21 de dez de 2015

Review: "Mistress America" é mais um filme genial da parceria Noah Baumbach + Greta Gerwig

 
por Caio Coletti

Frances Ha é, para todos os efeitos, e no que consta para este que vos fala, um dos melhores filmes dos últimos cinco ou dez anos. A comédia excêntrica é assinada por Noah Baumbach (A Lula e a Baleia), na primeira parceria dele com a namorada Greta Gerwig (Para Roma, Com Amor), que co-escreveu e protagonizou a história de uma bailarina fracassada que pula de situação ruim para situação ruim quando sua melhor amiga (Mickey Sumner) subitamente se muda do apartamento que dividiam. Um estudo empático e cínico (sim, ao mesmo tempo) de uma geração sem rumo definido nem vontade o bastante para definí-lo, algumas características dessa obra-prima pouco reconhecida (leia o review d’O Anagrama aqui) também estão presentes em Mistress America, segundo filme que o casal Baumbach + Gerwig escreve juntos, e segundo desses incríveis feitos cinematográficos que muitos críticos deixam passar como apenas “filmes sinceros”, ou “indies charmosos”.

Na verdade, é possível argumentar facilmente que, embora tenha muitas virtudes, os adjetivos “sincero” e “charmoso” não exatamente se aplicam à Mistress America. Ao contrário do tom predominantemente doce e da evocação da fotografia preto-e-branco de Frances Ha, aqui o retrato da geração de nova-iorquinos entrando na casa dos 30 anos cuja ambição não é páreo para a imensa incapacidade de planejamento e de perseverança contida neles é muito mais ácida. E, tomando suas dicas dos próprios personagens e da visão que tem deles, o filme pouco tem de sincero, escalando e navegando subterfúgios de dramatização e idealização o tempo todo, mais obviamente na narração em off da protagonista Tracy (Lola Kirke, irmã mais nova de Jemima Kirke, atriz de Girls), uma aspirante a escritora que começa a frequentar a faculdade em NY e, por incentivo da mãe divorciada, se conecta com sua futura meia-irmã (a filha do homem com o qual sua mãe vai se casar, no caso), uma trintona que mora a alguns quarteirões da Times Square e planeja abrir um restaurante caseiro (“Mom’s”), mesmo que não saiba nada sobre cozinha (ela se diz, orgulhosamente, “auto-didata”).

Tracy se enamora pela ideia dessa personagem, a Brooke feita por Gerwig em uma atuação espetacular, expressiva, carismática e tremendamente sutil, e escreve sobre ela um conto que divide o nome do filme. Em Mistress America, Brooke é uma figura à la Gatsby, uma representação falida do sonho americano e um conjunto de maneirismos e características que a justifica nesse status. É até curioso comparar a atuação de Gerwig aqui com a de Leo DiCaprio na versão mais recente de Gatsby, porque embora ambos confiem em determinadas características de fala, linguagem corporal e idealização visual de personagem, há na performance de Gerwig uma contemporaneidade e uma transparência diferentes, o que funciona às mil maravilhas quando Mistress America desmonta as noções pré-concebidas que cada um dos personagens tem do outro, e especialmente de Brooke, essa figura quase mítica que Tracy pinta em seu conto. De certa forma, o filme de Baumbach e Gerwig é uma metaficção, um confronto cheio de truques de manipulação do espectador para contestar e destrinchar nossa idealização de personagens que vemos em tela.



Por outro lado, o filme é também um retrato simultaneamente realista e generoso de duas gerações. O tédio existencial da mais jovem Tracy, e a forma como a superficialmente ambiciosa Brooke vira sua vida de cabeça para baixo soa muito realista para qualquer pessoa que pertença a uma dessas duas gerações. Mistress America é espetacular porque entende, como narrativa, os entremeios da vida dessas duas personagens (e de todos ao redor delas, é claro) e parece superficialmente irritado com os seus cacoetes e suas particularidades, mas ao mesmo tempo não as julga mal por eles. Enxergar a beleza em algo ao mesmo tempo em que se enxerga a falha, a impossibilidade, o aborrecimento existencial nele é uma habilidade extraordinária, e em vários momentos de Mistress America fica claro que Baumbach e Gerwig fazem isso de maneira linda juntos – para citar só um, vale destacar a cena em que Tracy e Brooke apresentam a ideia do “Mom’s” para um potencial investidor, depois de muita confusão.

Para fechar a conta e declarar Mistress America um dos melhores filmes do ano (de novo), é impossível não citar a forma como Baumbach parece dotar tudo de movimento e de paixão. Seja em momentos de comédia como toda a confusão na casa do tal investidor, ou em cenas mais quietas como os minutos iniciais de Tracy na faculdade ou a viagem de carro que os personagens fazem em certo momento na trama, a câmera de Baumbach, com assistências imprescindíveis de Jennifer Lame (editora) e Sam Levy (diretor de fotografia), cria um mundo muito real em que, assim como em Frances Ha, as pessoas e as coisas estão sempre se movendo em direção a algum lugar, e saindo de algum outro. É uma forma espetacular de se fazer cinema, e garante ao filme uma fluidez e um ritmo que talvez ele não teria nas mãos de um diretor de “indies charmosos” preso em convenções.

É preciso desenhar a linha, portanto: o que Baumbach e Gerwig representam hoje não é um casal “fofo” com um bom gosto para fazer filmes. É uma das parcerias criativas mais imprescindíveis da filmografia atual. E Mistress America é só o segundo fruto dessa parceria – o que significa que eles ainda podem melhorar, e muito.

✰✰✰✰✰ (5/5)


Mistress America (EUA/Brasil, 2015)
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig
Elenco: Lola Kirke, Greta Gerwig, Heather Lind, Matthew Shear, Jasmine Cephas Jones, Michael Chernus
84 minutos

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