27 de mar de 2016

Review: “Batman vs. Superman” só erra quando não está totalmente comprometido com a sua proposta

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por Caio Coletti

“Você sabe qual é a mentira mais antiga da América, senadora? É a que diz que o poder pode ser inocente”. A frase, que sai da boca de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) em uma conversa que se promete profética com a Senadora Finch (Holly Hunter), foi polêmica durante o tempo de divulgação de Batman vs. Superman, porque um dos trailers editou a primeira metade dessa fala de Luthor com uma outra resposta, tirada de outro momento do filme. A versão final da sentença que ouvimos, no entanto, não poderia ser outra se ponderarmos os temas e a narrativa de Batman vs Superman – essencialmente, esse é um filme sobre a corrupção do poder, a cegueira que vem dos privilégios, a forma com o mito do super-herói está enrolado em uma névoa desse privilégio, e a forma como eles representam, no subconsciente que manifestam nas páginas dos quadrinhos, tanto o sonho e a aspiração da nobreza humana quanto o medo e o autoritarismo da submissão a uma justiça vigilante essencialmente bárbara.

Então sim, Lex, o poder não pode ser inocente, e nenhum dos nossos dois heróis também pode. Somos reapresentados ao Superman de Henry Cavill, que vimos em O Homem de Aço, e ficamos sabendo que a batalha de proporções gigantescas que assolou a cidade de Metrópolis inteira no clímax do filme de 2013 voltou uma parte do público e do poder político contra ele, especialmente vítimas de danos colaterais e alguns desconfiados da onipotência desse Deus que anda entre nós. Amado e odiado ao mesmo tempo, é difícil passar o Superman como o mocinho injustiçado quando sua preocupação real com as vítimas do que causou de destruição é abordada só de passagem, e quando Cavill, ridiculamente bonito como de costume, o interpreta como um menino mimado que tenta ser responsável pela primeira vez na vida mesmo que tenha brinquedos demais nas mãos. De sua forma, Superman é a esperança e a derrocada do sonho americano, ao mesmo tempo que é um estrangeiro, essencialmente, o que muitos não deixam passar – por isso talvez tão apropriado que Cavill seja o primeiro britânico a fazer o papel, se conectando com essa vibração de peixe fora d’água de Kal-El.

Já ao Batman, feito por Ben Affleck pela primeira vez, somos apresentados com a história de origem de sempre, com o assassinato dos pais, o trauma com morcegos na caverna perto da residência dos Wayne, e as habilidades de detetive que fazem par com a potência física impressionante que essa versão do personagem carrega. O Bruce Wayne e o Batman de Affleck não são dois (playboy e vigilante) ou três (playboy, garoto órfão e vigilante) pessoas distintas – ao invés disso, o ator investiu em uma performance que acompanha o filme em que está inserida ao se basear em uma nota fundamental e colorir ao redor dela conforme vai se tornando necessário. A atuação de Affleck é parte importante da engrenagem do filme, e ele parece estar em sincronia o tempo todo com a história.

Em suma, o Batman daqui é o nosso Cavaleiro das Trevas mais velho, ainda agindo em Gotham City, mas mostrando sinais de cansaço para o mordomo Aflred (Jeremy Irons) – após perder muitos funcionários e amigos na batalha de Metrópolis, Wayne só precisa de um empurrãozinho amigável e engenhoso de Lex Luthor para partir para uma guerra em que ninguém espera que ele vença. E e aí que entra a questão: por dois terços de seus colossais 151 minutos, o filme de Zack Snyder flerta (ou melhor, entra em um namoro sério) com o terror, seja nos sonhos e pesadelos delirantes de Bruce ou na opressiva viagem do Superman em direção a uma dúvida crucial sobre si mesmo e sua situação no nosso planeta e na jornada da humanidade.

Aqui, Kal-El está questionando os ensinamentos do pai adotivo Jonathan (Kevin Costner, que retorna para uma cena rápida), que lhe disse desde a infância que ele foi mandado aqui por um motivo; e Bruce, por sua vez, busca forçar uma espécie de sentido ou motivo para sua própria vida e combate ao crime, que ele já conjuga em grande parte no passado. São arcos parecidos, como o leitor deve ter percebido, e isso em muitos sentidos coloca Batman vs. Superman não só como um suspense de ação tremendamente bem escrito, como uma meditação mais do que válida sobre a visão que temos de nós mesmos e da sociedade que construímos ao nosso redor, as doses do nosso cinismo e do nosso idealismo, a nossa crença em algo maior que nos une ou que nos separa, a corrupção do poder e o medo dele.

São temas complexos para se costurar em um filme de super-heróis, e embora pause de vez em quando para nos lembrar que é parte de uma franquia de blockbusters que vai invadir os cinemas nos próximos anos, Batman vs. Superman majoritariamente faz seu trabalho com brilhantismo. O roteirista David S. Goyer, voltando da labuta decente, mas muito mais cheia de problemas, em O Homem de Aço, ganhou a ajuda de Chris Terrio, o cara que ganhou o Oscar por Argo, e o resultado é uma trama muito mais redonda, personagens absurdamente mais bem-definidos e tridimensionais, diálogos mais inteligentes e precisos. Enquanto está comprometido com a sua visão, Batman vs. Superman é quase uniformemente excelente – o clímax (o verdadeiro), em que o plano de Luthor é revelado e os dois titãs finalmente descem o pau um no outro, é eletrizante e agourento, pesando sobre o espectador como uma pedra: estamos vendo um Deus, e tudo o que ele representa, sangrar, e a sensação por cima das estetizações de Snyder é de absoluto pânico.

E então, perto do final, Batman vs. Superman se lembra de que precisa ser um filme de super-heróis, e a direção cinética de Snyder nos leva para um caminho completamente diferente, que serve perfeitamente à franquia que a DC está buscando construir mas, por mais absurdamente divertida e badass que seja, diminui um pouco os mais que valiosos esforços do restante do filme de construir uma reflexão, uma narrativa metafórica sobre esses ícones, suas falhas e seus significados para nós, espectadores, representados na população que aparece no filme.

A Mulher Maravilha de Gal Gadot é uma revelação, a atuação de Eisenberg como Luthor é absolutamente dominante do filme, e a trilha-sonora de Hans Zimmer e Junkie XL seria uma concorrente ao Oscar do ano que vem em um mundo justo. As cenas de luta são sensacionais, um dos maiores feitos das equipes de efeitos especiais de Hollywood até hoje, e é inegavelmente empolgante ver uma gama de personagens da DC sendo colocados em tela como vemos acontecer com a Marvel há algum tempo já. Como entretenimento, Batman vs. Superman é perfeito, e não há nada de errado em você querer desfrutar dele assim. No entanto, nada disso muda o fato de que, como arte e narrativa, o filme segue fundamentalmente incompleto – e seus momentos menos satisfatórios vem exatamente quando ele não se compromete à tão criticada proposta sombria de Snyder e da Warner.

Antes um filme ambicioso incompleto, no entanto, do que um sem ambição nenhuma – e é por isso que, da última leva de histórias de super-heróis, Batman vs. Superman sem dúvida é uma das melhores.

✰✰✰✰✰(4,5/5)

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Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, EUA, 2016)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio, David S. Goyer
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot
151 minutos

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