18 de fev de 2016

Por que “Sleepy Hollow” ainda é um dos melhores procedurals no ar atualmente?

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por Caio Coletti

Quando Sleepy Hollow estreou, lá no final de 2013, ninguém esperava que a nova série de FOX fosse qualquer coisa além de um desastre. A premissa não ajudava: ressuscitado de seu túmulo na cidade-título dois séculos e meio depois de sua luta contra o cavaleiro sem-cabeça, Ichabod Crane se juntava à policial Abbie Mills para investigar e derrotar ameaças sobrenaturais ligadas ao próprio apocalipse. A surpresa foi perceber que Sleepy Hollow sabia que seu ponto de partida era ridículo, e sabia fazer proveito disso – logo no primeiro episódio, dirigido por Len Wiseman (Anjos da Noite, Duro de Matar 4.0), o cavaleiro sem-cabeça reaparecia e atacava os nossos heróis com uma espingarda (?!); mais tarde, John Noble (Fringe) encarnou o misterioso Henry Parrish, que começou como um guest star comum e logo se revelou parte integral da mitologia complicada que Sleepy Hollow teceu. Com uma primeira temporada espetacularmente divertida em mãos, não era difícil prever que a série teria problemas em cumprir as expectativas no segundo ano.

O problema com dita segunda temporada foi essencialmente que Sleepy Hollow começou a se levar a sério demais – embora a mitologia e a narrativa do apocalipse continuassem estupidamente absurdas, a série começou mergulhar de cabeça em reviravoltas e dramas familiares que distraiam o espectador do que realmente funcionava na produção, nomeadamente as ideias absurdas de monstro-da-semana e a relação entre Abbie e Crane, tecida com habilidade por Tom Mison e Nicole Beharie. Os melhores momentos de Sleepy Hollow são indiscutivelmente entre os dois, a química que os personagens opostos representam e a amizade que eles constroem, dividindo uma conexão que a série torna especial ao nos dizer que ambos são as profetizadas Testemunhas do Apocalipse, mas que é concretizada mesmo nas atuações e nos pequenos momentos de interação entre eles. A segunda temporada trocou tudo isso por um drama marital entre Crane e Katrina (Katia Winter), sua ex-esposa bruxa, encerrando a storyline do cavaleiro sem-cabeça e de Henry Parrish sem muita convicção antes de espertamente “limpar o tabuleiro” para o terceiro ano.

Trocando de showrunner e de vilão principal, introduzindo a intrigante Pandora de Shannyn Sossamon (Wayward Pines), Sleepy Hollow engatou em uma marcha mais procedural novamente no terceiro ano, contando uma história que tem consequências a longo prazo, mas essencialmente se abre e se fecha a cada semana. Não é a toa que a série fez crossover com Bones, maior sucesso da FOX há 11 anos, recentemente. A briga por recuperar a audiência não está exatamente funcionando, mas Sleepy Hollow mesmo assim parece ter se reencontrado – Sossamon traz mistério e uma consciência aguda do absurdo da trama no papel de Pandora, e os roteiristas cada vez mais se concentram na relação entre Crane e Abbie, abrindo espaço ainda para personagens coadjuvantes como Jenny (Lyndie Greenwood) e Joe (Zach Appelman) respirarem e ganharem vida própria.

Não acredite no que você lê por aí: a aposta do terceiro ano de Sleepy Hollow está funcionando, e os dois últimos episódios (3x09, “One Life”/3x10, “Incident at Stone Manor”) são a prova cabal disso. Com Abbie tendo se sacrificado para salvar Jenny, sua irmã, o grupo precisa lidar com a falta dela ao mesmo tempo em que novos monstros surgem, e Crane não desiste de procurá-la, acreditando que ela está presa em algum lugar do submundo. Sem querer dar muitos spoilers, resta dizer que logo encontramos a personagem de Nicole Beharie presa em um local estranhíssimo, realizado com efeitos especiais e senso de kitsch pela série, e sua jornada de volta para o nosso mundo é dramática. É verdade que Sleepy Hollow se adaptou a alguns caminhos narrativos que parecem familiares ou previsíveis, enquanto a surpresa era um dos principais elementos que davam combustível para a primeira temporada, mas uma história familiar bem contada e bem atuada ainda pode valer a pena.

Além do mais, essa nova Sleepy Hollow, mais do que a antiga, vive e morre pelas atuações de Beharie e Mison, e não há nada de errado nisso. Ambos, em seus próprios estilos, estão espetaculares na série – Mison traz uma sensibilidade teatral para Crane, seus maneirismos, seu sotaque e sua frustração com o mundo moderno; e Beharie ainda é o centro emocional da série, segurando com unhas e dentes sua personagem e ajustando seu estilo expressivo para as situações absurdas do roteiro. Eles parecem estar se divertido quando juntos em cena, e nada impede o expectador de se divertir com eles – pode ser que Sleepy Hollow não seja mais aquela série pela qual você se apaixonou em 2013, e pode ser que procedural de fantasia não seja exatamente sua praia, mas isso não significa que ela se tornou uma abominação. Se a FOX e os espectadores deixarem, Sleepy Hollow ainda pode ser uma consistente fonte de entretenimento e emoção por uns bons anos, e você não vai me ver reclamando.

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