12 de jan de 2016

Review: Quentin Tarantino cresce ainda mais (e faz um de seus melhores filmes) com "Os Oito Odiados"

 

por Caio Coletti

Quentin Tarantino não tinha completado 30 anos ainda quando ascendeu à fama com Cães de Aluguel, o thriller independente que abriu caminho para o lendário Pulp Fiction, lançado 22 anos atrás. Nas últimas duas décadas, portanto, Tarantino operou no centro dos holofotes, mesmo nos longos seis anos de pausa entre Jackie Brown (1997) e Kill Bill: Vol. 1 (2003) – quando ele voltou aos cinemas, parecia nunca ter ido embora, tamanho o hype que cercava sua nova obra. O seu processo de amadurecimento como artista escancarado para quem quisesse absorvê-lo em cada um de seus filmes, Tarantino tomou uma lenta e tortuosa estrada que o colocou, ao mesmo tempo que em uma posição vulnerável, na perspectiva única de um autor criando as particularidades e temáticas do seu universo na frente do grande público, e com eloquência infalível.

A essa altura, em Os Oito Odiados, já sabemos de cor e salteado os elementos que podemos esperar de um filme de Tarantino: os diálogos intrincados e (cada vez mais conforme a carreira foi avançando) longos; temas primordiais como a vingança do oprimido contra o opressor (mulheres e homens em À Prova de Morte, judeus e nazistas em Bastardos, escravos e escravocratas em Django); e a indelével ultra-violência niilista e ligeiramente irrealista do diretor. Esses elementos, junto com a trupe geralmente limitada de atores recorrentes nos filmes de Tarantino, faz de cada um deles uma experiência que poderia ser familiar demais – mas o diretor tira prazer em surpreender o espectador, e Os Oito Odiados não é exceção. Misturando os ingredientes de sempre, ele cria uma narrativa que é uma evolução natural de todas as temáticas e discursos que ele vem construindo na segunda parte da carreira (a partir de Kill Bill Vol. 2), e que surpreende principalmente pelo simples fato de ser tão, tão intimista.

Não que Tarantino tenha feito um drama delicado sobre as sutilezas humanas. Pelo contrário, o seu discurso é pop, atual, enérgico e esperto como sempre, mesmo que respeite muito mais as convenções e exigências do gênero em que atua (o faroeste) aqui do que em Django. Em Os Oito Odiados, os requintes de crueldade e as brincadeiras conceituais e narrativas do diretor/roteirista aparecem dentro do contexto, e não nos transportando para fora dele, e o adjetivo “intimista” é ganho pura e simplesmente pela natureza da trama, que se concentra em um rol pequeno de personagens, presos em uma única locação. O mais perto que o filme tem de um protagonista é Marquis Warren (Samuel L. Jackson), um caçador de recompensas, ex-escravo e ex-soldado das forças militares pela abolição da escravatura na Guerra Civil americana – ele topa com John Ruth (Kurt Russell), outro caçador de recompensas, que está transportando uma condenada (Jennifer Jason Leigh) para a forca. Pegos de surpresa por uma tempestade de neve, eles são obrigados a tomar abrigo em um estabelecimento à beira da estreada, onde os outros cinco “odiáveis” do título estão entocados.

É nesse confinamento que o filme toma parte na imensa maioria do tempo – de forma que uma esmagadora maioria da sua metragem é gasta com a interação entre os personagens e construindo o clima de tensão que existe entre eles. Localizado no pós-Guerra Civil, Os Oito Odiados abraça com vontade o contexto da história e lança um discurso tremendamente oportuno (e maduro) sobre racismo, machismo e as consequências da violência. Tarantino não tem pudor de colocar seus personagens usando o polêmico epiteto “nigger” para se referir ao personagem de Samuel L. Jackson, porque o desconforto racial e o contexto que existe entre os personagens fala mais alto. Em outros tempos de sua carreira, pareceria uma polêmica gratuita, enquanto hoje a escolha é sustentada pelo discurso do filme, que coloca personagens marcados, de um jeito ou de outro, pelo vicioso e racista conflito bélico que marcou a história dos EUA, e examina as suas ideias de violência, justiça, vingança e moralidade.


Tecnicamente, há de argumentar que Os Oito Odiados é também o filme mais refinado de Tarantino. Pedindo para o seu contumaz colaborar Robert Richardson fotografar o filme em Ultra Panavision 70, um processo que não era usado há quase meio século (sério, o último a usá-lo foi Khartoum, de 1966), Tarantino cria algo além de beleza estética, garantida pelo talento de Richardson – no formato ultra-widescreen de Os Oito Odiados, a ambientação quase teatral da trama se expande, a pequenez dos nossos personagens frente à natureza que se estende ao redor deles sublinhada por uma câmera que não perdoa. Na trilha-sonora, ninguém menos que o mestre dos faroestes Ennio Morricone pode ganhar um Oscar tardio (aos 88 anos!) graças ao filme, uma vez que suas composições originais adicionam tanta nuance às cenas e ao clima da história, usando notas dissonantes do piano com a maestria que só o responsável pela trilha de faroestes como Por Um Punhado de Dólares e Três Homens em Conflito poderia ter.

Samuel L. Jackson e Jennifer Jason Leigh são os destaques inevitáveis do elenco. Na pele do ex-Major Marquis, o colaborador mais frequente de Tarantino encarna o que pode ser seu melhor personagem nas mãos do diretor, emprestando tanto sua já esperada intensidade quanto uma boa dose de sutileza para a forma como expressa as particularidades desse caçador de recompensas. No espetacular monólogo em que se vinga de um ex-general da Guerra Civil conhecido por matar soldados negros, Jackson deixa que a loucura sádica absoluta do personagem transborde o bastante para mostrar o senso de justiça que existe por trás dela – é um feito difícil que Tarantino pede do seu protagonista, mas Jackson acerta em cheio. Leigh, por sua vez, na primeira colaboração com o diretor, cria a personagem mais marcante do filme: sua Daisy Domergue, que passa as quase três horas de metragem com sangue manchando o rosto e sendo abusada e maltratada pelos seus co-protagonistas, é uma criatura feral e visceral em muitos sentidos, mas é também uma mulher subjugada e julgada pelos caminhos que tomou e pelas escolhas que fez para se sentir segura (e livre) em uma sociedade que lhe permitia quase nada. Daisy tem um espírito violento e cruel, mas Leigh deixa claro onde ela o conseguiu.

Lá em 1994, pouca gente diria que Quentin Tarantino estaria fazendo um filme tão complexo (e, ao mesmo tempo, tão contido – pelo menos até o clímax) quanto Os Oito Odiados. Ainda menos gente diria que esse roteirista do Tennessee estaria escrevendo um roteiro sobre os valores fundamentais da civilização ocidental e a essencial falha que existe neles e na forma como eles foram escritos. Os Oito Odiados é tudo o que ninguém nunca esperou de Quentin Tarantino, sem perder a prerrogativa de ser uma das sessões de cinema mais verdadeiramente divertidas do ano. 22 anos mudam as pessoas – e ainda bem que mudam.

✰✰✰✰✰ (5/5)


Os Oito Odiados (The Hateful Eight, EUA, 2015)
Direção e roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Coggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern, Zoë Bell, Channing Tatum
184 minutos

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