21 de out de 2015

Review: O novo “Peter Pan” é uma má ideia – mas ganha alguns pontos pela execução

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por Caio Coletti

Há algo especial na história de Peter Pan, uma figura cultural que muita gente talvez não apostasse que fosse sobreviver tanto tempo no imaginário popular. Criado no começo do século passado (a primeira aparição de Peter foi em 1902) pelo escocês J.M. Barrie, imortalizado em uma dezena de adaptações para o cinema e para a TV, especialmente o desenho animado da Disney dos anos cinquenta, Peter tem sido, há mais de 100 anos, a representação dominante da delícia e da tragédia da infância, ao mesmo tempo um receptáculo para as nossas fantasias de nunca envelhecermos e uma prova viva do gostinho agridoce dessas fantasias. Há certa pureza em histórias como essa, em símbolos ficcionais como Peter, que sobrevive para além de tendências narrativas e modismos de gênero de Hollywood e das outras indústrias do entretenimento, e talvez seja por isso que seja tão incômodo ver a história que conhecemos ser encaixada em um paradigma tão preguiçoso quanto o que guia esse novo Peter Pan, que chegou aos cinemas no último dia 08 de Outubro.

No roteiro assinado por Jason Fuchs (A Era do Gelo 4), o personagem clássico criado por Barrie “finalmente” ganha uma história de origem, exatamente como a de todos os super-heróis que inundam os multiplexes mundo afora. Além disso, o líder dos garotos perdidos se envolve com a tribo de nativos da Terra do Nunca e descobre a existência de uma profecia que fala de um “garoto voador”, uma espécie de messias que livrará a ilha mágica do domínio malévolo de Barba Negra (Hugh Jackman). Coloque na mistura a busca de Peter pela mãe, que pode não ter realmente morrido, e você tem uma gênese de personagem que poderia muito bem figurar em qualquer história distópica de literatura young adult contemporânea. O script estrutura uma narrativa que joga com conceitos familiares e não se importa muito em criar um contexto mais criativo para eles, ao menos não em um nível mais do que superficial – vide os bizarros números musicais (que incluem “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana; e “Blitzkrieg Bop”, dos Ramones) e o estranho clima de Oliver Twist das cenas passadas no orfanato dirigido por freiras no qual Peter começa sua jornada.

Com um roteiro desses em mãos, o britânico Joe Wright, um dos mais distintivos e inteligentes talentos de sua geração, fica renegado à posição de comandante de blockbuster, o que não significa que ele não adicione um pouco de brilho aos procedimentos. Pan é, afinal, um filme visualmente genioso, com o senso esperto de teatro do homem que fez a sucessão de cenários e jogos de cena funcionar no peculiar Anna Karenina, e o bom gosto estético do diretor que adaptou Orgulho & Preconceito em um dos filmes mais classudos e delicados do nosso tempo. Do campo de batalha colorido que emerge quando piratas e nativos se enfrentam até as acrobacias desafiadoras da gravidade do vilão interpretado com garra e vontade por Jackman, passando pelos visuais elaborados em tons mais neutros das partes passadas no orfanato e na enorme mina de pó-de-fada (não pergunte) comandada pelo vilão, Wright respira criatividade visual em um filme que não a contrapõe com boas ideias narrativas. É um esforço admirável, mas em última instância fútil.

O mesmo vale para as atuações de Jackman e do carismático Levi Miller, um menino-prodígio que já estrelou campanhas para a Ralph Lauren e agora mostra que, dadas as escolhas certas na carreira, tem futuro no cinema. O australiano Miller faz seu Peter Pan com as doses certas de inocência e travessura, entende quando retratá-lo como um personagem em crescimento (por mais irônico que pareça) e quando mostrar flashes da personalidade maior-que-a-vida e irritantemente conquistadora que ficou eternizada no clássico da Disney. As escolhas certas do protagonista quase (quase) salvam a construção da trama da mediocridade, mas aí somos lembrados que esse é um filme em que a tribo de indígenas da Terra do Nunca é repaginada com uma princesa branca (Rooney Mara) e um ou outro integrante de etnia diferente, mesmo que os costumes e estilo de vida sejam um retrato estereotípico dos nativos-americanos.

Em certos sentidos, portanto, Pan é até ofensivo. Na maior parte do tempo, porém, é apenas uma carga anormalmente pesada de más ideias hollywoodianas, com a adição de um diretor temperamental e interessante para fazê-la funcionar, ao menos em alguns níveis. E onde mais falha é em capturar tanto a magia quando a tragédia do personagem que pretende redefinir, mesmo que ele claramente não precise de uma redefinição.

✰✰✰ (2,5/5)

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Peter Pan (Pan, EUA/Inglaterra/Austrália, 2015)
Direção: Joe Wright
Roteiro: Jason Fuchs
Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Amanda Seyfried, Kathy Burke, Cara Delevigne
111 minutos

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