17 de fev de 2016

Review: “O Regresso” não crê na humanidade, e tem uma boa razão para isso

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por Caio Coletti

Não acredite no que você ler por aí: O Regresso não é um filme sobre o homem vs. a natureza. Por alguns breves momentos, talvez, quando a câmera de Alejandro G. Iñárritu (Birdman) e de seu fiel escudeiro, o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, exploram a tensa e brutal cena em que o protagonista feito por Leonardo DiCaprio luta contra um urso selvagem enorme. A fama adquirida por tal sequência, filmada com inclemente continuidade por Iñárritu e Lubezki, e as extremas condições meteorológicas e geográficas enfrentadas pelo protagonista em sua história de sobrevivência e vingança, devem ter dirigido a maioria dos críticos nessa direção, mas a verdade é que O Regresso usa desses elementos para contar e espelhar uma história que é fundamentalmente sobre um homem vs. o outro, ou vs. si mesmo. Destrinchando políticas sociais e raciais da época em que os colonizadores invadiam os territórios dos nativos-americanos e lhes roubavam de tudo, O Regresso nos apresenta um mundo em que, não diferente dos outros da filmografia de Inárritu, tirar vantagem própria de uma situação de fraqueza do outro é o que faz do homem o que ele é.

Após o mencionado ataque do urso selvagem, Hugh Glass (DiCaprio), parte de um grupo de revendedores de couro e pele de animais que invadiu o território de uma tribo indígena, é deixado para trás por seus colegas. O módico de decência que existe em seu capitão (Domhnall Gleeson, uma das poucas notas falsas do filme) exige que dois outros homens sejam deixados para trás para cuidar do companheiro ferido e dar a ele um enterro digno quando for a hora – Bridger (Will Poulter) pretende seguir as ordens, mas John Fitzgerald (Tom Hardy) tem outros planos, que envolvem o filho meio-nativo-americano de Glass, chamado Hawk (Forrest Goodluck). A épica jornada de Glass do local em que foi deixado por Fitzgerald e Bridger até a base dos colonizadores, em busca de vingança, forma o alicerce do filme, e no caminho ele topa com nativos misteriosos que o provem com comida, tribos hostis que o obrigam a entrar em um rio congelante e traiçoeiro, um grupo de colonizadores franceses cuja conduta em relação aos nativos é repugnante. Embora se passe largamente num ambiente selvagem, O Regresso nunca é capaz de abandonar a humanidade, talvez para nos dizer que a civilização é uma ilusão, um construto que criamos para disfarçar nossa essencial animalidade.

Os filmes de Iñárritu sempre tiveram esse discurso pessimista, esse olhar cínico e opressivo em relação à condição humana, e O Regresso não é diferente. Não é que o mundo (e nós, que o habitamos) seja completamente desprovido de decência, solidariedade ou heroísmo – é que nossa decência, nossa solidariedade e nosso heroísmo são reflexões tortas e só meio efetivas da nossa natureza, que é essencialmente egoísta. Para cada fio de luz, uma imensidão de escuridão. Para Hugh Glass, feito com bravura por Leonardo DiCaprio, essa jornada por diferentes tipos de interação humana é também uma jornada de túmulo a túmulo – em um diálogo memorável, o personagem diz: “Não tenho mais medo de morrer. Eu já morri antes.”. O espectador, invariavelmente, acredita. Na sua impressionante atuação de método, se arrastando pelas paisagens naturais do filme e transmitindo ao espectador com sutileza notável o sofrimento e a obstinação do personagem, DiCaprio encontra por baixo das camadas físicas um homem que conhece bem demais as áreas cinzas e as sombras do mundo em que vive. Deixado em um túmulo raso por Fitzgerald e Bridger, desmaiado na beira de um rio congelante, emergindo de um casulo formado de troncos e gravetos ou se escondendo dentro de um animal morto para se proteger do frio, a impressão que fica é que Glass morre a cada vez que fecha os olhos – e o efeito da atuação de DiCaprio é lento e inestimável.

A não ser por Gleeson, o elenco coadjuvante também entrega bons momentos. No pouco tempo que é dado, Poulter serve como a face da “inocência” sendo esmagada e ensinada pela hipocrisia e pelo egoísmo de terceiros; e Hardy está, como de costume, incrível em um papel que lhe cai como uma luva, um calculista e desesperado vilão que vê tudo que conquistou escapar de suas mãos (e seu trabalho ser explorado por aqueles que o contrataram) e reage com violência, subterfúgios e um espanto que logo se transforma em revolta e atitudes impulsionadas por um niilismo tremendo. O excelente trabalho de fotografia de Lubezki combina lirismo com o tom sóbrio e realista das sequências mais focadas na provação física enfrentada por Glass com maestria – é um casamento que abusa de decisões extremas, como a de filmar tudo com a luz natural, e as usa para criar imagens ainda mais impressionantes. A hercúlea duração do filme, imposta com aridez e firmeza por Iñárritu, garante que O Regresso se torne uma experiência imersiva, exaustiva e complexa, que exige a atenção do espectador e o “recompensa” com uma dura crítica existencial e social. É um filme corajoso, intermitentemente belo, mas integralmente honesto quanto ao seu retrato do mundo e da humanidade, tanto a dos idos de 1820 quanto a de hoje. As mudanças, de lá para cá, são só de superfície.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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O Regresso (The Revenant, EUA, 2015)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, WIll Poulter, Forrest Goodluck
156 minutos

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