2 de nov de 2015

Diário de filmes do mês: Outubro/2015

Downloads37

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

the-F-Word-Tiff-2014

Será Que? (The F Word, Irlanda/Canadá, 2013)
Direção: Michael Dowse
Roteiro: Elan Mastai, baseada na peça de T.J. Dawe & Michael Rinaldi
Elenco: Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Megan Park, Adam Driver, Mackenzie Davis, Rafe Spall, Oona Chaplin
98 minutos

Zoe Kazan me fez pensar sobre um conceito equivocado que eu talvez tenha usado demais no passado, e só isso já um mérito enorme para ela e para os projetos que ela geralmente escolhe. O paradigma da manic pixie dream girl condena e sentencia a criação de personagens femininas, geralmente em comédias românticas, que respondem a um certo padrão: excêntricas, “fofas”, espertas, que salvam o protagonista masculino de uma vida insatisfatória, essas figuras só existem no panteão de Hollywood para dar suporte e ajudar a contar a história do astro masculino da vez. Pense, em certa medida, na Summer de (500) Dias com Ela, e em muitos sentidos na Claire de Elizabethtown – há um padrão aí, e é um padrão que não é muito saudável para o retrato das mulheres no cinema. No entanto, Zoe Kazan, que surgiu em Hollywood interpretando um papel típico, ao menos em teoria, desse paradigma (a personagem-título de Ruby Sparks), o combate a cada entrevista em que o termo é mencionado. Ela não nega que algumas das personagens listadas como MPDGs mereçam essa denominação, mas afirma e reafirma que é possível criar uma garota cinematográfica com todas essas características estereotípicas e fazê-la se tornar uma personagem de verdade – basta querer contar sua história. Em Será Que?, embora a atriz não assuma o roteiro, mora a prova viva de que, em muitos sentidos, Kazan está correta.

O roteirista Elan Matsai e o diretor Michael Dowse não tem o melhor currículo para apresentar – o primeiro escreveu Alone in the Dark, o segundo assinou a direção de Os Brutamontes. Para o produto de duas sensibilidades assim nem um pouco sutis, Será Que? é uma comédia romântica com uma quantidade surpreendente de realismo, doçura e imaginação (embora a peça de teatro original de T.J. Dawe e Michael Rinaldi provavelmente mereça algum crédito nesse sentido). O procedimento bastante previsível da trama pode incomodar alguns espectadores, mas há algo de especial na forma como Será Que? conta a história, repetida tantas vezes, do garoto (Daniel Radcliffe) que conhece uma garota (Kazan) e descobre que ela já tem um namorado (Rafe Spall), portanto aceitando ser apenas o melhor amigo dela – a forma como Matsai constrói os personagens e a relação entre eles, as sutilezas que entrega para seus atores de bandeja na hora de mostrar a evolução da paixão platônica que existe entre os dois, e a modernidade e leveza do final, acertam todas as notas certas.

O carisma de Radcliffe carrega o protagonista com tranquilidade, permitindo que o ator mais uma vez mostre a versatilidade das personas que pode encarnar competentemente em tela na carreira pós-Harry Potter; e Adam Driver está o mesmo deleite grosseiro/charmoso de sempre como o melhor amigo de Radcliffe, um espírito livre que se casa com uma garota que conhece no mesmo dia em que os protagonistas trocam suas primeiras palavras. Mas esse é indubitavelmente o show de Kazan, que entrega uma performance tão surpreendentemente sensível, complexa e realista que fica difícil não se apaixonar por ela – sua Chantry (a começar pelo nome!) é uma garota divertida, excêntrica, “fofa” e criativa, com uma visão renovadora da vida, mas é também uma personagem que vive e respira para além de tudo isso, com uma backstory rica e um motivo próprio para embarcar na jornada do filme. Chantry não está aqui para resgatar da lama a vida de Lawrence (personagem de Radcliffe), nem Lawrence está aqui para nos ajudar a contar a história de Chantry. Como um verdadeiro romance, Será Que? é a história de duas pessoas se encontrando e, uma pletora de bagunças emocionais depois, se descobrindo apaixonadas – e é esse o tipo de história de amor que a arte humana nunca pode parar de contar.

✰✰✰✰ (4/5)

tomorrowland-2015-poster-george-clooney

Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível (Tomorrowland, EUA, 2015)
Direção: Brad Bird
Roteiro: Damon Lindelof, Brad Bird
Elenco: George Clooney, Hugh Laurie, Britt Robertson, Raffey Cassidy, Tim McGraw, Kathryn Hahn, Keegan-Michael Key, Judy Greer
130 minutos

Não há nada intrinsicamente errado com Tomorrowland, nova tentativa da Disney de promover uma de suas atrações temáticas através de um filme baseado no conceito que a move. Também não há nada de errado com o filme na dimensão de adição à espetacular filmografia de Brad Bird, um dos raros diretores que pulou direto do mundo da animação (onde fez os inesquecíveis O Gigante de Ferro e Os Incríveis) para a A-list de Hollywood, onde já havia assinado o quarto e espetacular Missão: Impossível. Há alguns problemas em Tomorrowland para George Clooney, que planejou usar o filme como um veículo para retornar ao estrelato depois do fiasco de Caçadores de Obras-Primas, mas o viu não só naufragar na bilheteria como receber críticas duras da imprensa especializada. No entanto, independente de ambições comerciais, o filme de Bird continua sendo uma invenção visual de tirar o fôlego, com um senso de aventura e de fascínio pelas maravilhas que os efeitos especiais podem criar que é raro nas super-produções da atualidade. Enquanto a maioria de Hollywood está fatigada da excelência digital do CGI e o público praticamente espera que seus filmes de verão tragam alguma intervenção extravagante de efeitos especiais, Bird continua dando luz a pérolas cinematográficas que passeiam na tênue linha entre o exagero visual e a precisão de tom. Uma pena que, em Tomorrowland, ele não tenha um script maciço e acertado o bastante para fazer com que sua maestria seja justificada com uma boa história para contar.

A trama convoluta acompanha Casey (Britt Robertson, bem melhor fora de Under the Dome), uma garota sonhadora, filha de um engenheiro da NASA (feito pelo cantor country Tim McGraw), que recebe um misterioso broche que, quando tocado, a transporta para a terra do título, uma comunidade futurista em que todos vivem em harmonia desfrutando das maravilhas da ciência. Ao descobrir que não só esse mundo utópico como também todo o planeta Terra estão em perigo, ela se junta a um antigo cientista de Tomorrowland, feito por Clooney, para combater o tirânico Nix (Hugh Laurie), que comanda a estrutura social do local. A história cansada de luta contra o poder opressivo e totalitário ganha novas tintas no roteiro assinado por Bird e por Damon Lindelof (Lost), mas a mensagem nada sutil de valorização das mentes criativas e idealistas não é afiada o bastante para ultrapassar o clichê e o elenco não parece estar comprometido com a empreitada de verdade, atuando no piloto automático o tempo todo.

A honrosa exceção é a Athena da jovem Raffey Cassidy, que ilumina a tela com sua presença a cada cena e diálogo fornecido pelo roteiro. Talvez se fosse contado do ponto de vista dela (o que faz bastante sentido, se você pensar bem), Tomorrowland pudesse ser mais do que um filme com o qual “não há nada de errado”. Da forma como está, é um conjunto de imagens espetaculares sem um conteúdo marcante.

✰✰✰ (3/5)

still-alice-movie-poster

Para Sempre Alice (Still Alice, EUA/França, 2014)
Direção: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Roteiro: Richard Glatzer, Wash Westmoreland, baseados na novela de Lisa Genova
Elenco: Julianne Moore, Kate Bosworth, Shane McRae, Hunter Parrish, Alec Baldwin, Seth Gilliam, Kristen Stewart
101 minutos

Embora seja um jargão frequente na crítica cinematográfica, o adjetivo “poético” poucas vezes realmente se aplica a um filme. Isso não é uma deposição contra o cinema, diga-se de passagem – arquivar poesia, com sua linguagem particular e seu uso quase obsessivo de representações, metáforas, rimas e versos, não precisa ser o objetivo de nenhuma narrativa visual. Para Sempre Alice, no entanto, é uma daquelas raras obras em que a comparação com a linguagem poética faz sentido. O filme, celebrado pela performance definidora (e vencedora de Oscar) de Julianne Moore, se apoia em sua estrela e na excelência dela, mas tece uma narrativa tremendamente delicada ao seu redor, usando a câmera para contar a história tanto quanto usa as palavras para criar pequenas rimas e brincadeiras narrativas que revelam dimensões e realidades da história que está contando que talvez ficassem subentendidas, ou encobertas, de outra forma. A trama acompanha a professora de linguística (Moore) que, ao fazer 50 anos, descobre sofrer de Alzheimer precoce, e habilmente nos deixa no escuro sobre exatamente quanto tempo se passa do diagnóstico até a progressão total dos sintomas, que vemos de perto em trechos narrativos conectados entre si só pelo conhecimento que Alice tem de si mesma, e o conhecimento que o espectador passou a ter dela e de sua família. Dessa forma, o filme arquiva um sentimento de desorientação que casa com a história e ajuda a passar a emoção crua presente nela.

A atuação de Moore é devastadoramente realista, de uma forma que talvez outras grandes atrizes não conseguiriam ser. Essa americana natural da Carolina do Norte, de 55 anos, não tem o estilo de trabalho que acompanha muitas de suas contemporâneas celebradas na profissão, e talvez por isso tenha demorado tanto para vencer o prêmio da Academia – com Julianne, a dramatização de um personagem tem muito mais a ver com construí-lo cuidadosamente em tela e fazê-lo real do que passar as emoções imediatas do diálogo e da cena. Para Sempre Alice a serve muito bem, porque também está interessado na tridimensionalidade do universo que constrói ao redor da protagonista, e a sutileza do roteiro e da atuação de Moore só torna mais efetivo o retrato da deterioração mental da personagem e da sua descomunal (ainda que íntima) luta pela manutenção da identidade. Ao redor da protagonista, os coadjuvantes fazem um trabalho valioso: em meio as suas próprias idiossincrasias, tanto Alec Baldwin quanto Kristen Stewart atuam com discrição e eficiência indispensável para a constituição do filme, e até Kate Bosworth faz muito com o seu pouco tempo em tela.

O duo de diretores/roteiristas Richard Glatzer e Wash Westmoreland (Quinceañera) fez desse o seu último filme como casal, visto que Glatzer sofria de esclerose lateral amiotrófica (a famosa ALS, que motivou o Ice Bucket Challenge há um tempo atrás) e faleceu em Março desse ano, aos 63 anos. O caráter pessoal do filme, para quem conhece a história do casal que o dirigiu e escreveu, só aumenta o seu impacto – tal e qual sua protagonista, Para Sempre Alice é uma obra de sensibilidade e inteligência narrativa excepcionais por si mesma.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

6-years-poster

6 Years (EUA, 2015)
Direção e roteiro: Hannah Fidell
Elenco: Taissa Farmiga, Ben Rosenfield, Lindsay Burdge, Joshua Leonard, Jennifer LaFleur
85 minutos

Taissa Farmiga tem 21 anos. A estrela de duas temporadas das cinco de American Horror Story é também a irmã (sim, muito mais nova) de Vera Farmiga, a Norma de Bates Motel, uma atriz consagrada com indicações ao Oscar e ao Emmy no currículo. O talento extraordinário deve estar nos genes da família, porque como a protagonista de 6 Years, Taissa entrega uma atuação da qual a irmã mais velha se orgulharia. Melanie, a personagem da jovem atriz americana, é metade de um casal completado por Dan (Ben Rosenfield, revelado em Boardwalk Empire). Os dois estão juntos há seis anos, como adianta o título, e com Dan terminando a faculdade e equilibrando ambições no trabalho em uma produtora musical com o relacionamento, e Melanie, um ano mais nova, mirando na carreira de professora, as coisas começam a ficar tensas no relacionamento. Dos dois, a atuação de Taissa é de longe a mais sólida, demonstrando espetacular capacidade de entender e sutilizar as reações emocionais da personagem, passando até pelos momentos menos inspirados do roteiro com coesão e nunca deixando o melodrama, do qual a história passa perigosamente perto, invadir o belo retrato de relação, familiaridade e distanciamento que o filme, em seu cerne, procura ser. Isso não significa que Rosenfield não tenha seus momentos – o moço é um ator talentoso, que sabe jogar com o charme e com a imagem que tem para criar o personagem e imbuí-lo de particularidades e detalhes –, mas a linha-mestra na qual o filme se equilibra está muito mais em Farmiga do que nele.

A diretora/roteirista Fidell, que surgiu no cenário independente depois de A Teacher, um drama que trata da relação tabu entre uma professora e seu aluno, parece ter um gosto por jogar o espectador “no meio” de uma história. Quando conhecemos Mel e Dan, os cacoetes e familiaridades do relacionamento deles já estão todos firmes e estabelecidos, e a jornada do filme não é tanto sobre desconstruí-los quanto é sobre reafirmá-los, e mostrar a ambivalência deles e do sentimento que eles construíram nesses seis anos, sendo confrontado com as exigências da vida adulta. 6 Years foge por pouco do clichê do gênero, mas a realização ousada de Fidell, com cortes abruptos de cena e inteligentes decisões narrativas na forma como nos localiza na história, não deixa isso acontecer tanto quanto o elenco. Reportadamente filmado com um roteiro que deixava amplo espaço para improvisação (característica que brilha em certos momentos de diálogos, como uma cena logo no começo em que o casal discute sua vida sexual), 6 Years é uma bela vitrine para dois ótimos atores jovens que, porque Hollywood é Hollywood, poucas vezes tiveram a oportunidade de encarar bons personagens e uma história densa emocionalmente. É também um belo filme de separação, quando não se rende a motes muito familiares.

✰✰✰✰ (3,5/5)

maxresdefault

Férias Frustradas (Vacation, EUA, 2015)
Direção e roteiro: John Francis Daley, Jonathan M. Goldstein
Elenco: Ed Helms, Christina Applegate, Skyler Giosondo, Steele Stebbins, Chris Hemsworth, Leslie Mann, Chevy Chase, Beverly D’Angelo, Norman Reedus, Keegan Michael-Key
99 minutos

Em um contexto geral, até que o show business não está vivendo um mau momento para as comédias. Com a queda da sticom tradicional e o surgimento de roteiristas/intérpretes talentosos no gênero, a TV se tornou ao mesmo tempo o hábitat e o celeiro de treinamento para gente inteligente como Tina Fey, Amy Poehler, Aziz Ansari, Mindy Kaling, Lena Dunham e Judd Apatow, por exemplo. Nesse final de ano, Fey e Poehler estrelam Sisters, enquanto Seth Rogen lidera, com Joseph Gordon-Levitt e Anthony Mackie, The Night Before. Duas comédias que devem apagar das nossas memórias (graças a Deus) o desastre que é Férias Frustradas, reboot de uma mais-que-célebre série de filmes estrelados por Chevy Chase entre 1983 e 1997. Infelizmente, a nova versão se distancia e muito das aventuras cômicas dos nomes citados nas linhas acima – nas mãos de John Francis Daley e Jonathan M. Goldstein (Quero Matar Meu Chefe), Férias Frustradas joga no lixo o conceito promissor de comédia sobre uma família empreendendo uma road-trip cheia de desastres em pleno século XXI, e prefere ser uma fábula grosseiramente cômica sobre a nobreza e a força de espírito do pai (Ed Helms), e todos os sacrifícios que esse homem branco heterossexual de classe média-alta teve de fazer para manter os desastrados membros da família em uníssono. Não só a atitude faz do filme um empreendimento especialmente equivocado do mesmo molde que produziu todos os Se Beber Não Case e seus derivados (não por coincidência, Ed Helms também está em muitos deles), como tira todo o potencial de identificação do espectador com o grupo de protagonistas, mesmo que todos sejam feitos por atores carismáticos e com certo timing cômico.

Os melhores momentos são providos por Skyler Giosondo, o jovem (19 anos!) intérprete do filho mais velho do casal formado por Helms e Christina Applegate. Depois de pequenos papéis nos dois O Espetacular Homem-Aranha e em Uma Noite no Museu 3, o ator encarna o excêntrico, introspectivo, artístico e intelectual rebento adolescente da família com a dose certa de estranheza, uma cômica e delicada mistura de confiança e insegurança sobre si mesmo, e perícia perfeita para os momentos em que o filme se volta para o humor constrangedor. O ainda mais novo Steele Stebbins (Inatividade Paranormal 2) também tem seus momentos como o maldoso e hiperativo filho mais novo, e o casal coadjuvante composto por Leslie Mann e Chris Hemsworth provem algumas risadas um pouco mais inteligentes do que a média do filme (a running gag sobre o conservador personagem de Hemsworth não permitindo que a esposa trabalhe é particularmente afiada). A não ser por esses personagens, Férias Frustradas não é só uma comédia sem muita graça, como uma comédia que apela para os instintos mais básicos (nojo, raiva) do espectador e espera tirar alguma coisa além de indignação disso. Em última instância, não dá para se envolver com um filme nesse espírito, e é aí que ele perde o jogo.

✰✰ (2/5)

0 comentários: