31 de jan de 2016

Diário de filmes do mês: Janeiro/2016


por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. Particularmente, também, eu não me dou a escrever críticas grandes de filmes que considero ruins ou irrelevantes, porque não vejo sentido em remoer demais os erros de uma produção cinematográfica. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

Hotel Transilvânia 2 (Hotel Transylvania 2, EUA, 2015)
Direção: Genndy Tartakovsky
Roteiro: Robert Smigel, Adam Sandler
Elenco: Adam Sandler, Andy Samberg, Selena Gomez, Kevin James, Steve Buscemi, David Spade, Keegan-Michael Key, Molly Shannon, Megan Mullally
89 minutos

O primeiro Hotel Transilvânia, lançado em 2012, não conseguiu evitar de se parecer muito com um desperdício dos talentos consideráveis do mestre da animação Genndy Tartakovsky, que estava fazendo sua estreia no comando de um longa-metragem depois de assinar séries de TV elogiadas como Star Wars: Clone Wars, Samurai Jack e As Meninas Super-Poderosas. O design tremendamente criativo dos personagens monstrengos de Hotel Transilvânia, a energia das piadas físicas e visuais, as referências clássicas do conceito inicial, tudo era afogado por um roteiro sem ritmo nem surpresas, que seguia à risca os clichês do gênero e não aproveitava o potencial que a história poderia oferecer.

Para a continuação, três anos depois, era difícil esperar algo diferente, principalmente com o astro Adam Sandler (que dubla o protagonista Dracula) assumindo serviços de roteirista. Que surpresa, portanto, que Hotel Transilvânia 2 abrace pelo menos um pouco mais do potencial de seus personagens e de sua premissa – na nova trama, Drac tem de lidar com a filha, Mavis (Selena Gomez) pensando em se mudar do Hotel com seu novo marido, o humano Jonathan (Andy Samberg), e o filho recém-nascido, que ainda não mostrou sinais de ser um monstro como o lado materno da família. Por baixo da trama boba e do humor um pouco mais controlado, corre em Transilvânia 2 um agradável e esperto discurso sobre preconceito e a vontade de moldar a próxima geração com os costumes das suas predecessoras.

Nesse ritmo, talvez o inevitável Hotel Transilvânia 3 possa estar à altura do seu genioso (e genial) diretor.

✰✰✰✰ (3,5/5)


A Visita (The Visit, EUA, 2015)
Direção e roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn
94 minutos

Desde o lançamento de A Visita nos cinemas, no finalzinho de Novembro (Setembro nos EUA), o filme foi saudado como um peculiar retorno à forma de M. Night Shyamalan, o homem responsável por clássicos como O Sexto Sentido e A Vila, mas também por desastres como Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar. A percepção crítica não estava errada, mas A Visita não é o que se poderia esperar de um comeback movie para Shyamalan, conhecido pelas formalidades clássicas e pela influência de Spielberg, Hitchcock e outros diretores classudos em suas obras. Pelo contrário, é um filme que testemunha a evolução de um autor e a forma como um período sendo alvejado por críticas pesadas o moldou – ao se apropriar da cansada convenção do found footage, Shyamalan decidiu não se levar a sério demais, criando um filme rechado de consciência de si mesmo e das convenções com as quais brinca, mas que as subverte e as usa com sabedoria.

A Visita é uma esperta história de terror sobre familiaridade, trauma, mágoa e cicatrizes psicológicas, o que o funda firmemente em um plano terreno, como a maioria dos bons filmes do gênero. As duas adoráveis crianças no centro do filme, Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould, especialmente ótimo), foram abandonadas pelo pai mais velho, que fez a mãe (Kathryn Hahn) fugir de casa aos 19 anos para construir uma vida sozinha. Quando os avós de Becca e Tyler, com quem a mãe não tinha contato desde então, pedem para conhecer os netos, o filme estabelece sua história e seu tom, usando as aspirações cinematográficas de Becca, que planeja fazer um documentário sobre os avós perdidos, para justificar o formato e tecer um discurso de metaficção no processo. Deanna Dugan e Peter McRobbie, os dois character actors veteranos que fazem o papel doa avós, abocanham com gosto as partes mais exaltadas do roteiro de Shyamalan, transpirando a malediscência do texto com facilidade.

Tremendamente criativo e com toques de irreverência que temperam o terror found footage sem deixá-lo perder o potencial aterrorizante (e as imagens impactantes que Shyamalan conjura, especialmente no memorável terceiro ato), A Visita é uma das mais bacanas misturas de gêneros do cinema em 2015.

✰✰✰✰ (4/5)


Maze Runner: Prova de Fogo (Maze Runner: The Scorch Trials, EUA, 2015)
Direção: Wes Ball
Roteiro: T.S. Nowlin, baseado na novela de James Dashner
Elenco: Dylan O’Brien, Ki Hong Lee, Kaya Scodelario, Thomas Brodie-Sangster, Jacob Lofland, Giancarlo Esposito, Patricia Clarkson, Aidan Gillen, Lili Taylor, Barry Pepper
132 minutos

No mar de adaptações de literatura young adult inundando os multiplexes por aí, é difícil encontrar alguma que pareça ter algo realmente especial. Jogos Vorazes, com sua estrela vencedora de Oscar, seu discurso político e emocional mais contundente, e suas referências à clássicos da ficção científica (1984 especialmente, é claro), é uma dessas. Maze Runner também parecia ser, no seu primeiro capítulo, se diferenciando dos concorrentes pela trama mais contida a um espaço, pelo mistério pulp da organização secreta (chama WICKED!) que estava orquestrando o futuro distópico da história, e pelo design de produção espetacular, dando apoio a um elenco jovem bem escolhido. Se acomodando ao ciclo de produção intenso das outras franquias do gênero, Prova de Fogo, a continuação, chegou aos cinemas por volta de um ano depois – uma pena que a continuação da história urdida por James Dashner na trilogia de livros originais não retenha as melhores partes do primeiro capítulo.

Prova de Fogo vê nossos heróis, liderados por Thomas (Dylan O’Brien, que merece papeis melhores), sendo acolhidos por um grupo suspeito de militares ao escapar do labirinto do primeiro filme. Lá, descobrem que as intenções de seus “salvadores” não são tão boas quanto parecem, embora o espectador provavelmente tenha adivinhado isso assim que Aidan Gillen, o Mindinho de Game of Thrones, foi escalado para interpretar a principal figura de liderança do tal destacamento militar. O filme desvenda alguns dos mistérios da WICKED, adiciona perigos ao lançar os protagonistas em um deserto onde são perseguidos por criaturas parecidas com zumbis (humanos infectados com um vírus que a WICKED quer curar “chupando” o gene de imunidade dos jovens protagonistas – tal gene só existe na nova geração), mas no final das contas se parece com um longo e burocrático exercício de perseguição, estilizado com habilidade pelo diretor Wes Ball, mas nunca exibindo o brilho peculiar do primeiro filme, uma pérola de ficção científica kitsch encrustada no meio de um esquema de produção hollywoodiano que só produz pedras brutas.

✰✰✰ (3/5)


Perdido em Marte (The Martian, EUA/Inglaterra, 2015)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Drew Goddard, baseado no livro de Andy Weir
Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Sebastian Stan, Chiwetel Ejiofor
144 minutos

O maior trunfo de Perdido em Marte é Matt Damon. O americano de 45 anos, duas vezes indicado ao Oscar de atuação (ele venceu, junto com Ben Affleck, mas pelo roteiro de Gênio Indomável), está em um momento interessante da carreira, escolhendo com cuidado projetos que o colocam naquele raro equilíbrio entre “ator respeitável” e “astro de ação”. O recente Elysium foi uma derrapada nesse sentido, pendendo mais para um lado do que para o outro, mas Perdido em Marte acerta em cheio – chegando perto das 2h30 de metragem, o filme do veterano Ridley Scott, cujas incursões anteriores pela ficção científica (Alien, Blade Runner) dão à Perdido em Marte certo pedigree, não é uma obra-prima, mas se apóia no carisma e na transparência emocional sutil de Damon para envolver o espectador em uma história de sci-fi muito mais firmada na realidade e nos dados científicos atuais do que estamos acostumados a ver. Nas mãos de Damon, a ficção científica possível de Perdido em Marte encontra um herói igualmente crível, e é aí que o filme ganha o jogo.

Especialmente porque, com a honrosa exceção da capitã Lewis de Jessica Chastain, em sua segunda ótima atuação em papeis coadjuvante em ficções científicas em pouco tempo (vide Interestelar), os coadjuvantes são meros peões dessa complexa história de resgate, que é impulsionada quando um grupo de cientistas em uma missão em Marte é obrigado a abandonar o planeta vermelho por conta de uma tempestade, mas acaba deixando para trás um da sua equipe, o Mark Watney feito por Damon – que eles presumiam estar morto. Quando a NASA descobre que não é bem assim, a corrida para garantir a sobrevivência de Mark começa. O roteiro de Drew Goddard (O Segredo da Cabana) adapta com bom-humor e contenção o livro elogiado de Andy Weir, e a direção de Scott garante a elegância dos procedimentos, trabalhando a câmera e os recursos narrativos (o diário de Mark, as câmeras de vigilância do habitat artificial onde ele tem que viver) com habilidade.

Perdido em Marte envolve o espectador com facilidade, um épico de ficção científica bem diferente das aspirações filosóficas e metafóricas de seus companheiros de gênero. É um filme-pipoca em seu cerne, e um dos bons.

✰✰✰✰ (4/5)


O Bom Dinossauro (The Good Dinosaur, EUA, 2015)
Direção: Peter Sohn
Roteiro: Meg LeFauve
Elenco: Raymond Ochoa, Jack Bright, Jeffrey Wright, Frances McDormand, A.J. Buckley, Anna Paquin, Sam Elliott
93 minutos

Segundo acerto da Pixar em 2015, O Bom Dinossauro notavelmente teve um dos processos de produção mais difíceis da história da companhia, passando por uma série de reimaginações desde 2009. Talvez o pé atrás que muitos críticos desenvolveram com a empresa de animação depois do período de seca criativa entre 2010 e 2015, somado com esses já reportados problemas de produção, tenham evenenado a percepção deles do filme de Peter Sohn, que estreia em longas-metragens depois do memóravel curta Parcialmente Nublado. Embora não tenha a genialidade visual e narrativa de Divertida Mente, seu companheiro de estúdio em 2015, O Bom Dinossauro é uma fábula bem contada sobre superação de medos e, especialmente, sobre o indelével valor que esse sentimento tem na formação do caráter de uma pessoa. Uma história de crescimento como tantas da Pixar, o filme de Peter Sohn é um inteligente retrato de personagens cujos maiores medos os guiam de maneira definitiva, e da maturidade emocional que é necessária para enfrentá-los ao invés de fugir deles.

A história acompanha Arlo (Raymond Ochoa), um apatossauro que, num nundo alternativo em que aquele infame asteróide não atingiu a Terra, perde o pai e se envolve em uma confusão que o leva para longe da fazenda da sua família, onde sua ajuda é necessária. Ele se alia a um menino humano (Jack Bright), que age como um cachorro e não parece ter família própria – em uma sequência linda, de cortar o coração, a origem dos dois protagonistas fica clara através de uma metáfora que o diretor Peter Sohn definiu como o coração do filme, concentrando-se na comunicação não-verbal. O Bom Dinossauro, de fato, é uma narrativa muito visual, combinando suas paisagens ultra-realistas com o deisgn mais caricato dos personagens de maneira adorável e fazendo referências visuais à farorestes clássicos e a outros filmes, como o clássico Tubarão (na cena em que os dinossauros se reúnem ao redor da fogueira). A jornada do protagonista é identificável e os personagens que o cercam sublinham essa jornada com delicadeza e graça – O Bom Dinossauro pertence, com todos os filmes da era de ouro da Pixar, na prateleira de triunfos do estúdio. Pena que nem todo mundo o tenha percebido assim.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)


Goosebumps: Monstros e Arrepios (Goosebumps, EUA/Austrália, 2015)
Direção: Rob Letterman
Roteiro: Darren Lemke, baseado nos livros de R.L. Stine
Elenco: Jack Black, Dylan Minnette, Odeya Rush, Ryan Lee, Amy Ryan, Jillian Bell, Halston Sage, Ken Marino
103 minutos

Com mais de 300 milhões de cópias vendidas mundialmente, a série de terror-para-crianças Goosebumps é chamada por muitos de “a Harry Potter dos anos 90”, mas sua natureza de histórias isoladas a cada livro, além do ritmo prolífico de seu autor (foram 62 livros entre 1992 e 1997), impediram que Goosebumps chegasse aos cinemas intacta. Uma série de antologia, produzida entre 1995 e 1998, adaptou vários dos contos assinados por R.L. Stine para a TV, mas Goosebumps, de 2015, é a primeira adaptação direta para o cinema – e o roteiro de Darren Lemke (Jack, o Caçador de Gigantes) é esperto ao comprimir todas as criaturas de Stine em uma única trama, minar a capacidade de nostalgia que essas histórias trazem, criar um conto metalinguístico divertido, e ainda estruturar uma aventura juvenil que se abre para futuras explorações em forma de franquia.

Associado à direção habilidosa de Rob Letterman (Monstros vs. Alienígenas), que mantem as engrenagens rolando, especialmente nas ótimas cenas de ação, esse trabalho de roteiro faz de Goosebumps um blockbuster divertido, mesmo que não o faça ganhar em profundidade, nem vá muito longe na reprodução da magia dos livros de Stine, que contavam histórias aterrorizantes que mexiam com medos infanto-juvenis com maestria. Jack Black estrela como o próprio Stine, retratado no filme como um paranóico morador de uma cidade pequena para onde Zach (Dylan Minnette) se muda. Não demora tanto para que o jovem descubra o segredo do escritor – quando um de seus manuscritos da série Goosebumps é aberto, o monstro que habita o mundo de ficção da história em questão é libertado. A premissa abre caminho para efeitos especiais e cenas de perseguição impressionantes, sejam elas envolvendo o Abominável Homem das Neves ou, na nossa preferida, um Lobisomem vestido de uniforme de futebol americano.

Sem a ousadia nem o elenco certo para abraçar a natureza irônica de sua reconstrução da mitologia da série, Goosebumps, o filme, sofre do frequente mal da incompletude que assombra os filmes grandes de Hollywood. Segue como uma aventura divertida, mas não satisfaz com sua reviravolta de trama meticulosamente previsível, nem com sua exploração rasa de certos temas e consequências.

✰✰✰✰ (3,5/5)


Z for Zachariah (Islândia/Suiça/Nova Zelândia/EUA, 2015)
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nissar Modi, baseado na novela de Robert C. O’Brien
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Chris Pine, Margot Robbie
98 minutos

O diretor Craig Zobel brinca com os limites entre o cinema independente e o mainstream em Z for Zachariah, seu terceiro longa-metragem, primeiro desde o polêmico Obediência (2012), que explora de forma chocante a forma como as tensões escalam a partir de um trote inicialmente inofestivo a um restaurante de fast-food. A apreensão que Zobel fez crescer naquele filme, um dos mais interessantes (e menos vistos) dos últimos anos, está presente de maneira mais sutil em Zachariah, um conto dramático de ficção científica que Zobel e o roteirista Nissar Modi (Breaking at the Edge) injetam com metáforas bíblicas e discussões sobre raça, religião e machismo. Adaptado livremente de um clássico cult do gênero escrito por Robert C. O’Brien (A Ratinha Valente), Zachariah é um filme quieto e discreto, cujos desafios e teses se escondem por debaixo da superfície do triângulo amoroso que se forma entre os três únicos personagens que vemos em cena.

Localizado em um mundo pós-apocalíptico, Zachariah começa com o encontro entre Ann (Margot Robbie), uma fazendeira que foi salva dos eventos misteriosos do apocalipse graças ao isolamento natural do vale em que vive; e John (Chiwetel Ejiofor), um cientista envolvido em um traje anti-radiação que parece muito empolgado por finalmente ter encontrado ar respirável. A partir daí, a relação entre os dois vai evoluido, tal e qual um Adão e Eva moderno, completa com o conflito religioso obrigatório – Ann é católica, e John acredita apenas na ciência, o que é um problema quando a capela da fazenda, onde Ann toca órgão mesmo que sozinha, precisa ser demolida para se construir um moinho que pode trazer energia elétrica para a casa. O terceiro elemento da trama é Caleb (Chris Pine), a proverbial serpente do paraíso, que aparece assim que John e Ann acertam entre si a possibilidade de, já que são provavelmente os únicos sobreviventes do apocalipse, se juntarem como um casal. Caleb tem muito mais em comum com Ann, e Pine o interpreta com os olhos sedutores e a eventual astúcia maliciosa que o roteiro lhe pede – a maçã que essa serpente oferece à Eva é muito atraente a ela.

Tanto essa metáfora quanto o subtexto racial correm por baixo da narrativa direta e linear do diretor Zobel, que nunca foi muito de subterfúgios. Sua força como artista está em criar filmes impactantes narrativamente que possuem um discurso social inteiramente escrito nas entrelinhas, e nesse sentido não é tão grande o espaço que separa Obediência de Z for Zachariah. Aqui, ele tem a ajuda de um trio de atores espetacular, com Robbie se tornando imediatamente o destaque por trazer para o filme uma Ann que se equilibra na ponta dos pés entre a inocência e uma melancolia profunda e internalizada, que a envelhece muito. A atriz some dentro do papel, o que é sempre a marca de uma intérprete comprometida – ela é o trunfo de um filme lindamente concebido, mas nem sempre bem-realizado.

✰✰✰✰ (3,5/5)


A Walk in the Woods (EUA, 2015)
Direção: Ken Kwapis
Roteiro: Michael Arndt, Bill Holderman, baseados no livro de Bill Bryson
Elenco: Robert Redford, Nick Nolte, Emma Thompson, Mary Steenburgen, Nick Offerman, Kristen Schaal
104 minutos

Ainda imponente e em boa forma do alto de seus 79 anos, o perpetualmente cool Robert Redford fez de A Walk in the Woods mais um de seus projetos passionais. O astro de Butch Cassidy and The Sundance Kid está tentando adaptar o livro de não-ficção do escritor Bill Bryson há quase uma década – em primeira instância, o filme deveria marcar a reunião de Redford com o velho amigo Paul Newman, mas a doença e eventual morte do ator liquidou com os planos de produção. Sem Newman, Redford acabou escalando outro velho amigo, Nick Nolte (48 Horas), com quem ainda não tinha dividido a cena, para formar a parceria central da história, que foca em um escritor renomado perto da aposentadoria (Redford) que, ao decidir fazer uma trilha que atravessa todo os EUA, é acompanhado por um amigo das antigas com quem havia perdido contato devido a um desentendimento (Nolte). A dinâmica entre os dois atores veteranos é deliciosa de se assistir, com Nolte mastigando com gosto um papel cômico feito sob medida para seus talentos, sua voz áspera e seu porte físico desajeitado, e Redford emprestando calor humano ao protagonista da jornada.

Uma pena que os dois atores sejam quase os únicos atrativos do filme. O roteiro de Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine) e Bill Holderman (Leões e Cordeiros) tropeça da adaptação, o que é uma surpresa dados os créditos anteriores de ambos – nas mãos deles, A Walk in the Woods é uma jornada condescendente com todos os personagens que não se encaixam no ideal de comportamento de seus protagonistas, e é melhor nem falar do tratamento que o filme dispensa às personagens femininas. Pior ainda é perceber que, se quisesse, A Walk in the Woods podia ter um elenco de personagens femininas coadjuvantes memorável, visto que reúne ótimas intérpretes (cada uma em seu estilo) como Emma Thompson, Mary Steenburgen e a sempre hilária Kristen Schaal, que até nos breves momentos em que aparece em tela consegue deixar uma marca com sua personagem. A direção de Ken Kwapis (Quatro Amigas e um Jeans Viajante) também não ajuda, aproveitando pouco das paisagens deslumbrantes do caminho e engatando o piloto-automático, deixando Nolte e Redford fazerem todo o trabalho de encenação.

Esses dois excelentes intérpretes fazem de A Walk in the Woods uma bela jornada de personagem, mas nem as forças combinadas deles conseguem fazê-lo um bom filme.

✰✰✰ (2,5/5)


A Espiã que Sabia de Menos (Spy, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Paul Feig
Elenco: Melissa McCarthy, Jude Law, Rose Byrne, Miranda Hart, Allison Janney, Jason Statham, Morena Baccarin, Bobby Cannavale
119 minutos

Numa das cenas de ação climáticas de Spy (nos recusaremos a usar o título nacional), Melissa McCarthy enfrenta uma oponente feroz, incorporada pela esguia e atlética atriz nova-iorquina Nargis Fakhri. Encenada na cozinha de um restaurante, a luta inclui a personagem de McCarthy utilizando uma variedade de produtos alimentícios para desviar os golpes de faca da oponente, e eventualmente encontrando a arma de que precisava em uma pequena frigideira. Encenada em ritmo alucinante pelo diretor e roteirista Paul Feig (Missão Madrinha de Casamento), a luta é uma das cenas de ação mais cinéticas, divertidas, surpreendentes e bem-conduzidas do ano – e 2015 foi ano de Mad Max, lembrem-se! Na fisicalidade das duas atrizes, na escolha de não esconder a brutalidade do confronto físico e de dar a sua protagonista ostensivamente cômica um conjunto de habilidades comparável a sua graça em tela, Feig empresta da cartilha de Jackie Chan e cria uma das lutas mais bacanas do cinema na memória recente.

Na trama, McCarthy interpreta Susan, uma analista da divisão técnica da CIA que, após a morte do agente de campo com o qual ela trabalhava (feito por Jude Law), se voluntaria para sair detrás da mesa do escritório e embarcar em uma perseguição internacional por um traficante de armas que botou as mãos em uma ogiva nuclear. Se você quer um pastiche dos filmes de espião que, ao mesmo tempo, acerte todos os pontos altos do entretenimento que eles proporcionam, não recorra à Kingsman, a esnobe aventura dirigida por Matthew Vaughn, mas sim à Spy. De brinde, ainda dá para ganhar uma performance espetacular de McCarthy, tremendamente engraçada sem nunca se contentar em ser o alvo das piadas – com a ajuda de Feig, ela faz de sua Susan uma protagonista para a qual torcemos, e que faz valer a nossa torcia. Spy é uma celebração dos talentos dessa mulher que tantos subestimaram, e para a gordinha McCarthy, essa deve ser uma história familiar até demais.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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