22 de dez de 2015

Review: "Corrente do Mal" é o terror mais meditativo, contundente e assustador do ano

 
por Caio Coletti

O filme de terror em Hollywood, desde muito tempo, anda dividido em subgêneros bem rígidos. Há histórias de fantasma (O Espelho), histórias de possessão demoníaca (Livrai-Nos do Mal), histórias de assassinos sanguinários (essas estiveram mais na moda nos anos 80, com Jason Vorhees e Freddy Krueger), histórias de crianças sinistras (A Órfã), e há brilhantes explorações e exemplares de cada  um desses temas. O que é mais bacana de observar na leva de filmes de terror criticamente aclamados a surgirem na cena independente de vários países pelo mundo nos últimos anos, no entanto, é que eles corajosamente desafiam essas noções e classificações em favor de uma abordagem muito mais primordial, que faz do monstro/ameaça/medo representado no filme uma metáfora para alguma paranoia ou horror muito mais real, muito mais próxima ao espectador. É assim com The Babadook, uma detalhista e exasperante análise do luto; com Goodnight Mommy, um perturbador estudo sobre maternidade, altruísmo e construções de familiaridade; e com Corrente do Mal, que o diretor/roteirista David Robert Mitchell (The Myth of the American Sleepover) transforma em uma oportuna meditação sobre nostalgia, envelhecimento e a inevitabilidade de determinados destinos.

Ainda mais impressionante é a habilidade que Mitchell demonstra ao escrever sua mensagem e sua reflexão nas entrelinhas, criando na superfície um filme que remonta à demonização da sexualidade vista em filmes adolescentes (principalmente de terror) nos anos 80, um feeling muito assistido pela trilha-sonora recheada de sintetizadores e distorções do mago da música eletrônica Disasterpeace. Sob essa primeira camada, que faz maravilhas pela sensação de nostalgia que o filme busca provocar, Mitchell ainda toca habilmente numa representação do trauma do abuso sexual, aprofundando sua temática ao apresentar, principalmente através da eficiente atuação da protagonista Maika Monroe (The Guest) e do enervante efeito sensorial da sua “assombração” titular, a insistência e o horror de uma memória traumática que viola a parte mais íntima do indivíduo. É só ao ouvir atentamente os diálogos e buscar o significado das interações e dos rumos da história que o espectador desvenda Corrente do Mal como filme, como o conto aterrorizante sobre o amadurecimento e o devastador sentimento de morbidez que se instala inevitavelmente na vida adulta. Como a Allison de O Clube dos Cinco já dizia: “É inevitável, simplesmente acontece. Quando você cresce, seu coração morre”.



Monroe, que vai ascender ao estrelato em breve com o papel na continuação de Independence Day marcada para o ano que vem, estrela como Jay, uma jovem dos subúrbios de Detroit, nos EUA, que depois de um encontro sexual casual com um garoto (Jake Weary), é amarrada por ele a uma cadeira de rodas e avisada de que uma “maldição” vai cair sobre ela. O tal “it” do título original (It Follows) pode tomar diferentes formas, mas vai segui-la para onde ela for, em passo lento e constante, até conseguir pega-la – para se livrar dela, só “repassando” a maldição para outra pessoa, através de contato sexual. O que poderia ser uma metáfora óbvia e moralista sobre DSTs se torna no enervante dispositivo narrativo do diretor Mitchell para explorar o papel da sexualidade no amadurecimento, a busca pela liberdade através da conexão física, a liberação das neuras, preocupações e angústias através do sexo. Sem contar que, nas mãos de Mitchell e do diretor de fotografia Mike Gioulakis (Lake Los Angeles), o passo firme e lento da assombração é um prato cheio para manipular o espectador.

Corrente do Mal tem poucos sustos, embora os que estejam presentes nos ágeis 100 minutos de filme sejam mais que eficientes – é na lenta paranoia e incômodo que instala em seu espectador que o filme mostra a que veio. Gioulakis emprega fotografia em profundidade, ocasionais takes do ponto de vista dos personagens e equilíbrio de cores e luzes brilhante para nos deixar atentos a cada movimento nos fundos da ação principal, e logo assistir Corrente do Mal se torna um exercício estressante de análise de frame em busca da persistente maldição que persegue a protagonista. O design de produção, assinado por Michael Perry (Pânico no Ar) não complica as coisas, mas traz uma sensação de estranha atemporalidade aos locais pelos quais os personagens passam, seja pela mistura dos telefones celulares (um deles um aparelho de design particularmente marcante) com as televisões antigas passando filmes em preto-e-branco ou pela sempre ligeiramente abandonada paisagem do subúrbio em que o filme se passa.

Em Corrente do Mal, esses pós-adolescentes desconectados de si mesmos, entre si e do mundo são confrontados com a aterrorizante noção de que sua juventude não vai durar para sempre. Na forma de um espectro que personifica esse e outros tantos medos relacionados à vida adulta e ao confronto com o mundo lá fora (abandono, traição, sexualidade, violência), David Robert Mitchell criou um dos monstros mais sufocantemente reais e inescapáveis do cinema de terror. O pânico e o mal-estar que Corrente do Mal deixa no espectador quando sobem os créditos não vem de outro lugar senão da realização de que nós também estamos sendo seguidos pela lenta e incansável maldição da mortalidade, do tempo, da responsabilidade, do medo de tudo e de todos – e não importa com quem estejamos, nós nunca vamos nos livrar dela.

✰✰✰✰✰ (5/5)


Corrente do Mal (It Follows, EUA, 2014)
Direção e roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Lili Sepe, Olivia Lucardi, Jake Weary, Daniel Zovatto
100 minutos

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