16 de nov de 2015

Review: “The Musketeers” aplica a excelência da BBC ao mundo idealista de Alexandre Dumas

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por Caio Coletti

Alexandre Dumas era filho do primeiro general de armas francês com descendência afro-caribenha – nascido na colônia francesa de Saint-Domingue (hoje Haiti), o pai de Dumas já não era mais bem-vindo entre os nobres quando Alexandre nasceu, em 1802. Criado pela mãe e autodidata, o escritor francês cresceu ouvindo as histórias heroicas da atuação do pai durante as Guerras Revolucionárias, e aos 27 anos já era um sucesso em Paris com as peças de teatro aventurescas que escrevia. No entanto, seu passado de mistura étnica preveniu que Dumas recebesse o mesmo reconhecimento que seus colegas literatos da época, preconceito só corrigido em 2002, quando o presidente Jacques Chirac organizou o reenterro das cinzas de Dumas no Panteão francês, onde estão sepultados outros mestres das artes do país.

The Musketeers, série que estreou em 2014 e já finalizou duas temporadas de 10 episódios, não resgata das profundezas de centenas de adaptações anteriores a trama original da obra mais famosa de Dumas. Como a maioria das versões recentes, aproveita os personagens do livro, lançado em 1844, para contar sua própria história – mas existe na produção da BBC um respeito diferente às origens de D’Artagnan e companhia, que a propele a criar um paralelo honesto ao idealismo e à moralidade que caracterizavam as histórias violentas de guerra escritas por Dumas, e as reflexões delas na sua própria história de vida. Os mosqueteiros da série conduzida por Adrian Hodges (Primeval, Sete Dias com Marilyn) são personagens desenhados em traços fortes, com laços bem-atados aos seus respectivos passados e cuja amizade vem do compartilhamento de experiências numa França que o rei a quem servem não vê. The Musketeers não foge do retrato de abusos, absurdos e injustiças cometidas pelo regime de Luís XIII, e acaba se legitimando como narrativa pelo caminho, colocando o apego de seus protagonistas a seus deveres não como uma devoção cega a monarquia, mas como uma forma de compasso moral para a vida em tempos nos quais a liberdade de escolha era restrita a um poder absoluto, e às ordens sociais estabelecidas por ele.

Nada disso significa, é claro, que The Musketeers não seja extremamente divertida. Com seus duelos de espada, armas de fogo que só carregam uma bala por vez e demoram eternidades para serem recarregadas, vilões megalomaníacos e intrigas políticas, a série da BBC é entretenimento de primeira, com um refinamento de produção que simplesmente não existiria nas mãos de outra emissora. Há um realismo na reconstituição de época da TV britânica que ultrapassa a bela fotografia ou os cenários luxuosos do palácio – o brilhantismo técnico de The Musketeers está nos detalhes, na fidelidade que vai dos já mencionados métodos de recarregar armas até o ambiente sujo e mal-arrumado da maioria dos locais “comuns” visitados pelos personagens. Poucas adaptações captaram o ambiente rústico do século XVII da forma como faz The Musketeers, sem se perder em arroubos estéticos e, mesmo assim, entregando direção e fotografia excelentes em vários episódios (o destaque fica por conta de Marc Jobst, que faz um trabalho lindo em “The Return” – 2x05).

No elenco quem se diverte mais, obviamente, são os vilões. Peter Capaldi (o atual Doctor Who) entrega um dos melhores retratos do poderoso Cardeal Richelieu entre todas as adaptações da obra de Dumas – compenetrado e intenso, o ator explora com o roteiro as profundezas da ambição do vilão, suas motivações políticas frias e sua visão distorcia de fé. Na segunda temporada quem assume o manto do ocupado Capaldi como vilão é Marc Warren (O Procurado) na pele do violento Rochefort, um ex-capanga do cardeal que volta de uma prisão espanhola com objetivos misteriosos e, é claro, bastante malignos. A motivação vilanesca de Rochefort é mais simplista que as de Richelieu, mas Warren faz um trabalho brilhante em vendê-las convincentemente ao espectador, especialmente nos episódios finais da temporada, em que os planos do personagem chegam ao ápice. O ultra-expressivo Ryan Gage também é peça-chave na série com o seu retrato nada piedoso, mas muito empático, do rei Luís; enquanto isso, os protagonistas Luke Pasqualino, Tom Burke, Santiago Cabrera (que os fãs de Heroes vão reconhecer) e Howard Charles seguram o centro da série na base do carisma, construindo seus personagens com paciência junto ao roteiro. Ao final da segunda temporada, já é difícil não se afeiçoar aos quatro mosqueteiros da série.

Com uma boa galeria de personagens femininas fortes para contra-balancear esse universo essencialmente masculino, The Musketeers ainda precisa acertar um pouco sua narrativa episódica para se integrar a história maior de cada temporada, mas continua sendo uma das melhores e mais inteligentes pedidas para os fãs de aventuras de época – ou de boa ficção, simplesmente. Serve como prova, também, que mais de um século e meio depois de sua criação, e numa paisagem televisiva dominada por anti-heróis e histórias essencialmente cínicas, os personagens idealistas e romantizados de Alexandre Dumas ainda rendem uma ótima história.

✰✰✰✰ (4/5)

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The Musketeers (Inglaterra, 2014-2015)
Direção: Toby Haynes, Saul Metzstein, Richard Clark, Andy Hay, Farren Blackburn, John Strickland, Marc Jobst, Edward Bennett, etc.
Roteiro: Adrian Hodges, Susie Conklin, Peter McKenna, Simon J. Ashford, etc.,baseados nos personagens de Alexandre Dumas
Elenco: Tom Burke, Luke Pasqualino, Santiago Cabrera, Howard Charles, Ryan Gage, Hugo Speer, Tamla Kari, Alexandra Dowling, Maimie McCoy, Peter Capaldi, Marc Warren
20 episódios

The Musketeers vai retornar para a terceira temporada em Janeiro de 2016

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