19 de out de 2015

Uma revolução chamada “The Killing”: Como a série do Netflix subverteu todas as expectativas

The-Killing-Season-4

por Fabio Christofoli

Não lembro muito bem como surgiu a vontade de assistir The Killing. Provavelmente tenha sido por causa do selo do Netflix no banner da série. Afinal, dificilmente o Netflix me decepciona. Existe uma pequena probabilidade de eu ter escutado alguém falar sobre a série, mas se isso aconteceu, eu esqueci completamente quem me falou ou o que foi dito. O que importa é que alguma força me levou a buscar, dar o play e prestar atenção. A partir daí dei início a um vício que só seria curado após uma maratona de um final de semana inteiro.

Vamos começar esse texto com sinceridade: o começo de The Killing é clichê. Um assassinato, um mistério, policiais e rosquinhas. Tudo isso já vimos várias e várias vezes. Então o que me chamou tanto atenção nessa série? Confesso que saber quem matou Rosie Larsen foi o que me levou a ver os capítulos iniciais de forma frenética. O suspense da série é fantástico. O lance de cada episódio ser um suspeito diferente também (quer dizer, isso cansa um pouco, mas é legal como vai variando e nos convencendo de que sim, é o cara da vez). Mas aí vem o lance genial, que desagradou os telespectadores desatentos mas que me fez pensar “que série sensacional”: o que você pensava que ia acontecer, não acontece quando você pensava que iria acontecer.

Isso foi um divisor de águas. Provavelmente por falta da audiência (fãs rebeldes e sem paciência), a série foi cancelada na segunda temporada, mas “salva” na terceira pelo Netflix , que financiou alguns episódios. Aí sofreu mais um cancelamento e novamente foi salva pelo streaming, que dessa vez disse “deixa que nós produzimos tudo”. E isso, meus amigos, foi revolucionário. Não sei se é a primeira vez que isso acontece, mas é a primeira vez que eu vejo: a história a ser contada é mais importante que os enganadores números da audiência.

O final da primeira temporada de The Killing ousa dizer não a um público faminto por respostas. Se eu fiquei indignado sabendo que tinha todas temporadas disponíveis, imagino como não deve ter sido a reação de quem teve que esperar um ano para ter saber a resolução do mistério. E você sabe, as sociedade atual está apressada demais para esperar.

Ao longo da segunda temporada que percebi que a série não fala somente sobre um assassinato. Ela vai além, investindo muito na construção dos personagens em volta desse assassinato. Neste caso, a resolução (por mais que seja ansiado e que tenha servido como isca) vai ficando de lado.

Quantas vezes você vê roteiristas arriscarem tanto?

Nas temporadas seguintes temos a conclusão de coisas que ficaram pendentes. De certa forma, Holder e Linden não são bons policiais. Podem ter uma boa intuição, boas intenções e até alguma sabedoria, mas para trabalhar com homicídios é necessário controle emocional. E volta e meia eles perdem isso, colocando tudo a perder. Existe aí uma profundidade, uma humanidade raramente explorada pela televisão e cinema. Os personagens são imperfeitos ao mesmo tempo que são coerentes em suas personalidades. Ao perceber isso veio um alívio de uma mente cansada de tantas tramas boas que pecam na construção do personagem – mas que são sustentados pela história e/ou pela nossa ânsia de uma solução e desfecho.

Não sei se você assistiu The Killing ou se vai assistir. Não sei também se vai assistir por causa desse texto e depois esquecer como eu esqueci o que me levou à série. Não importa, apenas leve esse conselho (se possível): veja além do que é oferecido no começo. Você vai ganhar bem mais do que a simples solução de um mistério. Vai assistir ao começo de uma revolução midiática.

Sarah Linden (Mireille Enos) and Stephen Holder (Joel Kinnaman) - The Killing _ Season 3 _ Gallery - Photo Credit: Frank Ockenfels 3/AMC

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