pelos poderes de teletransporte do mutante, e entregando uma pérola de tensão e adrenalina. X-Men 2 começa com uma nota alta, e não deixa a bola abaixar a partir daí, navegando brilhantemente o roteiro assinado pelo autor do primeiro filme, David Hayter, em parceria com Michael Dougherty (Contos do Dia das Bruxas) e Dan Harris (Superman – O Retorno). Os três escritores acertam em cheio não só ao aprofundar as discussões contidas timidamente no primeiro filme, mas em introduzir pathos aos personagens, especialmente ao desvendar um pouco do passado de Wolverine (muito antes de Origens estragar toda essa premissa) e forjar uma relação mais crível e intensa entre os outros membros do grupo de personagens principais. A Tempestade de Halle Berry só fica melhor quando pareada com o Noturno do fabuloso Alan Cumming – e é um prazer indescritível ver uma atriz negra e um ator assumidamente homossexual conversarem sobre reações e traumas do preconceito em um blockbuster hollywoodiano. À sua maneira, X-Men 2 é um filme subversivo como todas as histórias dos mutantes da Marvel deveriam ser.

A trama que começa com a invasão de Noturno na Casa Branca introduz uma ameaça à sobrevivência dos mutantes que acaba juntando as forças de Magneto (McKellen) e Charles (Stewart) mais uma vez contra um inimigo em comum, o cruel General Stryker feito com garra e certo prazer sádico por Brian Cox (Tróia). O filme se contorce e transforma em várias reentrâncias durante os acertados 134 minutos de metragem, equilibrando como poucos arrasa-quarteirões conseguiram na sua época as doses certas de plot,, desenvolvimento de personagem, discussão temática e humor. As cenas de ação não caem de nível a partir da de abertura, obedecendo rigorosamente o método de Singer de não ceder ao convencional ou ao preguiçoso – o embate entre Wolverine e Lady Deathstrike é especialmente marcante da criatividade e excelência do filme nesse sentido. Com um final imensamente satisfatório, a vontade desafiadora de ser relevante e inteligente dentro de um esquema de produção que estava, na época, ainda no começo de sua industrialização completa  (em resumo: os estúdios ainda não tinham tomado controle das adaptações de super-heróis), X-Men 2 é o filme que todas as outras histórias dos mutantes deveriam almejar ser.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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1.
X-Men: Apocalipse
(X-Men: Apocalypse, EUA, 2016)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: Michael Fassbender, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Sophie Turner, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Olivia Munn
144 minutos

A sensação que fica após as mais de 2h de metragem de X-Men: Apocalipse é que, 16 anos depois de chegar aos cinemas pela primeira vez em 2000, os mutantes finalmente encontraram seu ritmo e seu propósito nas telas. É claro que isso ia acontecer sob a tutela de Singer, que traz seu entendimento do universo e, mais até do que isso, seu entendimento da linguagem cinematográfica para criar uma aventura que levanta temas únicos, se desenrola de forma única e, talvez mais importante, carrega um visual muito único. Apocalipse é vibrante, com suas lâminas de energia cor-de-rosa, fagulhas roxas de magia, penas de ferro reluzente, raios e nuvens carregadas se juntando sobre os mutantes em guerra. É um filme de quadrinhos que não teme a linguagem quadrinesca, e que ao mesmo tempo não foge de aprofundamento de ideias que sempre foram relacionadas ao universo dos X-Men, como o senso de comunidade que existe quando os mutantes, representativos em suas metáforas de qualquer grupo oprimido socialmente, se unem sob um propósito e um ideal comum. Apocalipse consegue ser um filme sobre a formação de uma equipe, uma metáfora religiosa sobre as bênçãos e perigos das nossas crenças, e uma história sobre as formas como o preconceito age numa sociedade que fingiu bem se livrar dele. É atual, vibrante e importante como X-Men 2 foi em 2003, mas leva o primeiro lugar porque parece mais bem idealizado e realizado que ele.

Fassbender está excepcional no arco que seu Magneto percorre, desenterrando emoções primárias e as expressando de maneira intensa em tela, enquanto McAvoy continua uma evolução muito natural que vem desde Primeira Classe, compondo um Xavier que é um líder formidável ao mesmo tempo em que carrega cicatrizes e falhas sob a superfície. Oscar Isaac, por sua vez, encarna um vilão imponente e, ao mesmo tempo, patético em sua arrogância e auto-engrandecimento. Sophie Turner e Kodi Smit-McPhee estreiam com versão marcantes de personagens que vimos em outras peles anteriormente, enquanto Evan Peters mais uma vez traz leveza e carisma para um filme que consegue fugir da seriedade exagerada mesmo com tantos pontos importantes para fazer. X-Men: Apocalipse não é só um dos melhores filmes da franquia, como coloca os mutantes na liderança absoluta entre os super-heróis de 2016.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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